25 de junho de 2026

A industrialização e a Pirâmide de Maslow Invertida, por Luiz Alberto Melchert

Quanto mais elementar for o produto de consumo de massa, mais sofisticada tende a ser a estrutura produtiva necessária para produzi-lo.
Foto: Héctor de Pereda (CC BY-NC 2.0)

A industrialização brasileira não deve começar pelos setores de alta tecnologia, mas pela base da indústria de transformação.
Setores simples e de consumo massivo exigem uma estrutura industrial sofisticada e integrada para sua produção competitiva.
O Brasil precisa reconstruir a indústria básica e capilarizada para sustentar a cadeia industrial e evitar depender só da mineração.

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A industrialização e a Pirâmide de Maslow Invertida

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Ao longo das últimas décadas, consolidou-se no imaginário econômico brasileiro a ideia de que a industrialização avançada nasce dos setores ditos de alta tecnologia. Fala-se em semicondutores, inteligência artificial, terras raras, transição energética, robótica e materiais estratégicos como se bastasse investir nesses segmentos para que o país retomasse sua capacidade industrial. Trata-se de um raciocínio sedutor, porém profundamente equivocado.

Uma nação não se industrializa começando pelo telhado.

Nos anos 1980, quando o Brasil ainda preservava boa parte da estrutura construída ao longo do ciclo desenvolvimentista, o país possuía uma indústria de transformação extraordinariamente densa e integrada. Havia empresas nacionais e estrangeiras produzindo praticamente toda a cadeia de suprimentos necessária ao funcionamento da indústria têxtil, desde as cardas até os passadores, filatórios open end, filatórios de anel, teares, sistemas de acabamento e equipamentos auxiliares.

Mas o mais importante não estava na superfície.

Por trás de uma simples fiação existia um gigantesco sistema industrial invisível. Os fios em alta velocidade exigiam guias cerâmicos resistentes à abrasão. Isso implicava a existência de uma sofisticada indústria de cerâmica técnica, produzida a partir de alumina pura, safira industrial, carbeto de silício e zircônia. Esses materiais precisavam ser eletrofundidos, moídos até granulometria impalpável e moldados mediante prensas isostáticas de alta precisão.

Aparentemente, tratava-se apenas da indústria do vestuário. Na realidade, era a manifestação visível de uma estrutura tecnológica extremamente sofisticada.

Esse fenômeno não se restringia ao setor têxtil. A agricultura moderna também depende de cadeias industriais complexas. Bombas, válvulas, sistemas de irrigação, pulverizadores, colheitadeiras e implementos agrícolas exigem materiais capazes de resistir simultaneamente à abrasão hidráulica, ao ataque químico dos fertilizantes e defensivos e ao desgaste mecânico contínuo. Por trás do agronegócio existem metalurgia, química fina, cerâmica técnica, vedação industrial, usinagem de precisão e engenharia de materiais.

A percepção convencional da tecnologia costuma imaginar uma pirâmide em cuja base estariam os setores simples e, no topo, os sofisticados. A realidade industrial é exatamente o contrário.

Quanto mais elementar for o produto de consumo de massa, mais sofisticada tende a ser a estrutura produtiva necessária para produzi-lo competitivamente.

É justamente aí que surge a ideia da “Pirâmide de Maslow Invertida”.

Na formulação clássica de Abraham Maslow, as necessidades básicas sustentam as superiores. Na industrialização, entretanto, ocorre uma inversão funcional. Para atender necessidades elementares da sociedade — vestir-se, alimentar-se, locomover-se, morar — torna-se necessária uma infraestrutura industrial de altíssima complexidade tecnológica.

A indústria dita “baixa tecnologia” não representa atraso. Ela constitui, na verdade, a fundação econômica que sustenta toda a cadeia industrial à montante.

Uma fábrica de tecidos gera demanda para:
máquinas-ferramenta;
rolamentos;
abrasivos;
instrumentação;
motores;
ligas metálicas especiais;
cerâmica fina;
automação;
tratamentos térmicos;
química industrial;
engenharia de manutenção;
e pesquisa aplicada.

Sem esse tecido industrial disseminado, os setores considerados estratégicos simplesmente não encontram ambiente econômico para prosperar.

Esse é o erro central da atual discussão sobre reindustrialização brasileira.

Pretende-se utilizar as terras raras como indutor industrial, como se o simples domínio mineral fosse capaz de gerar complexidade econômica automaticamente. Não é.

As terras raras não possuem valor estratégico intrínseco. Seu valor surge somente quando existe uma poderosa indústria à jusante capaz de convertê-las em motores elétricos, servomecanismos, sensores, óptica avançada, guiagem, sistemas militares, eletrônica, robótica e equipamentos industriais sofisticados.

Sem isso, continuam sendo apenas minério.

A China compreendeu essa lógica há décadas. O domínio sobre as terras raras não nasceu da mineração isolada, mas da construção de uma gigantesca estrutura industrial de transformação capaz de absorver esses materiais em escala crescente. O minério veio depois da indústria, e não antes dela.

O Brasil parece tentar inverter essa ordem natural.

Imagina-se que a simples posse de recursos minerais estratégicos bastaria para reconstruir a indústria nacional. Mas a História econômica mostra exatamente o contrário. A industrialização sempre nasce da expansão das atividades mais disseminadas da economia real, aquelas que criam mercado para milhares de fornecedores intermediários.

Quando o país perde a indústria de transformação aparentemente simples, perde também:
a ferramentaria;
a engenharia incremental;
a produção de componentes;
a metalurgia fina;
a cerâmica técnica;
a química aplicada;
a capacidade de manutenção;
e a formação continuada de mão de obra industrial.

Desaparecem os encadeamentos invisíveis.

Restam a mineração primária e a importação do produto acabado.

É por isso que a reindustrialização brasileira não ocorrerá a partir de enclaves tecnológicos isolados, nem mediante discursos grandiloquentes sobre transição energética ou materiais estratégicos. Ela dependerá da reconstrução paciente da indústria mais elementar, mais disseminada e mais capilarizada, justamente aquela que o discurso contemporâneo passou a considerar ultrapassada.

Será preciso voltar a fabricar:
máquinas;
componentes;
válvulas;
bombas;
rolamentos;
ferramentas;
cabos;
equipamentos agrícolas;
máquinas têxteis;
autopeças;
e bens de transformação intensivos em engenharia cotidiana.

Porque é essa indústria “chã” que recompõe a robustez sistêmica da economia.

Uma casa não se constrói pelo telhado.

Primeiro vêm as fundações.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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  1. Bruno Menezes

    29 de maio de 2026 1:12 pm

    É isso, sem pesquisa e investimento para a aplicação de materiais, não vamos a lugar nenhum. O Brasil teve um presidente que adorava falar sobre o nióbio em sua campanha eleitoral, mas que, ao assumir o cargo, não mexeu um dedo para transformar o minério em um produto de valor. Pois bem: há poucos dias, eu navegava pelo AliExpress quando me deparei com uma faca de cozinha fabricada em Powder Steel (aço em pó), que trazia justamente o nióbio em sua composição (14Cr14MoVNb). No fim das contas, nós mineramos a matéria-prima, mas quem fatura vendendo o item de alto valor agregado é o chinês…

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