A autocrítica que pedem ao PT, por Rogério Marques

O Partido dos Trabalhadores é um sobrevivente, nesses 40 anos de existência completados no dia 10 de fevereiro.

Foto Deutsche Welle

A autocrítica que pedem ao PT

por Rogério Marques

Neste mês em que o Partido dos Trabalhadores completa 40 anos de existência quero dar os parabéns a todos os que fazem parte deste partido e ao próprio PT, ao qual nunca fui filiado.

Quatro décadas depois de sua fundação, o PT continua sendo o mais importante partido brasileiro. Precisa fazer autocrítica como alguns cobram? Certamente. Quem não precisa fazer autocrítica, seja um partido, uma igreja, uma família, uma empresa, um clube de futebol?

De cara, o PT se distanciou das bases ao longo dessas quatro décadas. Em muitos casos aderiu a práticas comuns e condenáveis na vida político-partidária brasileira. Isso tem que ser revisto.

Ao mesmo tempo, o partido conseguiu avanços sociais como raras vezes aconteceu na história política recente, no combate à fome, à miséria, às desigualdades sociais.

A questão é que a autocrítica que muitos pedem ao PT é pelos seus acertos, não pelos seus erros.

Alguns querem que o PT faça autocrítica porque teve a primeira mulher presidente da república, Dilma Rousseff, deposta por um vergonhoso golpe jurídico-midiático-empresarial sem ter cometido qualquer crime.

Aos que discordam, eu desafio: hoje, passados três anos e meio daquele golpe, citem o motivo da deposição de Dilma, um estupro constitucional que jogou o país em uma divisão e abriu caminho para a república das milícias.

Pedem autocrítica ao PT aqueles que levaram à prisão, em processos kafkianos, o ex-presidente Lula, um dos melhores presidentes que o Brasil já teve. Lula foi preso, em meio a um linchamento diário da mídia empresarial, com base em processos contestados e denunciados por juristas de renome no Brasil e mundo afora.

Até mesmo preso, Lula era o nome preferido do eleitorado em todas as pesquisas eleitorais, nas últimas nas eleições para presidente da república.

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Querem autocrítica do PT por ter posto em prática uma política cultural que teve no Ministério da Cultura pessoas como Gilberto Gil, um dos maiores artistas brasileiros. Um nome respeitado mundialmente, que cantou no plenário da ONU acompanhado na percussão pelo secretário Kofi Annan (1938-2018).

Que tempos memoráveis aqueles, quando vemos hoje um secretário da Cultura fazer discurso inspirado no ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels…

Talvez queiram autocrítica do PT porque o partido teve entre seus ministros da Justiça alguém como o respeitado criminalista Márcio Thomaz Bastos (1935-2014), que transformou e valorizou a Polícia Federal, levando-a a investigar e prender inclusive integrantes do próprio PT acusados de crimes.

A mesma Polícia Federal que ultrapassou limites da legalidade, como no episódio da condução coercitiva do ex-presidente Lula, sem que Lula tenha se recusado a depor. E no mais emblemático e trágico de todos os casos de arbitrariedade, que prendeu e tratou de maneira humilhante o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que se suicidou dias depois.

Li atentamente as críticas de Tarso Genro, que também foi ministro da Justiça do PT, por ocasião dos 40 anos. Algumas me pareceram corretas, outras caíram em discurso contraditório com sua longa permanência no partido, quando algumas vezes suas posições foram vitoriosas e em outras foram derrotadas nos debates e nas disputas internas.

O Partido dos Trabalhadores é um sobrevivente, nesses 40 anos de existência completados no dia 10 de fevereiro.

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O que é feito hoje de outros partidos tradicionais, como o PMDB, que já foi o MDB de Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Pedro Simon? Que destino foi reservado ao PSDB, que teve como candidato à presidência da república Aécio Neves, apoiado pela mídia e hoje acuado por uma série de escândalos? O político que disputou a presidência com Dilma Rousseff e foi derrotado, quando tiveram início as manobras para o golpe de 2016.

Nesses tempos de descrédito na política, nas atividades sindicais, partidárias, associativas de bairros, na própria política estudantil, os 40 anos do PT merecem ser comemorados não apenas por militantes, mas por todos aqueles que prezam a política como instrumento de mudanças. Erros existiram, com certeza, ao longo dessa trajetória. Mas os acertos, com certeza, foram bem maiores.

Parabéns ao Partido dos Trabalhadores pelos 40 anos.

(Rogério Marques)

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3 comentários

  1. O PT deve fazer autocrítica interna pela adesão a governabilidade, ter aderido a realpolotik, pela corrupção explícita e por ter rasgado as bandeiras de mudar a política, acabar com privilégios, e construir uma República no Brasil. Por conciliar com os crápulas, não ter feito a reforma política e administrativa etc…etc.. O PT deve fazer autocrítica por deixar de ser o PT, um partido de esquerda, rebelde revolucionário. Por se associar a direita para manter a Casa Grande e Senzala. E por muito mais. Sou antipetista? Não, filiado desde a década de 80, militante do partido e da CUT.

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    • Caro colega, agora nao é momento da tal “autocritica”: o momento é de UNIÃO DAS ESQUERDAS para desmontar este governo de desmonte.

  2. “Quatro décadas depois de sua fundação, o PT continua sendo o mais importante partido brasileiro.”

    E qual a real importância dos partidos brasileiros? O último presidente se elegeu sem ter um!
    Mesmo nos EUA podemos dizer que o Trump é um republicano de verdade? Perguntem ao AA!
    E o clone britânico , o Boris, representa os conservadores?
    Sem querer tirar o brilho do protagonismo do PT, do jeito que esta , tem o partido futuro?

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