2018, o ano que não terminou, por Luis Felipe Miguel

2018, o ano que não terminou

por Luis Felipe Miguel

O ano, que de certa forma foi inaugurado com o assassinato de Marielle Franco e Anderson Silva, vai terminando com a execução de Orlando Bernardo e Rodrigo Celestino.

A diplomação de Bolsonaro como presidente no dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos foi a ironia que faltava para marcar o quanto estamos andando para trás neste triste Brasil.

Em julho, os 23 manifestantes de 2013 foram condenados a penas que chegam a sete anos de prisão. Recorrem em liberdade, mas quem acredita numa “justiça” que até agora não se inibiu em decidir com base em evidências pífias e obtidas de forma ilegal?

Rafael Braga permanece em prisão domiciliar – passou a cumprir a pena em casa, convém lembrar, para tratar da tuberculose que contraiu na cadeia. As abundantes provas de sua inocência e do abuso policial na sua prisão não foram suficientes para a “justiça”.

Em Curitiba, continua preso o ex-presidente Lula. Em todo o mundo, há indignação com o processo absolutamente corrompido que o condenou mesmo na ausência da menor prova – do imoral juiz de primeira instância ao Supremo que rasgou a Constituição, em praça pública, para permitir seu encarceramento. Lula é um líder popular impedido de falar, é o símbolo da criminalização em curso de todo um lado do espectro político – e é também um homem de 73 anos que está há mais de oito meses preso injustamente.

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Não consigo ver, para o campo democrático no Brasil, prioridade maior do que a luta pela liberdade de Lula e de Rafael Braga, pelo encerramento do processo contra os 23, pela identificação e punição dos assassinos e mandantes dos assassinatos de Orlando e Rodrigo e de Marielle e Anderson.

É preciso dar um basta à perseguição política. É preciso garantir que os movimentos sociais, os ativismos políticos e as organizações de esquerda possam se manifestar e disputar a esfera pública, sem ter a morte ou a prisão como horizontes.

Luis Felipe Miguel – Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).

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2 comentários

  1. ” É PRECISO DAR UM BASTA À PERSEGUIÇÃO POLÍTICA…”

    O Brasil é Fantástico. Realmente a Terra dos Aloprados. A esquerda brasileira na Redemocracia é uma estrutura que surge a partir de SP, com únicos discurso e estratégia : perseguir Paulo Maluf. Nós, os honestos, combateremos a corrupção representada pelo então Prefeito e Governador e mudaremos o rumo desta Nação e a forma de se fazer Política. O Moralismo Esquerdopata agora cobra outros Moralismos, por suas mesmas praticas. As acusações infundadas, nunca comprovadas, eram o argumento e campo de batalha para vitórias eleitorais. O Poder Judiciário, sempre rotulado como conivente e comparsa, um dia seria alterado e corrigido. Então Redemocracia, Constituição Cidadã, Juízes e Promotores Progressistas empossados por Ideologias condizentes com suas histórias. E chegamos em 2018. E nossa Imprensa Ideologizada por um Fanatismo Messiânico culpa Leis e Juízes, que os próprios criaram, pelas obras da sua criatura perseguindo seu criador. Nem Mary Shelley teria tanta criatividade e imaginação. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.    

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