A esquerda no espelho da derrota: é preciso descer ao abismo para reencontrar a si mesma
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Paralisada entre a negação e a barganha enquanto assiste ao avanço avassalador da extrema-direita no Congresso e à ameaça real de um desastre eleitoral no segundo turno, a “constelação de progressismos” brasileira enfrenta sua maior crise de identidade. Cooptada pelo neoliberalismo progressista, viciada na estética do engajamento algorítmico e sucessivamente capturada pela armadilha do pânico moral — onde trocou a crítica material ao capitalismo pelo policiamento comportamental de rede e pelo sensacionalismo moralista —, a esquerda perdeu o chão da fábrica, a periferia e a linguagem da classe trabalhadora. Diante do colapso das ilusões de conciliação e do doisladismo da mídia corporativa, não há atalho em frentes amplas ou peças publicitárias: para estancar a própria irrelevância e reconstruir um projeto de poder popular, a esquerda precisa parar de barganhar com a realidade e descer no abismo para encontrar a si mesma.
Nesse momento, a “esquerda” (ou a “constelação de progressismos”, como nomeou certa vez o filósofo Vladimir Safatle) está nos primeiros estágios do processo psíquico do luto: negação e barganha.
“Buscar a receita para ganhar de virada”, “buscar uma frente ampla”, “reduzir abstenções e falar ao centro político”, “o jogo vai começar, vamos comparar as duas biografias”, “20 dias para impedir o desastre total”, “o jogo está sendo jogado”, “jogo de volta” etc., foram a tônica das exortações do Governo aos sites progressistas: entre a negação e uma tentativa de barganhar com o destino.
E o destino está lá, no Congresso: o PL (a legenda do Bolsonarismo, o demiurgo da chamada trama golpista do 8/1) como o grande vencedor ao emergir das eleições com a maior bancada do Senado Federal (com 19 senadores eleitos nesse domingo, a legenda ocupara 28 cadeiras da Casa Alta em 2027) e a eleição de 121 deputados federais.
Realiza-se totalmente aquilo que esse Cinegnose veio denominando como “modulação semiótica” do jornalismo corporativo: sim! Lula até pode vencer as eleições. Mas, se ganhar, será com a faca no pescoço, desidratado politicamente.
E, pior, diante de um Congresso vingativo. Pronto para fazer impeachments contra os ministros do STF, impor as emendas constitucionais que quiserem e impor mudanças no próprio regimento interno do Congresso. Uma hecatombe institucional!
Se o “parlamentarismo orçamentário” foi a grande bomba armada pelo governo Jair Bolsonaro para Lula, agora a explosão desse artefato rendeu os frutos: As emendas parlamentares, principalmente as emendas Pix e o extinto “orçamento secreto” (emendas de relator RP-9), funcionaram como motores de hiperfragmentação e hiperfidelização de bases eleitorais, favorecendo fortemente a reeleição de parlamentares com mandato e a expansão de legendas associadas ao bolsonarismo e ao Centrão.

Será que a extrema direita leu Gramsci e Althusser?
Enquanto o PT se especializou em eleições majoritárias, a extrema direita “comeu pelas bordas”, isto é, ocupou território do cotidiano do brasileiro: neopentecostalismo e a teologia da prosperidade, o consolo da precarização pelo coach motivacional, o dinheiro “carimbado” pelos deputados e senadores para obras em municípios de apelo visual imediato (como praças, asfalto ou compra de ambulâncias) e assim por diante.
Enquanto as constelações progressistas falam em “avanço do fascismo”, a extrema direita apenas aplica, ironicamente, as lições marxistas de Antonio Gramsci (a liderança política, cultural e ideológica que uma classe social exerce sobre as demais, obtendo o consentimento voluntário da sociedade em vez de governar apenas pela força) e Louis Althusser (o controle da ideologia, persuasão e do consenso pela família, escola, igreja, mídia, instituições culturais e esportivas).
Além de tudo, esse movimento de negação e barganha em plena ressaca eleitoral revela a cooptação que a esquerda sofreu pelas pautas moralistas (nas quais a extrema direita se sente mais à vontade com suas propostas punitivistas). Abandonando, a esquerda, seu terreno histórico da crítica estrutural, material e econômica.
O conceito de “pânico moral”, frequentemente dissecado por nossas análises midiáticas deste Cinegnose, descreve uma tática de agendamento que captura o debate público através de reações emocionais e indignação focada em comportamentos ou valores.
Restando à esquerda atuar de forma reativa no campo comportamental, um território onde a extrema-direita possui vantagem mobilizatória natural. Nesse cenário de avanço conservador no Congresso, a dinâmica do pânico moral opera como uma cortina de fumaça que despolitiza os crimes do capital e os transforma em falhas de caráter individual.

Das ruas ao ecossistema digital
Como na armadilha moral do caso do Banco Master que as constelações progressistas caíram – principalmente porque essas constelações abandonaram as ruas e se concentraram no ecossistema digital. Onde essa pauta moral das denúncias de sexo, orgias e corrupção das elites viraliza e engaja audiência.
No escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master, foram dado destaque para relatórios da Polícia Federal apontaram a suposta realização de festas sexuais para estreitar laços e costurar negociações com políticos, empresários e autoridades do Judiciário.
Sob a ótica da captura pelo pânico moral, o debate público foi rapidamente desviado para o escândalo comportamental, ignorando as engrenagens do poder do Estado Patrimonialista.
Ao focar nas orgias e na conduta sexual privada das autoridades, a oposição e a opinião pública reduzem uma crise institucional a um roteiro de tabloide. O debate passou a girar em torno da hipocrisia ou da imoralidade dos atores envolvidos, algo que gera engajamento rápido nas redes, mas não ameaça a estrutura financeira.
O que desaparece é a anatomia do Estado patrimonialista brasileiro. O foco real deveria ser a captura do Judiciário e do Legislativo pelo capital financeiro, as suspeitas de fraudes financeiras de grande porte, a lavagem de dinheiro e a promiscuidade entre o dinheiro público e os interesses privados.

O Pânico Moral cotidiano
Para além do espetacular escândalo de Vorcaro em festas e orgias com autoridades, no dia a dia, o jornalismo corporativo tocava a agenda do Pânico Moral.
Desde o início do ano a grande mídia veio “empilhando” notícias sobre feminicídios, estupros, violência doméstica, assédio, decisões equivocadas do Judiciário que absolvem estupradores e adultos em vida conjugal com meninas menores de idade em situação análoga à casamento etc.
Esse “empilhamento” de notícias moralmente pesadas refletia um fenômeno real de agendamento midiático que costuma atingir o ápice justamente em anos eleitorais, como este 2026.
A pauta de costumes, do pânico moral e da guerra cultural é o terreno pantanoso no qual a extrema direita se sai melhor. Esse campo do espectro político foge do debate econômico como o vampiro foge da réstia de alho.
Afirmávamos na oportunidade (clique aqui) que a agenda do Pânico Moral iria canibalizar o ano eleitoral. E canibalizou a própria esquerda, como vimos no resultado das eleições nesse domingo.
O “doisladismo” midiático e o Pânico Moral
Em artigo, Paulo Henrique Arantes sentenciava que “o doisladismo hipócrita da mídia já feriu a democracia, agora pode matá-la – clique aqui.
O “doisladismo” ocorre quando o jornalismo tenta apresentar dois lados de uma questão como tendo o mesmo peso, mesmo quando há uma desproporção factual, histórica ou de poder entre eles.
Essa prática editorial busca criar uma falsa simetria entre forças políticas para manter uma aparência de neutralidade jornalística.
Criando, em primeiro lugar, a falsa equivalência: A mídia equipara pautas econômicas ou sociais da esquerda com ataques diretos às instituições promovidos pela extrema-direita, tratando ambos como polos naturais do jogo democrático.
Mas, principalmente, opera a hipernormalização: Ao tratar o aparelhamento de instituições, a leniência com escândalos bilionários ou a retórica anti-sistema como meras “posições conservadoras”, a imprensa normaliza o extremismo.
A sociedade é anestesiada; o inaceitável passa a ser visto como apenas mais um dia no noticiário político.
Certamente esse doisladismo acaba se conectando com a agenda do pânico moral no porquê de todo o caso Banco Master e os escandalosos caminhos do financiamento do filme Dark Horse a partir do banqueiro Daniel Vorcaro não terem sequer chamuscado a imagem e os votos de Flávio Bolsonaro – dentro da perspectiva do “doisladismo” o jornalismo corporativo avaliou como “resiliência do candidato”…

As falsas equivalências criadas pela bomba semiótica do Pânico Moral (do caso “Lulinha” ao financiamento suspeito de Dark Horse) acabou por criar a atmosfera na qual a extrema-direita vive: a dissonância cognitiva – o empilhamento das notícias de escândalos morais reforça a aversão à Política (“todos os políticos são ladrões!”). Sabendo-se que Flávio não é visto como um “político” stricto sensu, mas “o filho de Bolsonaro”.
Descer no abismo
De tudo isso, esse humilde blogueiro argumenta que a esquerda brasileira caiu em uma armadilha: foi cooptada pelos “progressismos”, expondo a reconfiguração da própria esquerda ocidental nas últimas décadas: a substituição do projeto histórico de emancipação econômica e combate à exploração de classe pela adesão ao que a filósofa Nancy Fraser conceitua como neoliberalismo progressista.
Nessa aliança tácita com o capital financeiro, a esquerda aceitou a estrutura de mercado como insuperável, restringindo sua atuação à disputa simbólica de reconhecimento e à representatividade corporativa.
Essa reconfiguração encontrou o ambiente perfeito na economia das plataformas digitais, gerando uma troca trágica: a militância de território deu lugar à performance algorítmica. A organização popular em sindicatos, associações de bairro e periferias exige um trabalho lento, presencial e invisível. Já as redes sociais operam pela lógica da atração do conflito, onde os algoritmos remuneram a indignação instantânea e a sinalização de virtude.
A esquerda passou a medir sua relevância por métricas de engajamento (likes, alcance, viralizações) em vez da sua capacidade de mobilização de massa ou paralisação econômica. Ao trocar a praça pública e o chão de fábrica pela linha do tempo, o discurso esquerdista desaprendeu a linguagem da classe trabalhadora e adotou o dialeto acadêmico e punitivo da bolha digital.
Ao focar a sua atuação no engajamento de rede, a esquerda caiu na armadilha do pânico moral reverso. Ela deixou de analisar o capitalismo sob a ótica da mais-valia, da precarização do trabalho uberizado e da espoliação bancária para atuar como uma patrulha comportamental. O debate público foi deslocado da economia para o policiamento do vocabulário, dos hábitos de consumo e dos escândalos morais do momento.
Enquanto o trabalhador informal enfrenta jornadas exaustivas e inflação, a esquerda institucional transmite a sensação de gastar suas energias em litígios estéticos. O resultado é a alienação do seu eleitorado histórico, que passa a enxergar a esquerda como uma elite cultural pretensiosa e encontra na extrema-direita um canal de vazão para sua raiva e desespero econômico.

Nesse contexto, uma derrota de Lula no segundo turno para a extrema-direita representa o choque de realidade e a descida ao abismo indispensáveis para a sobrevivência da própria esquerda. Esse abismo simboliza o fim da ilusão de que é possível conter o fascismo apenas gerindo o capitalismo com maquiagem social e discursos moralistas.
Para reencontrar sua identidade no fundo desse poço, a reconstrução exige:
- Ruptura com a ditadura do engajamento: Compreender que o país real não habita as métricas das redes sociais e que a indignação digital não se traduz em força política orgânica.
- Retorno ao materialismo visceral: Voltar a pautar o debate nacional em torno das dores materiais da maioria: salário, custo de vida, moradia, precarização do trabalho, juros bancários e transporte público.
- Abandono do tom professoral ou “republicano”: Substituir a postura moralista de “educar o povo” pela humildade pedagógica de organizar o povo a partir das suas demandas concretas.
Somente ao encarar o abismo da própria irrelevância eleitoral e cultural é que a esquerda poderá abandonar a cômoda indignação das redes e reconstruir um projeto de poder popular enraizado onde a vida real acontece: no trabalho, nas periferias e nas ruas.
Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.
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