A linguagem favoreceu a criação e diversificação dos artefatos, transformando nossos antepassados em artesãos capazes de compartilhar sua perícia com seus filhos, e outros capazes de aprender e eventualmente aperfeiçoar as técnicas aprendidas. Os acessórios confeccionados por eles com palha, madeira, ossos, plumas, peles e materiais orgânicos em geral perderam-se no tempo, restando apenas os de pedra, mais duráveis e, por essa razão, presentes em estudos arqueológicos, peculiaridade que rendeu ao período pré-histórico a designação “idade da pedra”.
Costumamos imaginar os trogloditas – ancestrais humanos viventes nessa época –, trajando peles de animais, imposição decorrente da pudicícia vigente na Europa do século XIX, quando a arqueologia passou a ser difundida. A foto acima, tirada na gélida Terra do Fogo, extremo sul da Argentina, no início do século XX, ilustra bem os trajes utilizados por humanos durante a maior parte de nossa existência. Diretrizes pudendas de mesma estirpe reduziram drasticamente as considerações relativas à sexualidade em quase todos os campos do conhecimento, na Europa regida pela cristandade, quando do surgimento e consolidação das ciências. A biologia evolutiva, por exemplo, padece de fortes sequelas advindas de tais pudores, que impedem a compreensão de fenômenos tão fundamentais para a compreensão biológica quanto a formação de novas espécies – fenômeno decorrente da seleção sexual.
Do ponto de vista das pessoas que viveram durante centenas de milhares de anos, os principais artefatos – aqueles que exigiam maior atenção e tempo para sua confecção –, eram os enfeites, e não os supostos “machados” que compõem a representação usual dos trogloditas. Atualmente, enfeitamo-nos mais com carros, telefones e outros símbolos de status que com joias, e não nos empenhamos tanto, diretamente, na produção de adornos, mas indiretamente, comprando-os com o dinheiro recebido em paga por nosso tempo, fatos que, de certo modo, obnubilam a importância que os indivíduos de nossa espécie atribuímos aos adornos sexuais. Sim, ainda que por afetação o neguemos, enfeitamo-nos para atrais parceiros sexuais e gastamos enorme parcela de nossas vidas em tal empenho – somos uns pavões!
Foram os colares, brincos e demais atavios que esculpiram nossas mãos, hoje possuidoras de dedos longos, delgados, hábeis e mais frágeis que os de nossos antepassados distantes. Artesãos habilidosos podiam usar seus talentos na confecção de enfeites utilizados para atrair a cobiça de belas jovens, reproduzindo-se mais que indivíduos fortes, mas inábeis.
E assim, um de nossos principais adornos sexuais, a linguagem, conduziu a produção e diversificação da infinidade de outros enfeites.
O fenótipo estendido
Costumamos descrever os fatos através de pontos de vistas que estabelecem um sujeito da ação, seu agente, e um objeto que recebe a ação passivamente. Nossa gramática consagra esse ponto de vista definindo uma “voz passiva” capaz de descrever certo reverso. Assim, podemos dizer: “o sujeito fez o objeto”, ou, “o objeto foi feito pelo sujeito”, e ambas as expressões significam o mesmo.
O interessantíssimo conceito de “fenótipo estendido”, desenvolvido por Richard Dawkins, sugere que a passividade do objeto, nos inúmeros casos onde ocorre replicação, decorra mais de certo hábito preconcebido que da realidade do evento. A concepção explica inúmeros comportamentos “inadequados” e “despropositados” efetuados por criaturas descritas por ele como estando sob o controle de parasitas. Em tais casos, de um modo ou outro, os parasitas induziriam seus hospedeiros a efetuar um comportamento absurdo que teria por finalidade a replicação do parasita. Note que uma linhagem de parasitas que, de algum modo, consiga induzir seus hospedeiros a se comportar de uma forma que favoreça a replicação do parasita tende a se perpetuar, sendo essa a razão que explica o frequente surgimento de ações desse tipo. Desse modo, um vírus, por exemplo – vírus são criaturas inertes, minúsculos fragmentos de cristais –, pode, de algum modo, induzir seu hospedeiro a espirrar, aspergindo cópias do cristal parasita sobre outros potenciais hospedeiros que acabam por contrair o vírus, sendo levados a repetir e eternizar o ciclo. Desse modo, mesmo constituindo-se em cristais inertes, os vírus podem “agir”, induzindo seus hospedeiros a perpetuá-los.
Biologia generalizada
O interessantíssimo conceito inventado por Dawkins pode ser generalizado, hiperestendido de modo a abarcar e descrever a replicação dos artefatos. Obtemos assim o conceito de “fenótipo hiperestendido”, aplicável a indivíduos inanimados, não possuidores de um genoma que devesse espelhar o fenótipo em questão.
A generalização – de aparência absurda, a princípio –, permite a aplicação da análise evolutiva aos artefatos, e a constatação da capacidade de tais criaturas de nos comandar, induzindo-nos a nos comportar de maneiras inexplicáveis – como quebrar, sucessivamente, as desejadas dietas de emagrecimento. Nutricionistas, psicólogos e outros tecem inúmeras explicações para, sob ângulos diversos, explicar comportamentos recalcitrantes que resultam na dificuldade de emagrecimento, em contraste com fortíssimo desejo contrário.
De acordo com a hiper-generalização do conceito de fenótipo estendido, a compulsão voraz pelo alimento compartilhada pelos que não conseguem emagrecer apesar de desejar tão avidamente tal intento, decorre da necessidade imperiosa dos bombons, guloseimas e alimentos em geral, presentes nas prateleiras de supermercados, de garantir a própria replicação. De fato, um enorme exército de replicadores é posto em marcha todas as vezes que compramos uma mercadoria qualquer, promovendo com essa ação a replicação de uma infinidade de demandas garantidoras, cada uma delas, da replicação de algo. Assim, sob o controle de um mecanismo análogo ao de replicação dos vírus, o processo de compra de um produto qualquer resulta na ativação, estímulo e diversificação da enorme cadeia que compõe a sociedade de consumo e produção de lixo, e na perpetuação de nosso cada vez mais absurdo modo de vida.
Assim, de modo análogo ao que os vírus – criaturas inertes –, nos compelem a espirrar, com o “propósito” de ajudá-lo em seu intento de autorreplicação, os artefatos nos induzem a consumi-los, de maneira a suscitar sua replicação.
A análise anterior, aplicada aos artefatos, pode ser transposta muito diretamente aos símbolos imateriais que compõem nosso mundo. Nossa linguagem usual já permite que nos refiramos a desejos de instituições, e não causa estranheza sermos informados que determinada empresa “deseja” algo.
Atualmente, a maior parte do consumo de energia efetuado pela humanidade é direcionada para a replicação de tudo isso – artefatos materiais e informação simbólica –, não para a nossa replicação, o que demonstra o poder de tais criaturas, que hoje controlam o mundo. Somos, em muito mais alto grau, marionetes nas mãos de tais seres, que eles nas nossas.
A sabedoria encerrada na expressão “o poder corrompe” decorre do controle efetuado pela infinidade de replicadores sobre as pessoas, especialmente as que ousam se aproximar demasiadamente dos grandes fluxos de poder. O poder dos replicadores nos seduz, encanta e escraviza.
Um artefato especial: os computadores
Enquanto os artefatos usuais, como os bombons, se replicam de maneira análoga à dos vírus, indiretamente, tanto o hardware quanto, ainda mais especialmente, o software dos computadores estão em vias de adquirir a capacidade de replicação autônoma. A emergência iminente de uma inteligência artificial capaz de replicar-se de maneira aperfeiçoada consistirá em um salto evolutivo sem precedentes. Espera-se, para breve, o surgimento de algo tão estrondoso que as tentativas de descrever o fenômeno parecerão dar a ele um indisfarçável cunho místico.
Veja também:
http://blog.movimentozeitgeist.com.br/sobre-a-vaidade/
https://jornalggn.com.br/ciencia/uma-heresia-biologica-a-selecao-de-especies/
Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta
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