O papel da austeridade na promoção das desigualdades de raça e gênero na TV GGN

As co-autoras do livro Economia pós-pandemia destacaram como raça e gênero são temas sociais que andam juntos na tomada de iniciativas sociais para mitigar a desigualdade no Brasil, exacerbada nos últimos meses, com a chegada da crise sanitária

Reprodução/TV GGN

Jornal GGN – A doutoranda em Direito Político Waleska Batista junto com as economistas Ana Paula Guidolin e Luiza Nassif Pires discutiram os impactos da austeridade em meio à pandemia da Covid-19 sobre as questões de raça e gênero no episódio desta quarta-feira, 2 de dezembro, da série Brasil Milênio, exibida na TV GGN. O debate foi mediado pelo jornalista Luis Nassif. 

As co-autoras do livro Economia Pós-pandemia destacaram como raça e gênero são temas sociais que andam juntos na tomada de iniciativas sociais e políticas públicas para mitigar a desigualdade no Brasil, exacerbada nos últimos meses, com a chegada da crise sanitária. 

Waleska Batista, uma das autoras do capítulo “Racismo na economia e na austeridade fiscal”, apontou para a necessidade do entendimento do racismo estrutural pelas instituições e que somente ações afirmativas de inclusão ainda não suficientes para minar este problema. 

“O racismo estrutural é reflexo de uma relação com o fundamento na raça, consciente ou inconsciente, e esta estrutura organizada reproduz o racismo inclusive nas instituições. Então, ações afirmativas são boas para inclusão, mas não irão resolver as estruturas sociais e econômicas que fazem com que esses valores sejam subalternados”, explicou. 

Outro ponto relevante apontado por Batista é o racismo sobreposto à austeridade. Segundo ela, “os valores colocados, por exemplo, sobre a carga tributária das pessoas negras é mais elevada, especialmente das mulheres negras, do que dos grupos brancos ou de grupos abastados, porque a carga tributária já é feita de uma forma concentrada e não atinge os grupos abastados, então ela já é desigual por si”, apontou. 

A especialista explica que para combater essas disparidades o Estado de faz necessário. “É preciso de uma intervenção estatal, não tem como ficar no requisito moral, porque o moral seria um tratamento patológico das questões da desigualdade racial e a gente vê que se é estrutural eu preciso de uma ação governamental”, disse.

A sobrecarga feminina elevada pela pandemia 

As economistas Ana Paula Guidolin e Luiza Nassif Pires realizaram um trabalho conjunto no artigo sobre a economia relacionada à questão de gênero e os impactos da pandemia na sobrecarga de trabalho feminino e nos casos de violência doméstica. Durante a discussão elas também destacaram os desmontes das intuições públicas de assistência às mulheres.

“Neste cenário de pandemia escolas fecham, creches fecham, as pessoas se isolam, há um aumento de atividades domésticas, como manutenção da casa e atividades de cuidado, essas ações que já eram distribuídas desigualmente, essas sobrecargas, tende a ser absorvidas de forma desigual também”, explicou Guidolin.

Guidolin também alertou que o “isolamento social para algumas mulheres significa estar presa em casa com o seu agressor, ao mesmo tempo em que os sistemas públicos de acolhimento das vítimas também não estão funcionando completamente”. 

“A estrutura de política pública que a gente tem nesse momento é uma resultante de anos de austeridade, de cortes orçamentários. Desde 2015 temos uma desestrutura de políticas públicas com olhar de gênero e aí vem a pandemia e acentua questões que já são sensíveis como a violência doméstica e uso do tempo de trabalho”, disparou. 

Já Luiza Nassif Pires destacou como o fim do auxílio-emergencial pago para a população  de baixa-renda no Brasil, abraçando principalmente as mulheres chefes de família, pode acentuar as desigualdades. “Precisamos falar da importância que o auxílio-emergencial teve até agora e que vai acabar em dezembro. Muito dos impactos negativos que a gente teve e que vamos observar sobre o aumento das desigualdade de gênero e raça ainda não chegaram, eles vão chegar assim que o auxílio terminar”, explicou.  

Pires também fala sobre como gênero e raça são questões que andam juntas. “Não dá pra desvencilhar gênero da questão de raça no Brasil, porque muito das atividades domésticas são terceirizadas e a maior parte das empregadas domésticas são mulheres negras”, disse.  

As entrevistadas também abordaram temas como o índice da mortalidade de gestantes no Brasil, as questões das políticas de cotas raciais e sociais, o ambiente de trabalho e o racismo, além da ocupação de mulheres em cargos de liderança. Assista o programa na íntegra:

Sobre o livro Economia Pós-Pandemia: desmontando os mitos da austeridade fiscal e construindo um novo paradigma econômico”:

A obra, com coordenação de Esther Dweck, Pedro Rossi e Ana Luíza Matos de Oliveira, reúne 34 autores e faz um raio X do discurso falacioso da austeridade fiscal, da atual agenda econômica brasileira. A obra pode ser baixada (aqui).

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