A derrota de Vertières
por Felipe Bueno
O apito inicial do brasileiro Wilton Pereira Sampaio no dia 11 de junho encerrou uma etapa cada vez mais importante de um evento esportivo: o tenso período de expectativa, quase sempre injustificada, de que a competição não iria acontecer.
Para nós, a referência mais conhecida é o Não Vai Ter Copa que antecedeu 2014. No Brasil de doze anos atrás, a então presidente da República Dilma Rousseff nunca se mostrou verdadeiramente entusiasta do evento, mas cedeu a conselhos amigos e pressões não tão amigas assim. Obediente, o governo federal baixou a cabeça e, como se diz hoje em outros termos, entregou. Tudo foi feito de acordo com o famoso caderno de encargos, e o Brasil aprovou até uma Lei Geral da Copa.
Nos Estados Unidos de 2026 a Fifa não ousaria dizer, como em 2012, que o país anfitrião merece um “kick in the backside”. Eram tempos de Jérôme Valcke, mais dado ao comportamento histriônico que seu sucessor, Gianni Infantino, que vemos geralmente com a sobriedade e a imparcialidade de um pajem.
A história é contada pelos vencedores, os perdedores leem o livro, prega o filósofo futebolístico italiano Antônio Conte. No ecossistema da Fifa, ambas as categorias, vencedores e vencidos, são na verdade peças de uma engrenagem em que a disputa real é até que ponto o futebol pode almejar ser uma modalidade esportiva e não um jogo de poder em que dinheiro e política valem mais que esquemas táticos ou capacidade técnica.
Parênteses: não vamos nos esquecer do fato de que entre as pessoas jurídicas que apoiam a Copa está uma das maiores marcas do planeta no setor de apostas.
O Haiti, vítima de tantas derrotas na vida real, apareceu em território Fifa com uma referência gráfica na camisa oficial de jogo à Batalha de Vertières, momento considerado chave no processo de independência em relação ao domínio colonial francês.
A entidade suprema do soccer, que não faz e não deixa ninguém fazer política (contém ironia), viu um problema na ilustração que mostra soldados levantando a bandeira haitiana. Que os guerreiros sejam retirados da batalha! Ou, pelo menos, da camisa.
É de se apostar (novamente contém ironia) que até 19 de julho haja mais motivos para que fiquemos incomodados ou indignados, mas não surpresos, com o comportamento do país-sede que de fato manda e da entidade que temporariamente prefere obedecer. Um olho deixaremos pousado nos homens de uniformes, o outro nos de terno e gravata.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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