A Contribuição da Suíça na Construção da Ordem Neoliberal, por Franklin Frederick

Quinn Slobodian, autor da obra Globalists, criou um termo para designar a contribuição da Suíça para o neoliberalismo: a Escola de Genebra.

A Contribuição da Suíça na Construção da Ordem Neoliberal

por Franklin Frederick

A Revolução Russa em 1917 colocou em pânico a alta burguesia da Europa, já muito desacreditada e enfraquecida pela gigantesca tragédia da  Primeira Guerra Mundial, resultado de sua própria irresponsabilidade, ganância e incompetência. A crise de 1929, que levou  quase à ruína a maioria dos países industrializados capitalistas, mas que praticamente não afetou a jovem União Soviética,  fortaleceu ainda mais a alternativa colocada pela Revolução Russa. Esta burguesia tinha então que enfrentar duas dificuldades: reconstruir a ordem capitalista internacional e responder ao desafio colocado pela crítica Marxista e pela Revolução Russa. Um grupo de intelectuais hostis ao comunismo, à esquerda em geral, e mesmo ao capitalismo  do New Deal nos EUA, procurou desenvolver e impôr uma reconstrução mais autoritária e profundamente anti-democrática do capitalismo: o neoliberalismo. Como mencionado em meu texto anterior (https://jornalggn.com.br/europa/o-perigoso-caminho-da-suica-para-a-extrema-direita-por-franklin-frederick/)  a Suíça foi o primeiro país a acolher e financiar estes intelectuais, exercendo um papel fundamental na construção da ordem neoliberal.

Quinn Slobodian, autor da obra Globalists, criou um termo para designar a contribuição da Suíça para o neoliberalismo: a Escola de Genebra.

Segundo Slobodian, a Escola de Genebra inclui pensadores que ocuparam posições acadêmicas em Genebra, Suíça, entre eles Wilhelm Röpke, Ludwig von Mises, e Michael Heilperin; aqueles que aí prosseguiram ou apresentaram investigações chave, incluindo Hayek, Lionel Robbins, e Gottfried Haberler; e aqueles que trabalharam no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), tais como Jan Tumlir, Frieder Roessler (…) os neoliberais da Escola de Genebra transpuseram a ideia ordoliberal da ‘constituição econômica’ – ou a totalidade das regras que regem a vida econômica – para a escala além da nação.’

Ainda segundo este autor, Genebra – eventualmente a sede da OMC – tornou-se a capital espiritual do grupo de pensadores que procuraram resolver o enigma da ordem pós-imperial.Esta ordem pós-imperial refere-se ao período subsequente ao fim do Império Austro-Húngaro e grande parte do ‘enigma’ mencionado se refere ao desafio colocado pela Revolução Russa. O que os neoliberais da Escola de Genebra  procuram não é uma proteção parcial, mas sim completa dos direitos do capital privado, e a capacidade dos órgãos judiciais supranacionais como o Tribunal de Justiça Europeu e a OMC de se sobreporem à legislação nacional que possa interferir com os direitos globais do capital , ou seja, uma constituição econômica para o mundo.

Para a Escola de Genebra, ainda segundo Slobodian, os compromissos de soberania e autonomia nacional eram perigosos se levados a sério.(Os proponentes da Escola de Genebra) eram críticos firmes da soberania nacional, acreditando que, após o império, as nações devem permanecer inseridas numa ordem institucional internacional que salvaguardasse o capital e protegesse o seu direito de circular pelo mundo. O pecado capital do século XX foi a crença na independência nacional sem restrições, e a ordem mundial neoliberal exigia uma isonomia executável – ou ‘mesmas leis’, como Hayek lhe chamaria mais tarde – contra a ilusão de autonomia, ou ‘leis próprias’,

Para os neoliberais da Escola de Genebra, as leis promovendo a defesa dos ‘direitos’ do capital, devem ser sobrepor às leis nacionais referentes aos direitos dos trabalhadores ou à proteção ambiental, por exemplo.

Muitos dos participantes da Escola de Genebra  estavam entre os fundadores da Sociedade  Mont Pélerin também na Suíça, uma entidade que teve um papel fundamental na construção intelectual do neoliberalismo e na difusão internacional de suas  propostas. A Sociedade Mont Pélerin serviu de inspiração e modelo para outras organizações importantes da rede da direita internacional como a Atlas Network e o Atlantic Council.

Frente ao desafio colocado pela Revolução Russa, a burguesia Suíça colocou-se desde muito cedo ao lado do capital, abraçando mesmo os extremos mais autoritários do capitalismo como representado pelo neoliberalismo, tudo para deter a ‘ameaça’ da esquerda, sempre mais perigosa, do ponto de vista do capital, que qualquer ameaça totalitária da direita. Um testemunho importante da cruzada da burguesia da Suíça contra o comunismo e a esquerda em geral nos é dado pelos escritos de Harry Gmür, escritor e comunista suíço. Nascido em Berna em 1908, Gmür testemunhou a ascenção do fascismo na Europa e a reação neoliberal na Suíça. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Gmür abraçou a esquerda e seus valores humanitários. Em um texto publicado em 1965 com o título A Guerra de Hitler e a Suíça , Gmür escreveu:

Após o início da guerra, o  governo em Berna, sob pressão alemã, mas certamente aproveitando a oportunidade com demasiada facilidade, apressou-se a proibir e a policiar todos os partidos, associações, jornais, distribuidores de livros, etc. consistentemente antifascistas.

E num outro artigo, publicado 10 anos depois, em 1975, com o título de Naquele tempo, na Suíça, Gmür voltou a este tema escrevendo:

A esquerda suíça foi sujeita a uma pressão particular durante a guerra (…). Após o início da guerra, o Conselho Federal, não menos por anti-comunismo do que por servilismo ao Terceiro Reich, tinha suprimido o “Freiheit”, órgão do Partido Comunista, e os dois jornais diários dos socialistas de esquerda de Vaud e Genebra, que se tinham separado da social-democracia. Após a catástrofe francesa, o Partido Comunista, os partidos socialistas de esquerda da Suíça Ocidental, a Oposição do Partido Socialista Alemão-Suiço (uma facção que trabalhava contra o rumo de direita da liderança do partido) e a Sociedade Suíço-Soviética  foram banidos por completo. Os seus bens – impressoras, livrarias, até inventário de escritório – foram confiscados e nunca foram restituídos.

As queixas justificadas da imprensa soviética sobre o tratamento dos prisioneiros de guerra soviéticos que tinham fugido para a Suíça foram rejeitadas pelo chefe da justiça e da polícia.

Estes dois artigos foram publicados no Weltbühne, uma publicação da ex- República Democrática da Alemanha, sob o pseudônimo de Stefan Miller, certamente para evitar a repressão da direita na Suíça.

Entretanto, o documento mais contundente sobre a burguesia  da Suíça, sua guerra incessante contra a  esquerda e sua defesa intransigente do capital acima de tudo é o Relatório Bergier.

Uma comissão independente  foi criada pelo Conselho Federal da Suíça  em dezembro de 1996 sob a direção do historiador Jean François Bergier, com o mandato , segundo o próprio Bergier, de responder ‘ a uma série de perguntas precisas sobre os bens ‘não reclamados’, ou seja, os bens depositados antes da (segunda) guerra em bancos suíços por futuras vítimas (do nazismo ) e nunca posteriormente recuperados por elas ou pelos seus herdeiros; sobre o tratamento dos refugiados; sobre todas as relações econômicas e financeiras entre a Suíça e a Alemanha nazi – comércio, produção industrial, crédito e movimentos de capitais, seguros, tráfico de armas, mercado de obras de arte e bens saqueados ou vendidos à força, transito ferroviário, electricidade, trabalho forçado nas filiais alemãs de empresas suíças.’

Em sua totalidade, o Relatório Bergier se compõe de 11.000 páginas distribuídas por 28 volumes. Um trabalho imenso e de um valor inestimável.

Segundo Pietro Boschetti, autor de um livro de ampla divulgação do Relatório Bergier com o título Les Suisses et les Nazis – de onde vêm a citação anterior de Bergier –  o relatório, em geral, confirmou o que os historiadores já sabiam: sim, a política de asilo foi extremamente dura durante a guerra; sim, o Banco Nacional comprou muito ouro suspeito da Alemanha nazi, prestando assim um serviço muito apreciado.

Em seu livro, Boschetti menciona alguns poucos exemplos da cooperação do grande capital da Suíça com a Alemanha nazistas conforme revelados pelo Relatório Bergier. Dos exemplos dados por Boschetti, menciono abaixo alguns, apenas para dar uma idéia da amplitude e seriedade do Relatório Bergier:

Sobre os negócios entre a Suíça e a Alemanha nazista, Boschetti escreveu:

‘As relações entre homens de negócios eram obviamente muito próximas e duradouras. Assim, após a guerra, o presidente do (banco) SBS (Rudolf Speich) e o director do (banco) UBS (Alfred Schaefer) apoiaram o único banqueiro nazi (Karl Rasche, membro das SS, Dresdner Bank) perante o Tribunal Internacional em Nurembergue.’

Sobre a ‘arianização’ :

‘Os “certificados de Arianeidade” para provar a pureza racial parecem ter sido uma prática bastante comum. Para obter o direito de aterrisar em Munique, a Swissair aceita, por exemplo, que as suas tripulações provem a sua arianeidade. A Nestlé faz o mesmo, tal como as companhias de seguros.’

E ainda sobre a Nestlé:

‘De Vevey, a Nestlé permaneceu em contacto durante toda a guerra com o suíço Hans Riggenbach, que era o responsável pelas operações da multinacional alemã em Berlim. (…)

A Nestlé vende o seu Nescafé à Wehrmacht durante a campanha russa, apesar da difícil importação de grãos de café .’

Sobre os trabalhos forçados realizados por prisoneiros de guerra:

‘Atingidas, como as suas concorrentes, pela falta de trabalhadores, as empresas suíças recorrem ao trabalho forçado. (….) nas fábricas de Lonza em Waldshut, onde 150 franceses desembarcaram entre Julho de 1940 e Abril de 1942. Desde essa data até ao final do conflito, mais de 400 prisioneiros de guerra russos trabalharam no local. Georg Fischer, BBC, Maggi, Nestlé e muitos outros não hesitaram em recorrer a esta reserva de mão-de-obra.

Os maus tratos são comuns, mesmo nas filiais suíças (…).

Até Agosto de 1944, a Suíça enviou trabalhadores forçados em fuga, especialmente russos e poloneses, de volta para a Alemanha.’

Para Bergier, as autoridades e os responsávies por empresas suíças na época não deixaram de justificar cada uma das medidas que tomaram, ou a sua recusa em tomá-las, a sua hesitação. Mas as suas explicações raramente resistem ao escrutínio, como ele escreeveu na introdução ao livro de Boschetti.

No entanto, o debate com a sociedade que deveria ter acontecido após a publicação do Relatório –  o objetivo final de todo o esforço empregado – foi impedido. Nas palavras de Pietro Boschetti:

Que país curioso! Embora tenha acabado de completar um louvável trabalho de introspecção histórica reconhecido por quase todos como exemplar, enquanto investiu recursos significativos para permitir aos historiadores trabalharem com seriedade e independência, enquanto passou por uma ‘crise de identidade’ causada pelo escândalo dos fundos não reclamados que deu origem a todo o tipo de exageros e excessos, este país, justamente quando dispõe de todo o material histórico necessário para ter um debate sereno … recusa-se a realizá-lo. Que pena!

A supressão deste debate foi uma vitória importante  da burguesia e do big business da Suíça, que assim protegeram sua  imagem e puderam manter, dentro da Suíça, o espaço e a credibilidade necessárias para continuar a expansão da agenda neoliberal. Não fosse por isso, instituições tão distintas como o World Economic Forum e o World Wide Fund for Nature – WWF –  ambos sediados na Suíça e ambos herdeiros e proponentes da visão neoliberal do mundo, ou seja, do mercado como principal instrumento de organização da sociedade e mesmo ‘salvador’ do planeta, talvez não tivessem tido tanto sucesso.

Em 2022 celebram-se  os 20 anos da publicação do Relatório Bergier. É a ocasião  de realizar o debate  suprimido mas ainda necessário, não apenas para uma compreensão mais profunda do papel da burguesia e do big business da Suíça e de sua ideologia na época da Segunda Guerra, mas sobretudo compreender seus desdobramentos atuais. Afinal, a visão de mundo neoliberal e seus representantes ainda mantém um enorme  poder político neste país, a hostilidade contra a esquerda continua tão agressiva como nos tempos da Guerra Fria e a Suíça segue sendo um parceiro importante na construção e disseminação das narrativas fake dos EUA que dão suporte às  campanhas antidemocráticas contra Cuba e Venezuela, para citar apenas estes dois exemplos. As forças políticas e os interesses econômicos que facilitaram a colaboração das autoridades e de grandes empresas da Suíça com a Alemanha nazista, são os mesmos por trás das  propostas de reorganização do Estado em função dos interesses do capital como defendidas pela Sociedade Mont Pélerin e pelo World Economic Forum; são ainda os mesmos que impediram o debate público sobre o Relatório Bergier.

O capitalismo neoliberal continua a ser defendido na Suíça como a única solução possível para os diversos problemas que a humanidade enfrenta atualmente, da crise ecológica à crise sanitária representada pela pandemia. O papel do capitalismo neoliberal como causa desses mesmos problemas não é sequer mencionado. Quando o movimento dos jovens pelo clima ousou questionar o neoliberalismo na Suíça, a reação foi uma legislação brutal e repressora.No entanto, apesar  da Sociedade Mont Pélerin e da Escola de Genebra, do World Economic Forum e do WWF, existe uma outra tradição na Suíça, uma tradição que se encarnou em Harry Gmür, no trabalho da comissão Bergier e reaparece, hoje, no movimento dos jovens pelo clima. À esta tradição cabe, agora, reabrir o debate necessário e desafiar o neoliberalismo num de seus mais importantes e influentes centros, a Suíça.

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