Teletrabalho e Segmentação Econômica: uma nova fonte de desigualdade, por Jorge Alexandre Neves e Flávio Cireno

Com a intenção de mensurar essa nova segmentação do mercado de trabalho no Brasil, analisamos dados da PNAD Contínua de 2018.

do Observatório Social da Covid-19

Teletrabalho e Segmentação Econômica: uma nova fonte de desigualdade

por Jorge Alexandre Neves[1] e Flávio Cireno[2]

O mercado de trabalho é marcado por uma série de segmentações econômicas que produzem desigualdade. Algumas dessas segmentações são bem pesquisadas por cientistas sociais e economistas: público e privado; formal e informal; primário e secundário. Todavia, com a pandemia da Covid-19, está surgindo uma nova importante segmentação econômica entre posições ocupacionais que permitem o teletrabalho e aquelas que não permitem. Nos próximos meses, ou até anos, é provável que haja novos momentos em que será necessário novas ações de afastamento social. Assim, aqueles que estão em ocupações que permitem a realização do teletrabalho terão menor probabilidade de demissão, bem como de outros tipos de consequências negativas.

Com a intenção de mensurar essa nova segmentação do mercado de trabalho no Brasil, analisamos dados da PNAD Contínua de 2018. Foram analisados os indivíduos da População Economicamente Ativa que se encontravam ocupados no momento da entrevista. A partir da análise da natureza de cada ocupação, dividimos esses indivíduos entre aqueles que estão em ocupações com alta ou baixa probabilidade de realização de teletrabalho.

A Tabela 1 mostra o resultado da segmentação por sexo. Pode-se ver que as mulheres têm uma probabilidade (31,20%) bem maior do que a dos homens (18%) de estar numa ocupação que permite a realização de teletrabalho. Todavia, aqui vale uma observação. Como já foi observado para o caso dos profissionais da área acadêmica[3], embora as mulheres possam ter maior probabilidade de estar em uma ocupação que permite o teletrabalho, sua produtividade tende a ser menor do que a dos homens em momentos de políticas de afastamento social, pois a sociedade patriarcal impõe uma quantidade muito maior de trabalho doméstico para as mulheres do que para os homens[4].

Tabela 1: Sexo e probabilidade de se poder fazer home office.

Leia também:  O inócuo bom-mocismo da pseudoesquerda, por Roberto Bitencourt da Silva
Probabilidade de Teletrabalho Masculino

Frequência

Absoluta

Masculino

Frequência

Relativa

Feminino

Frequência

Absoluta

Feminino

Frequência

Relativa

Alta 9.351.855 18,00% 12.589.038 31,20%
Baixa 42.576.804 82,00% 27.791.028 68,80%
Total 51.928.659 100,00% 40.380.066 100,00%

Fonte: PNAD Contínua 2018.

A Tabela 2 traz o resultado da segmentação por raça. Pode-se ver que os brancos têm uma probabilidade (31%) bem maior do que a dos negros (17,53%) de estar numa ocupação que permite a realização de teletrabalho. Neste caso, a situação fica ainda mais clara, pois a nova segmentação econômica vai na direção de elevação da desigualdade racial sem qualquer dubiedade, quando comparando com a Tabela 1 referente às assimetrias de gênero. Ou seja, no caso das assimetrias raciais, a nova segmentação econômica tem o efeito de elevar as vantagens relativas dos brancos em relação aos negros, no mercado de trabalho.

Tabela 2: Raça e probabilidade de se poder fazer home office.

Probabilidade de Teletrabalho Brancos

Frequência

Absoluta

Brancos

Frequência

Relativa

Negros

Frequência

Absoluta

Negros

Frequência

Relativa

Alta 12.912.327 31,00% 8.687.113 17,53%
Baixa 28.784.946 69,00% 40.861.188 82,47%
Total 41.697.273 100,00% 49.548.301 100,00%

Fonte: PNAD Contínua 2018.

Obs1: O grupo de negros inclui a soma de pretos e pardos. Esses dois grupos foram somados, pois a frequências relativas eram muito semelhantes, 17,10% para pardos e 17,60% para pretos (referentes à alta probabilidade de poder fazer home office).

Obs1: Os amarelos e os indígenas foram excluídos da tabela por serem grupos muito pequenos. Os amarelos têm uma frequência relativa de alta probabilidade de poder fazer home office ainda maior do que os brancos (38,90%), ao passo que os indígenas têm um número pouco superior aos negros (18,90%).

Visto o exposto nas tabelas, acima, pode-se concluir que a segmentação do mercado de trabalho entre ocupações que permitem ou não o teletrabalho irá elevar a desigualdade socioeconômica, no Brasil. Isso em um país que já tem níveis elevadíssimos de desigualdades no mercado de trabalho.

[1] Professor Titular de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais e bolsista de produtividade 2 do CNPq. Ph.D. pela Universidade de Wisconsin-Madison/EUA.

[2] Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e pesquisador da FGV/DGPE. Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais.

[3] Ver: https://www.thelily.com/women-academics-seem-to-be-submitting-fewer-papers-during-coronavirus-never-seen-anything-like-it-says-one-editor/.

[4] Em particular se há no domicílio filhos em idade que demanda cuidados por parte de adultos. As políticas de afastamento social mantêm as escolas fechadas, o que tende a agravar o problema da assimetria de gênero.

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1 comentário

  1. Se já era difícil ser “socialmente justo” em tempos pré-covid, imagina agora que a precarização, exploração do outro, usura e os pavores vão se extremando. O mundo velho vai se rompendo e o novo não é nem que estava pronto. Não havia sido arquitetado e forçosamente vai irrompendo. Rasgando as entranhas fracas e apodrecidas do velho. É uma pena que a humanidade tenha se iludido de que se tornar experto em trazer diagnósticos não é sinal de progresso. Mesmo um animal irracional, na grande maioria das vezes, percebe quando um ambiente está desconfortável para ele.

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