10 de junho de 2026

A América que ainda deve ser: Nova York, a vitória de Zohran Mamdani e o sonho reencontrado, por Celso de Mello

A expressiva vitória do socialista democrata, na eleição para prefeito de NY simboliza a reafirmação dos valores democráticos
Crédito: Reprodução

A América que ainda deve ser: Nova York, a vitória de Zohran Mamdani e o sonho reencontrado

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Por Celso de Mello

A expressiva vitória de Zohran Mamdani , um socialista democrata, na eleição para prefeito de Nova York transcende os limites de uma disputa municipal: ela simboliza a reafirmação dos valores democráticos, da diversidade cultural, da tolerância, do respeito à alteridade e da dignidade humana diante da retórica do ódio que, nos últimos tempos, tentou envenenar a vida pública americana. Ao eleger o primeiro prefeito muçulmano e de origem sul-asiática, embora nascido em Uganda, de sua história, a metrópole que acolheu gerações de imigrantes revive, de certo modo, o espírito do poema de Emma Lazarus (“O Novo Colosso”), gravado na base da Estátua da Liberdade : “Give me your tired, your poor, your huddled masses yearning to breathe free” (“Dai-me vossas multidões cansadas, pobres, amontoadas, ansiando por respirar liberdade”). Essas palavras, tantas vezes esquecidas ou traídas, reencontram agora sua força em uma cidade que, fiel à sua vocação universal, escolhe ser refúgio (e não obstáculo) , porto (e não muro de separação)!

A vitória de Zohran Mamdani representa, ao mesmo tempo, uma contundente derrota moral e política de Donald Trump e de tudo o que sua figura passou a simbolizar : o populismo autoritário, o racismo travestido de patriotismo, o desprezo pelos vulneráveis e o ataque sistemático aos imigrantes e à verdade.

A rejeição do trumpismo nas urnas de Nova York é mais do que um repúdio a um homem (Trump) . Expressa a condenação de uma ideologia perversa, xenófoba e desumana, que tentou substituir o sonho americano por um pesadelo de exclusão e de intolerância. Ao escolher um prefeito que fala a linguagem da justiça social e da compaixão, Nova York reencontra o ideal que Langston Hughes implorava em seu poema , escrito em 1935, “Let America Be America Again” (“Deixem a América ser América Novamente”) : um país que cumpra, enfim, a promessa de acolhimento e de liberdade feita aos negros, aos pobres, aos refugiados , aos oprimidos e aos imigrantes :

“O, let America be America again —

The land that never has been yet —

And yet must be — the land where every man is free.”

(“Oh, que a América volte a ser América —

a terra que ainda nunca foi,

mas que ainda deve ser — a terra onde todo homem seja livre.”)

Há, na vitória de Mamdani, o eco distante de John Steinbeck, quando , em “The Grapes of Wrath” (“As Vinhas da Ira”) , descreveu os deserdados do vento e da vida, que atravessavam estradas poeirentas em busca de um pedaço de terra e de humanidade.

Há também o murmúrio firme de Toni Morrison, escritora e professora afro-americana, laureada com o Prêmio Nobel de Literatura (1993), que advertia que a nação só se salvará se olhar nos olhos aqueles que ela exclui.

O murmúrio firme de Toni Morrison” traduz o tom profundo, quase sussurrado e ao mesmo tempo inabalável, com que ela dá voz aos silenciados , especialmente os escravizados, os exilados de sua própria humanidade, os “sem lugar” dentro da história americana.

Com seu gesto, Morrison quer evocar essa voz coletiva (baixa, contida, mas moralmente inabalável) dos que sofreram a escravidão, o exílio e a exclusão.

Com a vitória eleitoral de Mamdani , há, sobretudo, a certeza de que a democracia americana, ainda ferida, continua capaz de regenerar-se pela força do voto e pela consciência moral de seu povo.

Em tempos de fanatismo , de exclusão e de desinformação, essa vitória eleitoral constitui um ato de resistência ética. Significa um lembrete de que o humanismo ainda pode vencer o cinismo, que a compaixão é mais revolucionária do que o ódio e a ira, e que — como acreditava John Steinbeck — “a fé obstinada na bondade do homem é o último abrigo da esperança” , frase que constitui uma síntese interpretativa derivada de seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura (1962).

Celso de Mello é ministro aposentado e ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal, biênio 1997-1999.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Rui Ribeiro

    10 de novembro de 2025 11:49 am

    Se votar trouxesse alguma modificação do status quo, o voto seria ilegal. É o que nos disse a Emma Goldman

    “Com a vitória eleitoral de Mamdani , há, sobretudo, a certeza de que a democracia americana, ainda ferida, continua capaz de regenerar-se pela força do voto e pela consciência moral de seu povo”.

    Não vote, lute.

    Se os EUA são democráticos, como explicar as guerras feitas contra os países militarmente fracos? Que democracia é essa?

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