A crise tem causas econômicas ou políticas?, por Percival Maricato

A crise tem causas econômicas ou políticas?, por Percival Maricato

A grande batalha nos próximos anos e para ficar na história é até onde a crise que o país enfrenta é determinada por causas econômicas ou políticas, de quem é a culpa.

Não pode haver dúvida que ela tem causas econômicas, algumas de origem mercadológicas, outras orçamentárias, mas também pode se ter certeza que a maior parte tem causas eminentemente políticas.

A incompetência do governo Dilma ou sua irresponsabilidade, pode se contar entre as políticas. Ou a Presidente não soube dimensionar os problemas que se acumulavam e a necessidade de mudanças urgentes da política econômica, ou foi irresponsável, esperando para vencer as eleições e só então tomar providências. Não resolve dizer que Sarney e FHC também erraram (paridade do dólar, plano cruzado etc).

No entanto, a crise  vivida é muito mais grave que se poderia esperar de sua dimensão econômica. O componente político, a irresponsabilidade da oposição, da mídia e dos partidos fisiológicos, a tornaram muitíssimo mais grave e difícil de lidar. Há quem diga que pelo menos 70% da crise é devido a oposição.

De um lado temos uma Câmara de Deputados aprovando pautas bombas (o país já teria falido de vez se a presidente não houvesse vetado pelo menos meia dúzia de projetos de lei que explodiriam o ajuste fiscal, com repercussão nas próximas décadas), de outro a mídia fazendo verdadeira blitzkrieg contra Dilma, PT e Lula e tudo que ele representam, as quais se pode somar a participação de parte de membros do Judiciário, Procuradoria e da Polícia Federal, fazendo investigações e vazamentos dirigidos (ou alguém dirá que isso não acontece???), criam a tempestade perfeita.

O resultado disso só pode ser instabilidade e  agravamento da crise econômica, que para ser contida e debelada exige um mínimo de estabilidade política e segurança jurídica. A agência que rebaixou a nota do Brasil  colocou a crise política como motivo importante de sua decisão. Afinal, o chefe da atual oposição, Eduardo Cunha, liberou a possibilidade de pautas bombas ou impeachments (se tornaram quase semanais, já com base em pelo menos meia dúzia de motivos). Como confiar e investir em um país com essa liderança num dos principais cargos da Nação? Com parlamentares insaciáveis em termos de cargos e verbas?

De fato, a situação se apresenta como um terceiro turno interminável, um vale tudo congressual e midiático. Nos governos Lula e no primeiro governo Dilma foi possível lidar com a oposição midiática e  fazer-se respeitar por opositores em instituições do Judiciário e até da polícia (e mais um comichão em alguns militares, que não conseguem apenas assistir a tanta celeuma), graças a maioria obtida em eleições e a maioria parlamentar. Mas no momento nada disso existe. A Presidente tem sido humilhada por Cunha (quem não lembra o episódio da entrega da cabeça do Ministro Cid Gomes, em uma bandeja) , massacrada pela mídia, é até admirável que tenha resistido tanto tempo e que, ao que tudo indica, vencerá tantas forças conjugadas.

Em episódios muito semelhantes, como o da saída de Getúlio Vargas pelo suicídio e a deposição de Jango,  a história apontou os culpados com muita clareza. Acontece que não podemos viver apenas com a história apontando o que é certo.

Percival Maricato

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

7 comentários

  1. “A incompetência do governo

    “A incompetência do governo Dilma ou sua irresponsabilidade, pode se contar entre as políticas. Ou a Presidente não soube dimensionar os problemas que se acumulavam e a necessidade de mudanças urgentes da política econômica, ou foi irresponsável, esperando para vencer as eleições e só então tomar providências. Não resolve dizer que Sarney e FHC também erraram (paridade do dólar, plano cruzado etc).”

     

    A irresponsabilidade foi justamente a mudança, e não a falta dela!!! Mais especificamente, a mudança radical na Selic. 

    • Alguém que pensa como eu?
      A

      Alguém que pensa como eu?

      A Dilma está sendo derrotada pelos rentistas com apoio da mídia.

      A oposição/MPF/PF/PGR/Parte do judiciário, cada um por seus motivos oportunistas, se aproveita da situação para fazer oposição ao brasil e derrotar um projeto político que não conseguiu vencer nas urmas.

  2. A crise tem complexas sinérgicas causas dílmicas pero si só…

    A crise tem causas econômicas ou políticas? por Percival Maricato

    …nem causas econômicas nem causas políticas e nem causas advocacias-gourmet

    A crise tem uma complexa sinergia auto-sinérgica de causas dílmicas por si só retroalimentadas com os efeitos danosos da mudança climática sobre o climatério das esquerdas no poder de fazer lambança federal! nas leis paratodos, na ordem unida constituída do país e no “accountability criativo” do estado brasileiro… desorganizando a economia nacional e os mercados tempo real e provocando iminente risco caótico de esgarçar-se a tessitura social e aí babau! by by dilma…

    entonces

    moema é morta!

  3.  
    Lembrou-me um fato histório

     

    Lembrou-me um fato histório interessante: o “Caosaéreo”. Quando o avião de passageiros chocou-se a dez mil metros de altura com o jato Legacy dos EUA morreram mais de 150 pessoas: uma tragédia nacional. No dia seguinte, um grande jornal (não lembro qual ) colocou a culpa no Lula. Na primeira página havia uma charge na qual Lula dava uma medalha de ouro à Morte (referência aos Jogos Panamericanos). O fato é que a imprensa usou o desastre associando-o ao governo Lula. Com a prisão de controladores de voo, acabou realmente criando uma crise real nos aeroportos. 

    Não era a primeira vez que no Brasil ocorria um desastre aéreo de grandes proporções, mas nunca esse tipo de desastre foi transformado numa crise política.

    Nos governos do PT tudo vira crise, até uma tapioca. Se amanhã cair um meteoro no Brasil, a mídia vai sugerir ou mesmo afirmar que a culpa é do Partido dos Trabalhadores. Até o Cunha, cuja eleição se deu sem o apoio de Dilma e do PT (que teve candidato próprio), agora, após a denúncia da polícia suíça, está sendo vinculado ao PT. Na época, aliás, a imprensa criticou a Dilma e ao PT por não terem apoiado a eleição de Cunha em vez de apoiarem a Arlindo Chinaglia. 

    Com ou sem cachorro, não faz diferença, o PT apanha da mídia.

     

     

     

  4. Dificuldades, por mais

    Dificuldades, por mais objetivas que sejam, só viram crise – no sentido de desespero e terror, não no de oportunidades – quando assim deseja a imprensa¹, principalmente a televisiva. Dá prá ser otimista ou pessimista em qualquer situação.

    Precisaria tornar “moda”, parte de nossa cultura, a Educação, filha da curiosidade e neta da humildade, que assume a possibilidade das coisas não serem o que parecem. Mas vá falar em humildade em tempos de “fazer amigos e manipular… digo, influenciar pessoas”, de “american way of life”, “qualquer um e todos podem e devem ser líderes”…

     

    ¹ – Na verdade a responsabilidade é menos da imprensa e mais daquele que nela crê. Que a imprensa publica mentira, disso todo mundo sabe. “Me manipula que eu gosto.”

  5. O câmbio e a

    O câmbio e a desindustrialização decorrente dele mostram as opções que fizemos e o buraco onde nos metemos. A parte econômica da crise vem desde 2008, agravada pelas opções do governo Lula II de querer forçar uma valorização cambial quando já era claro que nossos saldos comerciais e de balanço de pagamentos já estavam caindo, o que seria altamente imprudente. Dilma não conseguiu em seu primeiro mandato se desfazer desse legado, ainda que tenha tentado fazer uma desvalorização gradual junto com queda da taxa de juros em determinado momento, mas depois, sem mais explicações, desistiu dessa política. Mas o tamanho que a crise tem hoje só pode ser explicada pela inabilidade política, e aí eu não culpo só Dilma, mas ao PT em geral e ao próprio Lula. Em nenhum momento desses 12 anos de governo, eles foram capazes de propor um rumo novo de fato, embora tenham tido atuações pontuais em algumas áreas como o bolsa família e a área do petróleo. E a medida em que foi ficando claro que estava chegando o esgotamento do modelo político-econômico que começa nos anos 90 com a abertura econômica e depois o fim da inflação, eles começaram a entrar em parafuso, talvez ou por não saberem o que fazer ou por simples medo de terem que propor alguma coisa e serem imediatamente censurados. O fato é que a situação a que chegamos é bem clara: é necessária uma mudança de diretrizes mais ampla e não existe nenhuma liderança política capaz de fazê-la atualmente. E enquanto isso, o lulismo sonha em voltar aos seus dias de glória quando conseguia agradar o mercado financeiro e oferecer algum ganho aos menos favorecidos sem entender que a situação agora é completamente diferente de antes.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome