Como virar? A bomba semiótica e acontecimento comunicacional da TARIFA ZERO
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto a militância se distrai com a espuma das provocações bolsonaristas e o frenesi dos algoritmos digitais, a campanha de Lula corre o risco de perder a batalha pelo futuro. Presa na armadilha da comunicação reativa e sufocada pela espuma midiática da extrema-direita, a campanha de Lula corre o risco de afundar no segundo turno se continuar apostando apenas no discurso do “defenda a democracia” e na exibição do passado. Para furar o transe hipnótico das redes e a histeria do mercado, o campo progressista precisa parar de reagir e detonar um verdadeiro acontecimento comunicacional: transformar a TARIFA ZERO na grande bomba semiótica arma de guerra informacional do segundo turno. Choque de realidade que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a jogarem no tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e concreta da vida da classe trabalhadora.
Após o choque e o processo de luto e barganha (principalmente depois dos números do último DataFolha, com Flávio na frente, lembrando que também Dilma, em 2014, largou atrás de Aécio no segundo turno, para depois virar e vencer), agora, perigosamente, a campanha de Lula ameaça se afogar na espuma midiática.
As notícias da suspeita de incêndios criminosos na Universidade Federal de Pernambuco (três em prédios da Universidade em oito dias) – há relatos de estudantes receberam ameaças de bolsonaristas – clique aqui; tiros contra um ato político a favor do presidente Lula em frente à Universidade Federal de Sergipe; a provocação de Flávio, ao dizer que irá “redemocratizar o País” alterando a Constituição etc.
E, como sempre, o Governo mostra a velha estratégia de comunicação reativa: “comparar biografias”, a estratégia do medo – Flávio vai acabar com os programas sociais, cortar as aposentadorias, acabar com o ganho real do salário-mínimo e assim por diante.
Até como resposta aos atentados em universidades, estudantes vão às ruas no Rio e em São Paulo – mais uma variação de comunicação reativa, lembrando em muitos aspectos o movimento “Ele Não!” no segundo turno das eleições de 2018. Manifestações ótimas para elevar o moral da tropa, e nada mais. Continuamos presos na bolha de convertidos.
Ou, tentando furar a famosa “bolha”, vem o frenesi digital: o “Exército de Lula” de Janones no WhatsApp, vídeos de Lula no formato selfie no Tik Tok, “força-tarefa” com lideranças jovens e influenciadores digitais da esquerda com grande votação — como Erika Hilton, Sâmia Bomfim e Ana Elisa — para atuar ativamente na criação e distribuição de conteúdo focado em furar as bolhas ideológicas.
Para furar as bolhas, só falta combinar com os russos, quer dizer, com os algoritmos das Big Techs – algoritmos, a opinião codificada com lado político-ideológico.

Tudo espuma midiática. Aliás, incentivada pelas provocações bolsonaristas e pauta do jornalismo corporativo, com a pergunta cínica de 10 entre 10 entrevistadores: “por que vocês não fizeram isso antes?
Por tudo isso, o campo progressista costuma sofrer de um “racionalismo iluminista”, acreditando que basta mostrar o legado (programas sociais, números do passado) para vencer debates. Além de defender a Democracia e a Soberania, contra Trump e os “mercadores da Pátria”.
Enquanto isso, a extrema-direita e o jornalismo corporativo dominam a pauta através de pânicos morais e terrorismo econômico.
Nesse momento em que digito essas mal traçadas linhas (18h de uma sexta-feira), chove copiosamente lá fora. Imagino centenas de milhares de usuários de trens, metrô e ônibus tentando retornar para casa dentro de um sistema de transporte caro, falho e ineficiente. A última coisa com a qual todos devem estar pensando é sobre a necessidade da “Defesa da Democracia”…
Por isso, deixar de defender o legado e sua continuidade e focar no futuro é urgente e estratégico. Mas não estamos falando em programas, projetos ou promessas genéricas para o futuro.
Jogar a “TARIFA ZERO” no centro do segundo turno não seria apenas uma proposta de governo; seria, principalmente, uma tática de guerra informacional. Vejamos como isso se desenvolve.

1. A Tarifa Zero como “Bomba Semiótica”
No campo conceitual desse Cinegnose, uma bomba semiótica é um artefato midiático desenhado para criar um curto-circuito na narrativa dominante. Ela não é feita para ser explicada racionalmente logo de cara, mas para gerar um impacto cognitivo que sequestra a pauta da grande mídia.
Quando Lula lança a Tarifa Zero, ele detona essa bomba. A explosão imediata traria a formação reativa esperada: a histeria do jornalismo corporativo – editoriais furiosos sobre “irresponsabilidade fiscal”, “medida eleitoreira”, acompanhados do clássico terrorismo econômico (“dólar dispara”, “bolsa cai”).
Aqui estaria o pulo do gato estratégico: a reação histérica da mídia e do mercado não é um obstáculo, é a onda de choque que espalha a bomba.
Ao tentar destruir a proposta, o jornalismo corporativo seria obrigado a falar sobre ela 24 horas por dia. O “vírus” da Tarifa Zero infectaria toda a grade de programação. Lula dobrar a aposta e confrontar Flávio (perguntando: “Se você ganhar, vai manter e encampar a Tarifa Zero?”) é o gatilho que transforma a bomba em uma armadilha perfeita (um double bind).
- Se Flávio disser “não”, ele se coloca contra o alívio financeiro imediato de milhões de trabalhadores.
- Se disser “sim”, ele trai sua base neoliberal e o “deus Mercado”, implodindo sua própria narrativa de austeridade.
Lula passa a pautar o adversário e a mídia, algo que a esquerda raramente consegue fazer, saindo das cordas defensivas para o ataque.
2. O Rompimento do Simulacro: o Acontecimento Comunicacional
O jornalismo corporativo opera criando o que esse Cinegnose (bebendo em Jean Baudrillard) chama de “simulacros” ou “pseudo-eventos” — debates vazios sobre costumes, escândalos fabricados, ou a hiper-realidade das bolhas de redes sociais que giram em falso sem tocar na vida prática das pessoas.
A Tarifa Zero atua como um verdadeiro Acontecimento Comunicacional. Um acontecimento real é aquilo que rompe o roteiro (o script) previsível do espetáculo midiático. Ele não pode ser contido porque toca no Real traumático e material da sociedade.

A mobilidade é o “sistema circulatório da sociedade”. O transporte não é uma questão de nicho identitário ou disputa ideológica abstrata: é biologia social pura. O custo da passagem define se o trabalhador come carne no fim de semana, se o jovem procura emprego mais longe, se a família tem lazer.
Ao injetar a Tarifa Zero no debate, o acontecimento comunicacional fura a bolha algorítmica da extrema-direita. Por quê? Porque as bolhas se alimentam de abstrações e ódio fantasmagórico (o “fantasma do comunismo”, “ideologia de gênero”). A Tarifa Zero puxa o eleitor da hiper-realidade do WhatsApp de volta para a catraca do ônibus lotado.
É impossível para a máquina de fake news lutar contra a materialidade de não pagar passagem.
O desejo imediato de alívio econômico se sobrepõe ao transe hipnótico das redes sociais.
3. O Futuro como Arma (Cronopolítica)
A “cronopolítica” — a política do tempo. No primeiro turno, a comunicação de Lula, ao focar no legado (“eu já fiz”), operou no passado. O problema de focar no passado é que a direita se apropria do monopólio do futuro (ainda que seja um futuro distópico ou reacionário).
A Tarifa Zero devolve o “Futuro” ao campo progressista. Ela desenha um horizonte utópico alcançável. O jornalismo corporativo reagirá com o velho cinismo do “realismo capitalista” (Mark Fisher), dizendo que “não há dinheiro, é impossível”. Mas a bomba semiótica já terá plantado o desejo na psique das massas.
Em síntese: a esquerda precisa aprender com a semiótica política contemporânea. Em vez de pedir desculpas ao mercado e tentar se provar “responsável” na linguagem dos seus inimigos, Lula deve criar o seu próprio campo gravitacional.
A Tarifa Zero é uma bomba de choque de realidade que desliga a máquina de guerra cultural da direita e obriga todos a jogarem no tabuleiro onde a esquerda é mais forte: a transformação material e concreta da vida da classe trabalhadora.
Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.
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