Por que os manifestantes bolsonaristas estão cada vez mais à vontade nas ruas?, por Wilson Ferreira

Uma narrativa midiática construída a partir de dois eixos: (a) Bolsonaro é um bicho acuado e com medo de ser preso; (b) A economia vai mal porque temos um presidente que não quer trabalhar. A missão é blindar a agenda neoliberal.

Por que os manifestantes bolsonaristas estão cada vez mais à vontade nas ruas?

por Wilson Ferreira

Pela experiência desse humilde blogueiro, sempre que manifestantes que vão às ruas protestar há medo e tensão no ar (o medo do aparato repressivo policial), somente superados pelo idealismo. Mas o que acompanhamos no Sete de Setembro foi, de um lado, a ansiedade amedrontada da esquerda e, do outro, as “flashmobs” bolsonaristas com manifestantes relaxados, à vontade, como se estivessem numa festa. Apesar do propósito golpista de invasões e quebra-quebras. Enquanto policiais militares apenas observaram e até ajudaram, como em Brasília. Se Bolsonaro está assim tão “isolado”, porque sente-se também tão à vontade, sempre subindo o tom? Porque sabe que conta com uma, até aqui, vitoriosa estratégia alt-right de comunicação. Além da grande mídia como a parceira “morde-assopra” com a missão de apagar os rastros da PsyOp militar que pariu o candidato manchuriano Bolsonaro. Uma narrativa midiática construída a partir de dois eixos: (a) Bolsonaro é um bicho acuado e com medo de ser preso; (b) A economia vai mal porque temos um presidente que não quer trabalhar. A missão é blindar a agenda neoliberal.   

Um país todo em transe! Sente-se a tensão no ar, por toda parte e em todas as faces e vozes. Nesta noite somos todos reféns de uma narrativa psicótica que infectou milhões de mentes por todo país. O vírus informacional é tão letal quanto o vírus pandêmico. É preciso vacina p/ ambos.

Essa postagem em uma rede social do neurocientista Miguel Nicolelis é uma síntese da pesada atmosfera que tomou das redes sociais na noite que antecedeu o Sete de Setembro. Imagens, tanto nas redes quanto na TV, mostravam “manifestantes” em Brasília, alucinados, derrubando o isolamento da Esplanada dos Ministérios sob o olhar compassivo dos policiais militares, que conversavam entre si dando risadas e, alguns, concentrados na tela de seus celulares.

“Tenho medo de dormir e acordar numa ditadura” ou “A Noite dos Cristais em Brasília” (referência ao ataque massivo a lojas, edifícios e sinagogas pelas milícias da SA durante a ascensão do nazismo, enquanto policiais e autoridades apenas observaram sem intervir) eram algumas postagens que expressavam o clima de medo, angústia e ansiedade diante da ameaça das tropas bolsonaristas invadirem Congresso e STF como ato decisivo para o tão temido “golpe”, com apoio da própria polícia militar.

O cientista político Aldo Fornazieri fala em uma “República prostrada”: “Muitos ativistas e simpatizantes das esquerdas não foram para os atos por medo. Não é para menos: políticos dos partidos de esquerda, analistas e sites passaram esses dois anos e meio do governo Bolsonaro exercendo a pedagogia do medo. Medo dos militares, do golpe etc.” – clique aqui

Enquanto sentia-se essa tensão angustiante em meios progressistas (que acabaram confinados na praça de concreto em que se transformou o Vale do Anhangabaú), vimos os bolsomínios em verde-amarelo ocupando os palcos midiáticos privilegiados (Avenida Paulista e Esplanada dos Ministérios) com todo o foco da grande mídia – por exemplo a “breaking news” da CNN era a seguinte: “Eventos pró-governo tomam várias cidades; há atos contra”; enquanto César Tralli na GloboNews era reticente: “assim que tiver alguma novidade, nos avisa daí do Anhangabaú…”, retornando aos “atos anti-democráticos” que ocuparam 90% do tempo de cobertura ao vivo.

Em todas as imagens (principalmente aquelas mostradas de dentro da malta bolsonarista) o que fica mais evidente é a absoluta segurança e tranquilidade dos apoiadores de Bolsonaro: todos gritando, concedendo inomináveis entrevistas a canais bolsonaristas ao vivo, fazendo selfies em meio à multidão etc. Seria normal (e é essa a experiência desse humilde blogueiro em manifestações à época da ditadura militar) manifestantes tensos e alertas a qualquer ato repressivo policial – principalmente pelo que preconizavam:  invadir, quebrar, expulsar ministros.

Uma estranha militância relaxada, assim como a de Bolsonaro que, extrovertido e confiante, em São Paulo elevou ainda mais o tom golpista, em relação ao discurso de horas antes em Brasília. A confiança daqueles que, sabem, têm a retaguarda protegida e sabem principalmente que nada irá acontecer. Embora gritem por “liberdade”, eles parecem ter toda a liberdade do mundo. Afinal, até o ex-prisioneiro considerado “homem-bomba” Fabrício Queiroz, que iria supostamente derrubar o Governo Bolsonaro, apareceu em meio à turba no Rio de Janeiro, sorridente e posando para fotos com felizes adeptos numa manhã de sol na praia… 

Unicamente a esquerda e oposições estão amedrontadas com um suposto golpe – enquanto o restante da população, a “maioria silenciosa”, está indiferente a tudo porque tem que lutar para sobreviver. 

Policiais militares apenas olham e dão risadas

Mais uma vez, a vitória alt-right na comunicação

O que ocorreu no Sete de Setembro foi, mais uma vez, a excelência das estratégias de comunicaçãoalt-right. Principalmente, como são capazes de manipular um “clima de opinião” para gerar um estado de psicologia coletiva que a cientista política alemã Elizabeth Noelle-Neumann chamava de “espiral do silêncio”.

Segundo Noelle-Neumann, todos nós temos uma espécie de “sexto sentido”, um “órgão quase estatístico” baseado em impressões sobre o que o coletivo está pensando ou sentindo. Impressões que podem ser manipuladas por uma verdadeira engenharia da percepção: tudo começou com a propaganda política clássica, para evoluir para as estratégias indiretas das Relações Públicas e do Marketing. Para alcançar o pragmatismo político definitivo nas estratégias alt-right de ação direta nas ruas e apropriação e ressignificação semiótica.

Manipulações que criam climas de unanimidades, conflitos, ameaças, diante das quais a opinião individual opositora torna-se supostamente minoritária, passível de isolamento, zombaria ou mesmo de ameaça física ou psicológica. 

Na noite de 6 de setembro acompanhamos a clássica técnica de ação direta dos bolsonaristas: filas de caminhões (os indefectíveis cavalos mecânicos brancos embandeirados e sem identificação), carros, motos, acelerando, buzinando, com bandeiras do Brasil sendo agitadas, gente para fora da janela gritando. Numa velocidade aparentemente calculada para criar congestionamentos – imageticamente ampliados pelos planos de câmera fechados da TV.

Num português claro: conseguem CAUSAR. O rendimento semiótico dessa “causação” é a percepção de avalanche, urgência, estouro. Os bolsomínios podem ser minoria, mas são barulhentos. Durante todo o dia 7, esse blogueiro testemunhou motociclistas desfraldando bandeiras brasileiras e faixas verde-amarelo em avenidas de São Paulo.

A última vez que vi a esquerda com atitudes audaciosas e desafiadoras como essas foi na campanha Lula-Lá em 1989.

Em outras palavras, as PsyOps militares tornaram-se mais audaciosas do que o fantasma do caos e anarquia que sempre a esquerda representou para o sistema. Se no passado, a formação positivista comtiana militar orientava-se pelo lema “ordem e progresso”, hoje é o inverso: “caos é progresso”. Um caos funcional, gerido como uma operação psicológica para criar medo e ansiedade difusos, intimidando a esquerda e oposições diante de uma “crise institucional”. E o efeito psicológico da espiral do silêncio: antes era a pandemia. Agora, é a belicosidade das flashmobs bolsonaristas. Paradoxalmente, quem assume o papel de fantasma da desordem e anarquia são os militares, roubando esse histórico papel das esquerdas.

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