A geladeira cheia, por Marcos Dantas

Num momento em que a economia está quase parando, a geladeira cheia de funcionários públicos como eu deve estar ajudando a fazer a economia girar minimamente e ainda garantindo muitos empregos

A geladeira cheia

por Marcos Dantas

O ministro da Economia declarou que os funcionários públicos estão com suas “geladeiras cheias”. E tem razão. Olhando a minha geladeira, vejo legumes, carne, frango, ovos, leite, uma vasilha com arroz, outra com feijão, laranjas, maçãs, também um pote de sorvete, sim, está bem fornida. Reforçando o raciocínio do ministro, confesso que, sobre a mesa, tem uma cesta cheia de pão e uma garrafa térmica com café. Falando em garrafa, num canto estão várias garrafas de água mineral.

Ocorreu-me porém que, ao contrário do que o meu netinho talvez imagine (tem Danoninho para ele também), a geladeira não produz automaticamente legumes, carne, frango, nada daquilo que está dentro dela. Ainda não dispomos dessa tecnologia. Talvez algum dia, quem sabe? Não agora. Tudo que está dentro dela ou também o pão e o café sobre a mesa, vieram do supermercado, das barracas do hortifruti, da padaria ou de quitandas do bairro. Minha geladeira está cheia graças ao comércio das minhas vizinhanças. 

Embora eu não seja economista como o ministro, ocorreu-me que por trás desses comerciantes há uma “cadeia produtiva”, como dizem os economistas. Se eles têm legumes, verduras, frutas, pão ou água para me vender, imagino que compraram de outros comerciantes ou direto de produtores agrícolas ou industriais. O frango, suponho, assim como ovos vieram de alguma granja: posso até ver a marca. Legumes e frutas, de pequenos sitiantes ou grandes fazendeiros. O padeiro certamente precisou comprar farinha e fermento de seus fornecedores. Tenho quase certeza que, para me venderem o que me vendem, eles consomem e pagam energia elétrica, conta de água, muitos devem também pagar algum aluguel pelas lojas que ocupam. Nesses tempos de pandemia e isolamento social também precisam pagar em dia as contas dos serviços de telecomunicações, não? E posso supor que eles não teriam frutas, verduras, carnes ou garrafas de água para me vender, se tudo isso não chegasse até suas lojas em caminhões ou vans. Como ninguém trabalha de graça, imagino que caminhoneiros e outros motoristas recebam alguma grana por esses serviços, uma parte da qual, aliás, será usada para encher os tanques de seus veículos com gasolina, diesel ou gás. Acredito que os proprietários dos postos de gasolina não fiquem aborrecidos por isso. Muito menos a Petrobrás.

E já que falei em caminhoneiros, isto é, em serem humanos, parece-me muito provável que, além dos proprietários de supermercados, padarias, quitandas ou barracas de hortifruti, nelas também se encontrem os seus empregados e empregadas. Ou seja, se eu não estiver enganado ou não estiver sendo enganado, uma parte do dinheiro que gastei para deixar minha geladeira cheia, acabou ajudando a pagar o salário de muita gente.

Assim, se a minha geladeira (como garante o ministro) estiver cheia graças aos proventos que o contribuinte me paga, esses proventos acabam revertendo de volta para o contribuinte na forma de bens ou serviços que adquiro no mercado privado. Num momento em que a economia está quase parando, a geladeira cheia de funcionários públicos como eu deve estar ajudando a fazer a economia girar minimamente e ainda garantindo muitos empregos, preocupação aliás do Sr. Presidente da República conforme muitas de suas “lives”.  

Por fim, como estou disciplinada e conscientemente em isolamento social, tento encher a minha geladeira, no máximo possível, com pedidos pelo telefone ou internet. Algum rapaz, de bicicleta ou moto, os traz até minha residência. E leva merecidos 5 reais de gorjeta. Ajudam a reforçar os minguados 600 reais que o governo tem dificuldade de pagar a milhões de brasileiros e brasileiras num país onde um banco acaba de anunciar ter lucrado no primeiro trimestre do ano – neste primeiro trimestre da COVID-19 – a bagatela de 3 bilhões 850 milhões de reais.

Ora, ministro, e… e… vou segurar o dedo para não escrever o que o senhor merece ler…

Marcos Dantas – Professor Titular da UFRJ

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