5 de junho de 2026

Pré-Keynesianos se apresentam como Donos da Verdade: Parte II, por Fernando Nogueira da Costa

Os pré-keynesianos continuam adeptos da Teoria Quantitativa da Moeda – e por que não dizer? São ainda crentes do natimorto monetarismo

Pré-Keynesianos se apresentam como Donos da Verdade: Parte II

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por Fernando Nogueira da Costa

Face ao meu espanto com a descrença de “colunistas pautados pela Faria Lima” no efeito multiplicador da renda pelos gastos – são componentes da demanda final o consumo, o investimento, o gasto governamental e as exportações líquidas –, lembrei-me do tipo de gente com esse pensamento econômico anacrônico, isto é, o pré-keynesiano. Os crentes da ideologia “libertária” (sic) da Escola Austríaca taxam sumariamente: “a teoria do multiplicador keynesiano não só é completamente sem sentido, como ainda é o oposto da realidade”.

Com base em abstração de todas as instituições – Estado, dinheiro, dívida, sindicatos etc. –, eles inicialmente constroem um mundo idílico com base em “o que deveria ser” de acordo com sua ideologia ultraliberal. Quando reintroduzem o antes abstraído, o fazem de maneira anacrônica, frente à história, com a pregação de um Estado mínimo, a argumentação da moeda ser neutra, a condenação do endividamento por provocar ciclos, a eliminação dos sindicatos por ser “coisa de esquerda” – e eles serem anticomunistas acima de tudo.

A Economia Positiva pesquisa “o que é”: o funcionamento do sistema econômico, sem se preocupar com juízos de valor a respeito dos resultados. Em contraponto, a Economia Normativa, adotada pelos “austríacos”, se preocupa precisamente com juízos de valores em “o que deveria ser”: qual resultado desejam e qual resultado abominam.

Criticam os keynesianos, adeptos da revolução realizada por Keynes na história do pensamento econômico. Isto por estes afirmarem: “a demanda conduz a produção, porque os gastos de alguns propiciam a renda de outros agentes econômicos”.

O multiplicador de renda é um tipo de multiplicador de gastos. Segundo esse conceito macroeconômico, uma variação nos gastos autônomos (investimento, gasto governamental ou exportações líquidas) induz variação no valor agregado (renda composta de salário, lucro, juro e aluguel) superior à variação inicial nos gastos: a poupança é ex-post, isto é, o resíduo a posteriori entre o fluxo de renda e o consumo.

A variação inicial nos gastos provoca um incremento primário sobre a renda daqueles agentes econômicos recebedores desses gastos. Eles ampliarão seu consumo, seja com recursos próprios, seja com recursos tomados emprestados de terceiros, de acordo com a propensão marginal a consumir, levando a nova ampliação da renda.

Os agentes beneficiados por esse incremento secundário também aumentarão seu consumo, provocando novo acréscimo de renda, e assim por diante, na sequência riqueza-crédito-gastos-renda. Por meio dessa multiplicação, as elevações de consumo induzidas pelo gasto inicial fazem, no fim, a renda se multiplicar muito além a própria variação inicial da despesa.

O multiplicador de gastos autônomos é inversamente proporcional à fração de retirada (aplicações em outros ativos) por ciclo de gastos, ou seja, à diferença entre a unidade e a fração gasta novamente, devido à propensão marginal a consumir. Depois de todas as rodadas ou os ciclos de gastos, o aumento total na renda será a resultante de todos os gastos em consumo acumulados.

Haverá, concomitantemente, aumento no total de aplicações em ativos financeiros. Servem de lastro como passivos bancários dos empréstimos efetuados pelos bancos para alavancar os gastos, seja em consumo, seja em investimento, pois o multiplicador de renda interage com o multiplicador monetário.

Para os bancos, caso tenha demanda por endividamento, novos empréstimos serão concedidos, se isso não ocorrer, serão feitas aplicações financeiras em carteiras de títulos financeiros. O sistema bancário terá de oferecer produtos financeiros adequados para administrar os hiatos de durations, ou seja, casamento entre os prazos médios ponderados (pelos valores presentes relativos dos fluxos de caixa) de vencimentos de seus ativos e passivos.

É necessário articular os conceitos dinâmicos de multiplicador de gastos e de moeda, para entender como renda e funding são multiplicados, paralelamente, ao longo do tempo futuro. Os pós-keynesianos possuem uma visão dinâmica da economia, observando as variações ao longo do tempo, em contraponto à visão estática e anacrônica dos pré-keynesianos.

Em contraponto, para os adeptos de von Mises e Hayek, “só os bens de consumo poupados possibilitam a manutenção de todo o fluxo de produção”. Os produtores de bens de consumo, em vez de trocá-los todos por outros bens de consumo, decidem trocá-los por equipamentos para produzir bens de consumo em maior quantidade no futuro. A poupança real – e não o crédito – sustenta o investimento.

Pode um aumento na demanda por bens de consumo levar a um aumento na produção total por um múltiplo do aumento inicial da demanda? Para eles, não. O aumento na demanda por bens e serviços está restringido pelo aumento na poupança real.

Esses pré-keynesianos seguem cegamente a Lei de Say ou Lei dos Mercados, divulgada em 1803. Por conta dela, não enxergam as crises de superprodução nem tampouco o desemprego involuntário, porque tudo produzido é consumido. A demanda de um bem é determinada pela renda gerada na oferta de outros bens, logo, a oferta agregada é sempre igual a demanda agregada. Todo o foco é sobre a oferta criadora de demanda.

A introdução do dinheiro, nesse modo de pensar abstrato e/ou ideológico, não altera absolutamente nada caso a moeda permaneça neutra. Segundo a Lei de Say, não existe o entesouramento, pois o dinheiro não gasto por um produtor seria uma poupança repassada ao investidor através de empréstimo.

Idealmente, bancos seriam intermediários financeiros neutros. Caso canalizassem mais crédito em relação à poupança prévia, provocariam inflação (dispersão dos preços relativos), má alocação de capital e ciclos econômicos oscilatórios.

De acordo com o raciocínio tautológico dos ultraliberais, para o governo gastar, ele tem antes de confiscar de alguém, seja via impostos, seja via endividamento, ou emitir moeda. Se ele tomar dinheiro do consumidor ou do investidor, esse alguém ficará impossibilitado de consumir ou de investir. Se emitir moeda, nada tendo sido criado antes, gerará inflação.

Os pré-keynesianos continuam adeptos da Teoria Quantitativa da Moeda – e por que não dizer? São ainda crentes do natimorto monetarismo, dada a baixa inflação em situação de afrouxamento monetário, enquanto houve grande Depressão deflacionária com capacidade produtiva ociosa.

Por isso, o ódio e o deboche contra a Teoria Alternativa da Moeda ou Teoria Moderna da Moeda (MMT na sigla em inglês).Na realidade, a MMT não é uma Teoria Geral, aplicável em todos os lugares e tempos: depende do ciclo econômico, em particular no caso dos Estados Unidos, além de ser contextualizada a uma economia periférica, quando aqui for aplicada sua dedução prática.

Todas boas decisões práticas têm como pré-requisito alguma teoria abstrata comprovada, cientifica e empiricamente, baixar para o nível de teoria aplicada transdisciplinar, reincorporando o antes abstraído, e finalmente datar e localizar. No caso de economias sob o Império do Dólar, é necessário, primeiro, verificar se ela (governo e empresas estatais e privadas) não está muito endividada em dólar.

Caso esse endividamento esteja sob controle e o país dispuser de reservas cambiais suficientes para estabilizar a taxa de câmbio, o problema a ser monitorado – além da fase do ciclo (grau de ociosidade da capacidade produtiva) – refere-se ao gerenciamento da liquidez. No caso brasileiro, com este comportamento o Banco Central coloca a Selic-mercado no nível da Selic-meta, de acordo com o regime de meta inflacionária.

O limite para definir um excesso de liquidez seria uma taxa de juro muito baixa em lugar da costumeira taxa disparatada brasileira. Não garantiria mais a concentração da riqueza financeira? Provocaria fuga de capital para o dólar como ocorre na Argentina?

Já não é hora de rever os conceitos predominantes no jornalismo econômico brasileiro? Não percebe ele ser pautado por interesses escusos dos beneficiários desses juros reais maiores do mundo?

Mais de duas décadas após o governo tucano, o tripé macroeconômico é apresentado como imexível e os economistas “pais do Real” ainda são vistos como gurus – exceto o dissidente André Lara Resende, honesto intelectualmente o suficiente para rever seus conceitos. Mas o regime de alta inflação ainda ameaça a economia brasileira?

Desde 2004, somente em dois anos (2015 e 2021) a taxa de inflação ultrapassou muito o limite superior da meta inflacionário. Nos demais anos, ficou em torno ou abaixo de 6% ao ano ou cerca de 0,5% ao mês.

A inflação não é mais o maior problema da economia brasileira! É sim a estagdesigualdade, isto é, estagnação econômica e concentração de renda e riqueza. É necessário enfrentá-la – e abandonar a ultrapassada política econômica!


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Mário Mendonça

    17 de dezembro de 2022 11:14 am

    Prezado Missivista, rever os conceitos jornalísticos como, se a pauta do dono, oligarca, não permite!?!?!

    A Economia patropi não é pra amadores!

    Abração

  2. josé Oliveira de Araújo

    17 de dezembro de 2022 3:37 pm

    O QUE TEMOS VISTO NOS PRINCIPAIS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO, SÃO OS PMFI’S (PREPOSTO DO MERCADO FANTASIADO DE ISENTO). ACHO ALTAMENTE IMPROVÁVEL QUE ESSES COMENTARISTAS, EXPRESSEM EFETIVAMENTE O QUE PENSAM. NO MEU ENTENDER ELES SÃO PAGOS PARA DIVULGAR O QUE O MERCADO QUER.

    SE FALA MUITO NA LIBERDADE DE IMPRENSA, MAS PRECISAMOS SUBLINHAR QUE BASTA A LIBERDADE EM RELAÇÃO AO ESTADO, MAS TAMBÉM EM RELAÇÃO AO DONO DO VEÍCULO.

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