
Por Luiz Alberto Melchert*
Para que este texto seja plenamente compreendido por leitores que nunca tiveram contato direto com a obra de Fernand Braudel, é preciso partir de uma constatação simples e concreta: o impulso humano de dominar caminhos nunca desapareceu. Ele apenas mudou de forma, de suporte técnico e de linguagem.




Uma leitura braudeliana da internet exige afastar-se do deslumbramento tecnológico e situá-la no tempo longo, tal como propôs Fernand Braudel. A internet, nesse enquadramento, não é um artefato neutro nem um simples produto da inovação recente, mas uma estrutura histórica profunda, comparável às grandes rotas marítimas, aos sistemas monetários ou às redes comerciais que moldaram civilizações por séculos.
Braudel distinguia três planos do tempo histórico:
- o tempo quase imóvel das estruturas,
- o tempo lento das conjunturas,
- o tempo curto dos acontecimentos.
A internet atravessa esses três planos simultaneamente.
No tempo longo, a internet é antes de tudo infraestrutura. Cabos submarinos, pontos de troca de tráfego (IXPs), centros de dados, protocolos de endereçamento e roteamento cumprem hoje o papel que portos, canais, estradas e frotas desempenharam no capitalismo mercantil. Assim como o comércio atlântico não existiria sem ventos, correntes e portos estratégicos, a internet não existe sem a geografia física e política que sustenta seus fluxos. O discurso de “nuvem” oculta deliberadamente essa materialidade pesada e cara — e, portanto, politicamente sensível.
No plano conjuntural, a internet se articula ao capitalismo contemporâneo como meio de aceleração da circulação. Se, no século XVI, a vantagem competitiva estava em controlar rotas marítimas e crédito, hoje ela reside no controle de endereços IP, sistemas operacionais, plataformas, padrões técnicos e fluxos de dados. A financeirização, a logística global, o comércio eletrônico e até a guerra híbrida dependem dessa camada intermediária. A internet, aqui, não cria o capitalismo; ela o serve, assim como as feiras medievais, os bancos genoveses ou as companhias de comércio serviram aos seus respectivos tempos.
Por fim, no tempo curto dos acontecimentos, aparecem os episódios ruidosos: vazamentos de dados, censura de plataformas, quedas de redes sociais, disputas regulatórias, eleições influenciadas por algoritmos. Para uma leitura braudeliana, esses fatos são ondas de superfície. Importantes, sem dúvida, mas incapazes de explicar a lógica profunda do sistema. O essencial está menos nos escândalos do dia e mais na estrutura de poder que decide quem pode endereçar, rotear, hospedar e excluir.
Sob esse prisma, a questão da soberania digital ganha densidade histórica. Estados que não controlam sua infraestrutura informacional assemelham-se às economias coloniais descritas por Braudel: participam do mercado, mas não definem suas regras. Produzem conteúdo, mas não dominam os meios de circulação. Consomem tecnologia, mas não decidem seus protocolos. A dependência não é episódica; é estrutural.
A internet, portanto, numa visão braudeliana, não é nem libertadora por essência nem opressiva por natureza. Ela é um campo de forças, inscrito na longa duração do capitalismo e da técnica, onde poucos centros organizam fluxos globais e muitos atores orbitam essas decisões. Como o mar Mediterrâneo de Braudel, a internet é menos um espaço de liberdade espontânea e mais um sistema organizado, no qual geografia, poder e economia se entrelaçam de forma persistente.
O erro recorrente — técnico e político — é tratá-la como fenômeno recente, volátil e autônomo. Braudel lembraria que as verdadeiras mudanças não ocorrem no brilho das novidades, mas quando as estruturas profundas se deslocam. É ali, e não nas manchetes do dia, que se decide o destino digital das nações.
Braudel ensinou que a história verdadeira se revela no tempo longo, onde as estruturas persistem apesar das transformações aparentes. A internet, observada nesse enquadramento, não inaugura uma nova lógica civilizatória; ela reencena uma lógica antiga com instrumentos modernos. Controlar fluxos sempre foi sinônimo de poder — seja de mercadorias, de pessoas, de capitais ou, agora, de informações.
Esse domínio dos caminhos não é um fenômeno do passado. Ele se manifesta de forma explícita no presente. Os Estados Unidos mantêm vinte e sete bases militares nas Filipinas não por acaso, mas porque precisam preservar sua capacidade de intervenção e vigilância sobre o Estreito de Malaca, uma das artérias centrais do comércio mundial. Do mesmo modo, a disputa contemporânea com a China pelo Canal do Panamá revela que controlar gargalos físicos continua sendo elemento decisivo da geopolítica global. Nada disso é simbólico, retórico ou residual; trata-se de poder concreto, mensurável e estrategicamente planejado.
A reação sistemática dos Estados Unidos às obras de infraestrutura chinesas na América do Sul — especialmente no Brasil — reforça essa continuidade histórica. Portos, ferrovias, cabos, centros logísticos e sistemas de comunicação não são vistos como investimentos neutros, mas como instrumentos de reorganização dos caminhos. Quem constrói infraestrutura constrói dependência; quem controla infraestrutura controla escolhas futuras. Essa lógica atravessa séculos sem pedir licença à retórica do progresso.
É nesse ponto que a leitura braudeliana da internet ganha densidade prática. Cabos submarinos, pontos de troca de tráfego, centros de dados, sistemas de endereçamento e plataformas digitais cumprem hoje o mesmo papel estrutural que portos, canais e estreitos vêm cumprindo desde priscas eras. A diferença é que, agora, o controle se exerce de forma menos visível, escondido sob camadas técnicas que parecem neutras, mas não são.
Aqui emerge um equívoco recorrente, sobretudo entre especialistas técnicos. Conhecer profundamente o funcionamento da rede — bits, bytes, protocolos, latência, algoritmos — não equivale a compreender a internet como fenômeno histórico e político. O domínio técnico opera dentro de caminhos já definidos. Os profissionais de TI, de redes e de segurança assemelham-se mais aos marinheiros e cartógrafos do passado do que aos estrategistas que decidiam quais rotas seriam abertas, fechadas ou protegidas por canhões.
A técnica executa; o poder decide. Sempre foi assim.
A internet, portanto, não rompeu com a lógica do domínio dos caminhos. Ela apenas a aperfeiçoou. O controle tornou-se mais abstrato, distribuído e opaco, mas não menos real. Endereçamento, roteamento, validação e exclusão continuam sendo decisões políticas travestidas de escolhas técnicas.
Sob essa ótica, a soberania digital deixa de ser um slogan e passa a ser uma questão estrutural. Países que não controlam seus caminhos informacionais ocupam posição análoga à das economias periféricas descritas por Braudel: participam do sistema, mas não o comandam; circulam, mas não decidem; produzem, mas não definem as regras da circulação.
Nada mudou na essência. Do Estreito de Malaca aos cabos submarinos, do Canal do Panamá aos grandes pontos de troca de tráfego, o poder continua residindo em quem domina os caminhos. A internet não é exceção histórica — é apenas o capítulo mais recente de uma história muito antiga, que segue aberta e em disputa.
Posfácio — quando os caminhos voltam a ser visíveis
Este texto não pretendeu explicar a internet; pretendeu reposicioná-la. Ao deslocá-la do terreno estreito da técnica para o campo mais amplo da história, ele recoloca o leitor diante de uma evidência incômoda: a internet não é uma ruptura civilizatória, mas a continuação de uma longa tradição humana de domínio dos caminhos.
A leitura braudeliana — mesmo para quem jamais leu Fernand Braudel — oferece uma chave interpretativa poderosa porque dissolve a ilusão da novidade. Ela mostra que o essencial não está no brilho dos dispositivos, nem na sofisticação dos protocolos, mas na persistência das estruturas de poder que organizam a circulação. O leitor atento perceberá que, ao longo do texto, os exemplos históricos e contemporâneos não são analogias retóricas, mas manifestações de um mesmo princípio estrutural.
O domínio de estreitos, canais, portos e rotas marítimas nunca foi abandonado; apenas passou a coexistir com o domínio de cabos, endereços, plataformas e padrões técnicos. A geopolítica atual — do Estreito de Malaca ao Canal do Panamá, da infraestrutura física às redes digitais — confirma que não há poder sem controle dos caminhos, sejam eles tangíveis ou abstratos. A internet, longe de abolir a geografia, apenas a redesenhou.
Este posfácio também cumpre uma função de alerta. A crença de que a técnica, por si só, garante autonomia é uma herança perigosa do pensamento tecnocrático. Ela obscurece o fato de que soberania não se exerce no nível da operação, mas no nível da decisão estrutural. Países, instituições e sociedades que se contentam em operar sistemas concebidos por outros aceitam, ainda que involuntariamente, uma posição subordinada — tão funcional quanto frágil.
Ao final, resta uma conclusão simples, mas decisiva: a internet não é um espaço neutro, nem um campo naturalmente democrático. Ela é um território em disputa, inscrito na longa duração da história, onde se reproduzem — com novas linguagens — velhas assimetrias de poder. Entender isso não é pessimismo; é condição mínima para qualquer projeto sério de soberania digital.
Bibliografia básica
BRAUDEL, Fernand. La Méditerranée et le Monde Méditerranéen à l’Époque de Philippe II. Paris: Armand Colin, 1949.
BRAUDEL, Fernand. Civilisation matérielle, économie et capitalisme (XVe–XVIIIe siècle). 3 v. Paris: Armand Colin, 1979.
ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
WALLERSTEIN, Immanuel. O Sistema Mundial Moderno. Porto Alegre: L&PM, 2001.
HARVEY, David. The Condition of Postmodernity. Oxford: Blackwell, 1989.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
VAROUFAKIS, Yanis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.
SCHILLER, Dan. Digital Capitalism: Networking the Global Market System. Cambridge: MIT Press, 1999.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.
KAPLAN, Robert D. The Revenge of Geography. New York: Random House, 2012.Este conjunto de obras não esgota o tema, mas oferece ao leitor os instrumentos conceituais necessários para compreender que, da navegação à informação, os caminhos sempre importaram — e continuam a importar.
Luiz Alberto Melchert é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. Dos seus 45 anos de vida profissional, dedicou 35 aos agronegócios, o que o levou a conhecer, virtualmente, todos os recantos do Brasil e suas mazelas.
Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN.
AMBAR
26 de dezembro de 2025 4:27 pmO curioso é que tanto as feiras medievais, os bancos genoveses as companhias de comércio de ontem quanto o controle de endereços IP, sistemas operacionais, plataformas, padrões técnicos e fluxos de dados sempre estiveram nas mesmas mãos, com o fixo objetivo de controle total da humanidade.
Será uma era sombria para a humanidade quando alcançarem tal intento.