A Armadilha da Gerontocracia
por Nadejda Marques
Os Estados Unidos vive hoje uma gerontocracia. É uma sociedade governada por uma oligarquia formada principalmente por pessoas idosas que estão no governo há muitos anos e daí não querem sair. Alguns estão no poder há mais de 50 anos!!! São líderes tanto do partido Democrata quanto do partido Republicano que estão tão apegados ao poder e aos benefícios e vantagens proporcionadas pelos seus cargos que desrespeitam suas próprias limitações de saúde física e mental. Recusam um desligamento ou afastamento voluntário, muitas vezes, comprometendo a atuação do governo em diversas frentes e políticas.
O que poderia ser uma aposentadoria honrosa que celebra os feitos históricos desses políticos se transforma numa triste sequência de episódios, cada vez mais frequentes, que são, no mínimo arriscados ou embaraçosos para os envolvidos mas também para o governo e a sociedade como um todo. São casos de quedas e hospitalização constante entre congressistas e senadores de mais idade e cenas como as da semana passada quando o senador Republicano Mitch McConnell, de 81 anos de idade, em plena coletiva de imprensa ficou paralisado repentinamente até ser escoltado para um outro salão. Um dia depois disso, a senadora Democrata, Dianne Feinstein, de 90 anos, teve que ser instruída em público a como responder em uma votação sobre o orçamento militar. Isso, depois de ficar meses afastada e sem ser substituída adiando nomeações do governo Biden para vários cargos no judiciário entre outras decisões importantes. Dianne Feinstein, no poder desde 1992, e Mitch McConnell, desde 1984, talvez se sintam apoiados pelo exemplo do presidente Biden que, aos 80 anos de idade, é o presidente mais idoso da história dos EUA. Talvez imaginem contar com a simpatia não verbal de um Senado onde a idade média é de 65 anos e uma Câmara onde a idade média dos deputados é de 58 anos.
Obviamente que as pessoas envelhecem de maneiras diferentes e, nos EUA, segundo pesquisas, não é a idade que define uma eleição, mas sim o partido, a cor da pele e o gênero. Mesmo assim, preocupações não com a idade, mas com a aptidão física e mental dos representantes do povo é algo válido e pode servir de alerta ao Brasil que, comparado com outros países, está entre aqueles com o parlamento federal mais velho. Em 2023, o Brasil tem a Câmara com idade média de 49 anos e 11 meses. Lembrando que, no Brasil, os parlamentares (senadores, deputados e vereadores) podem se reeleger sem limite do número de vezes. As chances de se apegar ao poder de forma irracional, individualista e, às vezes, de forma irregular são muito grandes.
Por que costuma-se existir uma idade mínima para servir em cargos públicos mas não uma idade máxima? Por que valoriza-se mandatos de 6 ou 8 anos com direito a reeleição em nome da estabilidade quando precisamos de novas ideias, de novas políticas para tratar de novos problemas que exigem urgência e inovação como a crise climática? Ou que exigem um entendimento e familiaridade com as novas tecnologias para decidir sobre regulamentos e controles de como estas afetarão a sociedade? Supervalorizar a experiência e a estabilidade em um contexto político também pode inibir ou podar novas lideranças. Uma armadilha que nos leva a líderes sem futuro e a um futuro sem líderes.
Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.
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Jicxjo
2 de agosto de 2023 1:19 pmDiscussão complexa que deveria ser aprofundada com mais pontos de vista – e que facilmente pode transbordar para outros possíveis requisitos correlatos dos candidatos a cargos eletivos, como sua formação e atualização. Se o dinamismo contemporâneo é um fator importante, também o são a experiência e o conhecimento multidisciplinar para lidar com questões cada vez mais complexas.
Acho em princípio até razoável restringir os extremos etários, mas sem exageros (não entendi qual o problema com a idade média de nossos deputados); nessa questão específica da saúde, o mais importante é o crivo da lucidez e de condições mínimas de exercer o cargo, para que não seja simples etarismo dissimulado. Ademais, seriam cabíveis contra nosso presidente, na juventude de seus 77 anos, as mesmas críticas feitas aos mandatários estadunidenses?
(Quanto ao caso do Senado, lembro ainda que, por design, no bicameralismo, ele é uma casa revisora, supostamente mais madura, a conter impulsos da Câmara, não uma caixa de ressonância. Um sistema complexo como um ordenamento jurídico não suporta volatilidade excessiva – já me incomoda a forma expressa como nosso Congresso tem aprovado PECs e mudanças legislativas profundas, sempre no calor dos fatos)