11 de junho de 2026

A miopia do Estadão sobre o salário mínimo, por José Luis Oreiro

Crítica ao "fetiche" do ajuste foca no gasto social, mas ignora o custo de R$ 1 trilhão com juros e a perda de competitividade real

Do Blog do José Luis Oreiro

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Em editorial recente (ver acima) o Jornal o Estado de São Paulo afirma que o governo do Presidente Lula estaria (sic) obcecado com a política insustentável de valorização do salário mínimo, o qual, desde a sua criação há 85 anos atrás em 1940 no governo de outro populista Getúlio Vargas, quem criou a CLT e os direitos trabalhistas, desperta os mais variados apelos (sic) populistas. O editorial do Estadão continua afirmando que a política atual de elevação do salário mínimo é insustentável pois cada R$1,00 de elevação do salário mínimo gera um aumento de gastos de R$ 388 milhões. Assim, conclui o editorial seria necessário uma terapia de choque no país, onde fica subentendido que tal terapia de choque consistiria não apenas na mudança da regra de reajuste do salário mínimo – quiçá sua extinção dado que se trata de puro populismo dado que os salários devem ser determinados pelo livre jogo das forças de mercado – como também a desvinculação de outras despesas – leia-se as aposentadorias e o BPC – da evolução do salário mínimo.

Que o Brasil possui sérios problemas estruturais eu não tenho dúvida, e o principal, sobre o qual o Estadão e os economistas por ele consultados fazem cara de paisagem é a desindustrialização prematura e acelerada da economia brasileira desde 2005 por obra e graça da armadilha juros altos e câmbio sobrevalorizado que afeta negativamente a tanto a competitividade preço como extra-preço da indústria de transformação. Desde 2007 o saldo comercial da indústria de transformação tem sido crescentemente negativo, superando a casa de mais de US$ 100 bilhões de dólares; fazendo com que após décadas de esforço hercúleo de superar a vergonhosa posição de país exportador de produtos primários com baixo valor adicionado e baixa elasticidade preço de demanda, o Brasil tenha retornado a condição de país periférico exportador de soja, boi e minério de ferro, para conseguir gerar um saldo comercial insuficiente sequer para zerar o seu déficit em transações correntes do balanço de pagamentos, mas agora na condição de satélite da China ao invés dos Estados Unidos e do Império Britânico. A elevada taxa de juros, que no ano de 2025 vai custar a bagatela de R$ 1 trilhão para os sofres públicos, é a principal responsável pela baixa formação de capital fixo no Brasil e, dessa forma, pela falta de investimento na modernização tecnológica da nossa indústria de transformação, que vai ficando cada vez mais alijada da fronteira tecnológica mundial, o que exige uma taxa de câmbio de equilíbrio industrial cada vez mais depreciada para contrabalançar a perda da competitividade extra-preço por ganhos na competividade preço. Mas essa mesma taxa de juros elevada, ao atrair fluxos de capitais especulativos do exterior, contribuiu para uma forte valorização do Real frente ao Dólar em 2025, impedindo assim que nossa cambaleante indústria de transformação pudesse ao menos tentar manter o nariz acima da linha dágua com algum ganho de competitividade preço. O Estadão deveria culpar Lula, Haddad e Galipolo por não só não terem feito nada para lidar com esse problema, mas também por terem tomado medidas – entre as quais a selic em 15% a.a – que agravam uma situação que já era ruim e deverá piorar nos próximos anos. Esse é o abismo real frente ao qual a economia brasileira se defronta. Todo o resto é perfumaria.

Mas para dizer que não falei de flores, vamos ao custo fiscal da política de valorização do salário mínimo. Os economistas consultados pelo Estadão são, em sua maioria, economistas neoclássicos formados na tradição dos modelos DSGE – Dynamic Stochastic General Equilibrium Models – que são modelos de agente representativo, ou seja, modelos nos quais – sob condições extraordinariamente restritivas como ressaltado recentemente por Peter Skott, professor emérito da UMass/Amherst, em seu livro Structuralist and Behavioral Macroeconomics (2023) – pode replicar as decisões de milhões de agentes econômicos. Ora uma economia de agente representativo é, por definição, uma economia não monetária. Se não existe moeda ou se ela é apenas uma adição não essencial ao modelo, então não existem fluxos de pagamentos e recebimentos, apenas entrega de bens comprados e vendidos em datas e estados da natureza previamente determinados, sempre aos preços de equilíbrio. É aqui que jaz o calcanhar de Aquiles da análise apresentada no Editorial do Estadão: a desconsideração que os gastos que o governo faz com as políticas vinculadas ao salário mínimo são RENDA dos agentes econômicos, na sua imensa maioria agentes pobres QUE TEM ALTA PROPENSÃO A CONSUMIR E BAIXA PROPENSÃO A IMPORTAR. Dessa forma, o EFEITO MULTIPLICADOR DOS GASTOS VINCULADOS AO SALÁRIO MÍNIMO é alto. Em artigo publicado por um dos economistas ouvidos pelo Estadão, esse multiplicador se situa em torno de 2,5. Dessa forma, um aumento dos gastos vinculados ao salário mínimo em 388 milhões de reais irá criar um acréscimo de renda de 970 milhões de reais. Considerando que a carga tributária média no Brasil é de 32% (incluindo aqui o governo federal e os entes subnacionais) então essa renda adicional irá gerar um acréscimo de arrecadação tributária de R$ 310 bilhões, de forma que o aumento líquido do déficit público será de apenas 78 milhões de reais para cada R$ 1,00 de aumento do Salário Mínimo.

É um erro quase infantil analisar o impacto dos gastos do governo desconsiderando o efeito multiplicador dos mesmos. Como disse certa vez o jornalista Luis Nassif isso é ser “economista cabeça de planilha”. Mas um erro muito pior é desconsiderar a maior rubrica do orçamento do governo que é o gasto com juros da dívida pública. Nesse campo eu venho defendendo desde 2022 uma Reforma Monetária (https://fundacaoastrojildo.org.br/jose-luis-oreiro-reforma-monetaria-sera-um-dos-principais-desafios-do-governo-lula/) que fizesse uma verdadeira terapia de choque na economia brasileira com a completa e irrestrita desindexação de preços, salários e contratos da economia brasileira, restabelecendo o papel do Real como a única unidade de conta da economia brasileira, o que permitiria uma redução sustentável na taxa básica de juros e no juro de longo-prazo. Mas “curiosamente” a grande imprensa não toca no assunto, porque se trata de um problema de economia política: a grande imprensa vocaliza o interesse dos ricos que querem que o custo do ajuste fiscal recaia sobre os mais pobres. Dai o fetiche com o salário mínimo, com o BPC e o abono salarial. Que a malta pague para que os ricos continuem cada vez mais ricos.

Parafraseando Keynes a luta de classes, quando o Brasil despertar do torpor Bolsonarista, me encontrará do lado dos pobres. Se para tanto for necessário uma revolução socialista, então que assim seja, embora eu pessoalmente prefira uma capitalismo socialmente administrado, regido pelos princípios da Doutrina Social da Igreja Católica, como propõe o Papa Leão XIV.

José Luís Oreiro é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1996) e doutorado em Economia da Industria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). Atualmente é professor adjunto do departamento de economia da Universidade de Brasília (FACE/UNB).

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    27 de dezembro de 2025 10:31 am

    “Capitalismo socialmente administrado, regido pelos princípios da Doutrina Social da Igreja Católica, como propõe o Papa Leão XIV.”

    O Papa Leão XIV adotou este nome num aceno ao XIII, o primeiro pontífice a reconhecer, ainda que de forma tíbia, a existência – e, portanto, o direito à dignidade e a condições de vida minimamente aceitáveis – do trabalhador, e, por tabela, do pobre. Mas só é possível ler a Rerum Novarum até a introdução, onde nos deparamos com esta pérola: “Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para – os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.”
    Sem comentários, sem chance. Toda vez que um papa tenta por pelo menos um dos pés da Igreja Católica no mundo atual, o seguinte trata de trazê-lo de volta à Idade Média. Foi assim com João XXIII, teria sido assim com João Paulo I, e assim está sendo com Francisco. Portanto, esqueçam a Doutrina Social da Igreja, que é a mesma que silenciou Dom Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff, e agora o padre Lancelotti, dentre tantos outros. Antes a fogueira, hoje o silêncio obsequioso.

    Agora, isso de ‘capitalismo socialmente administrado’; o que diabo vem a ser isso? Algo como ‘crueldade humanamente perpetrada’, ou o tradicional ‘jugo manso, fardo leve’? Se eu estiver errado, me corrijam, mas a noção de algo ‘socialmente administrado’ somente pode ser baseado em considerações de ordem moral, ou ética. Moral em relação aos indivíduos, e Ética aos grupos que esses indivíduos formam. Mas isso tornaria necessário supor que exista uma Moral Universal, e, por via de consequência, uma Ética Universal. E esta noção absurda, tautológica, é talvez o último resquício dos cacoetes universalistas da Revolução Francesa. Que, como se sabe, marcou apenas a passagem das rédeas da sociedade das mãos do Rei, da Nobreza, e do Clero, para as mãos da Burguesia, onde estão até hoje, sob suas atuais denominações.
    Como administrar socialmente algo que é um indivíduo, uma pessoa jurídica? O Capital não é um bem social, é propriedade de um homem, ou de uma sociedade de homens. Se não, porque dele se apropriar e utilizar para ganho próprio? A única coisa social no Capital é o prejuízo que ele, necessariamente, gera. Se alguém com ele lucra, alguém com ele perde. De que importa o proletariado tomar em suas mãos a propriedade, ou posse, dos meios de produção, como supostamente aconteceu na Rússia, em 1917, se o Capital que põe esses meios de produção em movimento permaneceu em mãos de capitalistas, que prontamente o removeram para localidades mais amigáveis?
    Capitalismo socialmente administrado, Capitalismo Ético, até quando perderemos tempo com quimeras?

  2. Bruno Payolla

    27 de dezembro de 2025 10:32 pm

    Análise muito boa. Mas capitalismo regido pelos princípios sociais da igreja católica é piada!

  3. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    29 de dezembro de 2025 7:31 am

    Peço desculpas ao articulista, pois não se trata de miopía, é calhordice mesmo. Para um veículo de cominucação que representa os interesses do clube da usura, qualquer melhoria de renda do andar de baixo, representa alguns bilhões a menos para os afortunados deste país.

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