A corrupção, seu charme e desapontamento, por Wanderrley Guilherme dos Santos

do Segunda Opinião

A corrupção, seu charme e desapontamento

por Wanderley Guilherme dos Santos

Fui apresentado à corrupção pelo brilhantismo radiofônico de Carlos Lacerda; às tragédias que se seguem a denúncias morais vazias, pelo chocante episódio do suicídio de Getúlio Vargas. Ainda não estreara na vida adulta e aprendi a suspeitar do facilitário da difamação, mas sem por a mão do fogo por personagem pública alguma. O estandarte moralista acobertava o repúdio da classe média a políticas trabalhistas; o discurso popularesco cobrava dízimos posteriores pouco confessionais. Assim era, assim continua. Comparações internacionais não inocentam, tampouco devem ser desprezadas. O jogo entre a virtude aparente e o possível deslize impõe permanente vigilância e habilidade inovadora à esquerda no mundo inteiro. Não é diferente no Brasil.

O conflito entre esquerda e direita adotou tom agudo, na linguagem, nas ameaças anônimas ou declaradas, na hostilidade pública. O processo Lava Jato expressa claramente a estrutura de um confronto em que nenhum dos lados tem liberdade para sair sem prejuízo da posição em que se encontra. Do lado fortemente apoiado pelos conservadores, procuradores e juízes só podem se aventurar a mais severidade com risco de ingressar de vez na ilegalidade. Ao mesmo tempo, se se mostrarem mais de acordo com a rotina usual desses processos parecerá derrota, concessão às demandas da esquerda. À esquerda, por seu turno, está vedada a aceitação pacífica da tese de um esquema de extorsão e suborno operando na Petrobrás. Não lhe convém, contudo, nem está conforme a história ou o presente da esquerda, se solidarizar integralmente, sem restrição ou condições, com o destino dos investigados atuais ou futuros. O cabo de guerra ficará provavelmente estacionado onde se encontra, até a intervenção de terceiros, Executivo, Judiciário ou Legislativo. Ou seja, a polícia federal continuará prendendo, os procuradores investigando e os juízes interrogando, enquanto advogados, líderes partidários e agentes políticos insistirão na crítica de que o processo é politicamente discriminatório. Não têm muita saída, exceto se algum lance inesperado alterar a dinâmica do confronto.

Ao lado, Executivo, Judiciário e Legislativo olham uns aos outros sem ousadia para a iniciativa que desequilibraria o cabo de guerra em uma ou outra direção.

 

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10 comentários

  1. Concordo, mas acho que tem tb

    Concordo, mas acho que tem tb o aspecto “marcha dos sonâmbulos”. Ninguém sabe direito o que está fazendo, não controla nem o seu caminhar muito menos o dos outros. É por acaso que podemos chegar numa situação melhor ou pior do que a atual. Em breve saberemos se Deus é mesmo brasileiro…

  2. O mesmo que sabe que o país

    O mesmo que sabe que o país foi dominado pela direita corrupta que implantou todo um processo que quase ninguém consegue nada se não  for corrupto, parece desconhecer isso por dentro da petrobrás e seja quem ganhasse ou venha ganhar o poder, não pode ser limpinho, vai ter que se meter com rombalheira… por todo o sempre

  3. Corrupção: o discurso dos “coxinhas” é ridículo.

    Os clichês ditos diariamente nas ruas e redes sociais pelo analfabetos políticos, colocando o PT como o “pai” da corrupção, me faz lembrar de Kafka e seu clássico Processo, em que um personagem é posto num tribunal sem ter a menor noção do que fez.

    Ora, qualquer pessoa que tenha um pouco de lucidez sabe que governo corrupto é o que não combate a corrupção. P. ex., por que no governo do PSDB a corrupção campeou solta, e deve ser rotulado como um governo corrupto? Porque as instituições foram (des)aparelhadas para não funcionar. Quem não lembra do PGR Geraldo Brindeiro, o Engavetador Geral da República? Alguem duvida que ele foi colocado nesse importante cargo por sua competência? Claro que não. Para se certificar de como operou, aspas, esse senhor, enquanto PGR, é só visitar o Google.com. O cara engavetou e arquivou nada mais nada menos do que exatos 459 inquéritos! Durante 8 anos de FHC, só 60 inquéritos foram abertos, mas só prosperaram 1/2 dúzia deles, e, ainda assim, só una gatos pingados (alguns laranjas… nenhum político, empresário etc., esses eram intocáveis) foram presos.

    Já pensou se o atual Diretor-Geral da Polícia Federal fosse filiado ao PT? Seria notícia diária na grande midídia. Pois não é que no governo do PSDB o Diretor-Geral da PF era filiado a esse partido? Lembro do pré-nome dele: Agildo, como lembro do Ministro da Justiça: o “impoluto” Renan Calheiros.

    A PF, no desgoverno do PSDB só tinha uma serventia: prender mulas em aeroportos. Ganhou autonomia e foi aparelhada (com aviões, helicópteros, verbas etc.) a partir do Governo Lula.

    Não precisa dizer que a PGR só passou a funcionar com total liberdade no governo do PT, inclusive contra figurões do partido, em que pese – e não é um fato isolado – a infiltração no órgão de procuradores ligados ao PSDB (nada é apurado contra tucano) e a Grande Mídia.

    Concluindo: não entendo como um governo que combate a corrupção é tido pelos coxinhas como um “governo corrupto”. 

     

  4. “Ousadia” – que falta faz

    é isso que tá no discurso e entrevista do 1º Ministro da Grécia (postei no Fora de Pauta). A adaptação, o seguir na linha certa, estar junto com um grupo ou tribo, corre-se o risco de descartar ou não ouvir individualidades. Desejaria mais Mangabeira Unger (que fala muito nisso) e um Ciro Gomes por aqui. Por exemplo.

    • Mangabeira Unger? Ciro

      Mangabeira Unger? Ciro Gomes?

      Estes seriam os antídotos para a adaptação? Por que não mais, por que não Marina Silva, Cristovam Buarque, Marta Suplicy, etc.?

      O galo cantou, de fato, mas com certeza não foi do lado em que você ouviu…

      • Luis Henrique

        Exatamente isto. Pq não usar a mesma tática e  fazê-los mostrar a sua cara. Queremos saber o que pensam s/ tudo o que está acontecendo. Eles, que no passado, foram pessoas que se diziam honestas. Estariam gostando da fase atual ? Luis Nassif, tb considerei excelente sugestão.  bora  lá !

      • somente citei, e foram amostras,

        sim,Marina Silva,Ricardo Antunes(vc conhece?).Apressou-se em me dar lição,um puxão de orelha.Sei q há gente q vai apreciar mais seu comentário bobinho do q o meu(mas eu não faço parte da Irmandade,apenas sou masoquista e ainda venho aqui,outros bons ja se foram,outros muito bons querem distância disso aqui,o nível é muito fraco (exceções há),serve mais pros visitantes invisíveis avaliarem a quantas anda  a média dos comentaristas e os comentários.Devem se horrorizar ou sorrir.

        • e…

          Fico mais no multimidia do dia ou vou na parte Cultura,do Portal,mas atéo multimidia do dia tá degringolando(creio q fui o maior incentivador pra q aquela seção fosse descoberta e frequentada, postando ou apreciando,ou não apreciando, vídeos, eventuais poesias, eventualíssimas crônicas.Mas isso não é do teu perfil,dá pra sacar,tem muita gente que te acompanha.

  5. WGS é um gigante, mas…

    WGS é um gigante, mas… nenhuma palavra sobre a imprensa?

    A Ciência Política é assim: partidos, governo, parlamento, relação entre poderes, procedimentos… e nenhuma palavra sobre o modo de produçao de crenças e valores.

    O texto inicia com a lembrança de Lacerda e do moralismo seletivo, etc. Mas sabemos que não tiveram nenhum escrúpulo em considerar vago o cargo de Presidente em 64. Por que hoje duvidar que esse pessoal é capaz de tudo e qualquer coisa contra governos trabalhistas?

    O jogo não está parado, não: está em pleno movimento. Depois que se concretizar não vai adiantar mais chamar de canallha quem é canalha. E não vai adiantar deitar teses e mais teses sobre o assunto também. Isso avilta a Ciência

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