13 de junho de 2026

A Cloroquina Tributária, por Isac Falcão

O momento de crise econômica por que passa o mundo gerou um raro consenso entre economistas mais liberais e economistas com visões mais sociais: é preciso que o Estado atue.

A Cloroquina Tributária

por Isac Falcão

A doença que está matando o Brasil como nação é a desigualdade. A desigualdade possui aqui múltiplas e graves expressões. Desigualdades econômicas, sociais, raciais, regionais, de gênero, de acesso à educação, à saúde, à segurança pública bem como na representação política. Essas desigualdades se aprofundam ao se realimentarem mutuamente. O Brasil, diferentemente da média dos outros países do mundo, não reduziu significativamente a desigualdade econômica ao longo do século XX. Vivemos um ciclo vicioso em que nosso povo não pode consumir os bens e serviços que produz. Não podendo o povo consumir, não há para quem, nem por que, as empresas produzirem.

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Os registros históricos de redução das desigualdades nos diferentes países do mundo mostram que essa doença só se trata a partir da atuação estatal. Esse tratamento, a atuação redistributiva estatal, se dá por meio de dois remédios: a tributação progressiva (quem tem mais patrimônio e renda paga relativamente mais tributos, quem tem menos paga relativamente menos) e o gasto e o investimento públicos direcionados principalmente para os que têm menos renda e patrimônio.

O momento de crise econômica por que passa o mundo gerou um raro consenso entre economistas mais liberais e economistas com visões mais sociais: é preciso que o Estado atue. Esse é o tratamento possível para que saiamos da crise. Exemplo presente de atuação nesse sentido é o pagamento da renda básica emergencial de R$ 600 mensais. Estudo feito por pesquisadores da Faculdade de Economia da UFMG mostra que o auxílio impactou positivamente a renda não só de seus beneficiários diretos, como também da classe média e dos ricos, que fornecem ou controlam as cadeias dos produtos e serviços adquiridos com o valor do benefício.

A experiência histórica registra que essa foi a forma que permitiu aos países capitalistas superarem as crises do início do século XX: tributação dos mais ricos, por um lado, gastos sociais e investimentos públicos, por outro.

Entre esses dois necessários remédios, que devem ser administrados conjuntamente, trato, nesse texto, da tributação progressiva da renda e da riqueza.

Não é possível a superação da crise econômica, pelo Brasil, sem que se reduzam suas desigualdades. Não é possível reduzir suas desigualdades sem que se passe a tributar adequadamente as altas rendas e a riqueza.

Uma comparação internacional mostra que enquanto os países membros da OCDE arrecadam com tributos incidentes sobre a renda uma média de 8,5% do PIB, o Brasil arrecada 2,5% (menos de um terço da média). Tal fenômeno acontece por tributarmos principalmente a renda proveniente do trabalho (com alíquotas exageradas sobre os pobres e a classe média) em vez de tributar a renda do capital. Nosso Congresso Nacional, ao longo do tempo, na contramão da experiência mundial, isentou a renda proveniente dos dividendos pagos por empresas; introduziu a singular figura da dedutibilidade dos juros sobre capital próprio; criou imunidades, não incidências e isenções tributárias seletivas que beneficiam principalmente a renda do grande capital; gerou um ambiente normativo complacente com os grandes sonegadores no que diz respeito à possibilidade de discussão administrativa por anos seguidos, sem pagamento, de créditos tributários que não recebem adequada atualização monetária e, assim, geram lucro na postergação; e, ainda, deixou de instituir o imposto sobre grandes fortunas.

Essa é a nossa doença tributária, que impede o caminho do desenvolvimento econômico e social. Nações que usaram os remédios tributários adequados para reduzir suas desigualdades tiveram caminhos de desenvolvimento econômico e social diferentes dos nossos, e fizeram-se sociedades substancialmente mais justas que a nossa. É necessário tributar os super-ricos para reconstruir o país.

Por esse motivo, nesse momento de crise, um conjunto de entidades representativas de auditores fiscais e defensoras da justiça fiscal elaborou oito propostas de leis tributárias que isentam os mais pobres e as pequenas empresas, fortalecem Estados e Municípios, geram acréscimo na arrecadação estimado em R$ 292 bilhões, incidindo sobre as altas rendas e o grande patrimônio. Então, se o leitor está entre os poucos afortunados que ganham mais de 35 mil mensais ou que têm patrimônio superior a 10 milhões de reais, poderá, assim como seus pares mundo afora, por meio dessas oito propostas, ajudar a reconstruir seu país.

De outro lado, frente à doença tributária caracterizada acima, o governo federal apresentou o seguinte remédio: unificar o PIS com a COFINS. Talvez o leitor esteja encontrando nesse texto pela primeira vez as duas palavras separadas. Assim como a famosa dupla de cantores, que na linguagem oral é referida simplesmente como Sandyjunior, as duas contribuições já são tão parecidas que muita gente acredita tratar-se de um único tributo, e a ele se refere como PIS/COFINS. Já pagou o PIS/COFINS? Qual é a sua alíquota de PIS/COFINS? Qual é o seu regime de PIS/COFINS? É como se ouve. Pois bem, o grande remédio do governo é unificar esses dois tributos que a linguagem popular já unificou. Além disso propõe um imposto sobre transações financeiras, mais um a aumentar a carga tributária sobre o consumo.

Aí vem a pergunta: em que isso impacta na doença tributária brasileira (desigualdade na tributação, com pobres pagando muito e ricos pagando quase nenhum imposto de renda)? Agrava. Se por um lado a doença tributária brasileira é impactada apenas marginalmente pela unificação do PIS com a COFINS, o aumento da carga tributária sobre o consumo faz com que os pobres paguem relativamente mais e a doença reside justamente na falta de tributação sobre as altas rendas e sobre a riqueza.

Nosso governo federal receita, para controlar a COVID-19, um remédio que, segundo cientistas de todo o nosso esférico planeta, não é adequado para tratar a doença, podendo agravar seus efeitos. Agora receita também, para curar nossa doença tributária, remédio que economistas e auditores fiscais, também de todo o planeta, provam não ser adequado para tratá-la. A reforma proposta pelo governo é uma Cloroquina Tributária.

Isac Falcão – Integrante do coletivo Auditores Fiscais pela Democracia

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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