A mortandade de empresas e por que isso deixa a recuperação mais distante, por Lauro Veiga Filho

Os resultados mais recentes da Pesquisa Pulso Empresa, do IBGE, fornecem uma amostra de como a retomada da economia deverá ser muito mais complicada do que supõe a vã imaginação do senhor ministro

A mortandade de empresas e por que isso deixa a recuperação mais distante

por Lauro Veiga Filho

Os resultados mais recentes da Pesquisa Pulso Empresa, iniciada em junho passado e desde então realizada quinzenalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fornecem uma amostra de como a retomada da economia deverá ser muito mais complicada do que supõe a vã imaginação do senhor ministro dos negócios especiais, outrora conhecido como “Posto Ipiranga” em Brasília e adjacências. A se considerar o cenário desenhado na primeira edição do levantamento, cobrindo a quinzena final de junho, estavam em funcionamento no País em torno de 4,071 milhões de empresas. Na primeira quinzena de agosto, esse número foi reduzido para pouco menos de 3,045 milhões, significando que 1,026 milhão de empresas deixaram de funcionar.

Qualquer que seja o motivo, o fato é que alguma coisa acima de um quarto das empresas passou a não fazer parte da pesquisa e talvez, hipótese a ser considerada, tenha cerrado as portas. Ao contrário da primeira edição da pesquisa, que indicava o encerramento definitivo de 17,6% dos negócios em operação até a pandemia e o fechamento temporário de outros 15,0%, o levantamento mais recente não traz essa informação. Com a reabertura quase generalizada das atividades econômicas, a tendência é de que as pessoas que haviam desistido de procurar emprego, por conta da pandemia, voltem a buscar uma colocação. Diante do fechamento de empresas, será muito mais difícil recuperar o emprego antigo ou conseguir uma colocação nova.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, em sua versão especialmente desenhada pelo IBGE para acompanhar os impactos da crise sanitária (chamada de PNAD Covid-19), registrava, até a primeira semana de agosto, perto de 28,092 milhões de trabalhadores que haviam desistido de procurar emprego, mas continuavam dispostos a trabalhar. Desses, em torno de dois terços (65,2%) deixaram de procurar opções no mercado por conta da pandemia, somando 18,311 milhões. Esse número era, até ali, quase 46,0% mais elevado do que o total de trabalhadores desempregados que ainda continuavam na procura por uma vaga (12,559 milhões).

A grande ameaça

Num exercício teórico, se todo esse contingente decidir retomar a procura por empregos, a força de trabalho passaria de 94,154 milhões para 112,465 milhões e o número de desempregados saltaria para 30,870 milhões, elevando o desemprego para inaceitáveis 27,4% (duas vezes mais a taxa observada no começo de agosto, de 13,3%). Evidentemente, parte desses trabalhadores tem chances de conseguir uma colocação e outros tenderão a buscar opções na informalidade (que já tinha retomado o crescimento desde a segunda semana de julho). Mas o fechamento de empresas em larga escala limita as possibilidades de colocação desse pessoal e agrava a ameaça de uma piora no mercado de trabalho, com elevação do desemprego para além dos níveis já preocupantes anotados até o momento.

O fechamento de empresas foi mais severo entre aquelas de menor porte, com até 49 empregados. O número de unidades em funcionamento nesta faixa caiu de 4,007 milhões para 2,983 milhões (-25,5%). A tendência atingiu com maior força os setores de comércio (perda de 488,35 mil empresas, numa queda de 28,6%) e de serviços (menos 415,14 mil empresas, em baixa de 24,1%).

Numa melhora enganosa, diante do grande número de empresas fechadas e das demissões já ocorridas, apenas 7,9% delas continuaram a demitir na primeira quinzena de agosto, diante de 34,6% nas duas semanas finais de junho. Um terço das empresas em funcionamento ainda enfrentava dificuldade para produzir e atender aos clientes, o que aponta a dificuldade para remontar cadeias de suprimento atingidas pela crise.

 

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