A pandemia e a crise alimentar, por Rodrigo Medeiros

“93% dos agricultores familiares já percebem os efeitos da crise gerada pelo vírus à região”.

Foto Diário de Caratinga

A pandemia e a crise alimentar

por Rodrigo Medeiros

Recentemente, mais precisamente no dia 30 de julho, um informe conjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPS) apontou que a América Latina não conseguirá reativar a sua economia se não conseguir frear os contágios. Entre os fatores que afetaram negativamente o combate à pandemia de Covid-19, a alta informalidade laboral na região destacou-se.

Segundo o informe conjunto Cepal-OPS, “a matriz da desigualdade na região coloca certos grupos em uma situação especial de vulnerabilidade, entre os quais os idosos (85 milhões), trabalhadores informais (54% do emprego regional), mulheres (a maioria em atividades informais, com aumento do trabalho não remunerado e maior exposição à violência doméstica), povos indígenas (60 milhões de pessoas e com comunidades que podem desaparecer), pessoas afrodescendentes (130 milhões de pessoas em 2015), pessoas com deficiência (70 milhões de pessoas) e migrantes”.

O subfinanciamento regional dos sistemas públicos de saúde também mereceu considerações no informe por conta das suas consequências sociais e econômicas. De acordo com o informe, “no nível social e econômico, a pandemia desencadeou uma inédita crise econômica e social, e, se medidas urgentes não forem tomadas, poderá se transformar em uma crise alimentar e humanitária”. A queda da economia regional provocou a elevação do desemprego e das desigualdades de rendas, além do aumento da pobreza.

O informe compreende, por sua vez, três fases, não necessariamente lineares entre si, para as medidas a serem tomadas na pandemia: controle, retomada e reconstrução. Em síntese, “não há abertura econômica possível sem que a curva de contágio tenha sido controlada e não há retomada possível sem um plano claro para evitar o aumento do contágio”. O informe aponta no sentido de se buscar avançar na transformação produtiva regional e na criação do Estado de bem-estar. Nesse sentido, o informe coloca a questão da redução da dependência regional de produtos médicos importados e as necessidades de mudanças na matriz produtiva a partir de “investimentos verdes”, sustentáveis.

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A perspectiva do encurtamento das cadeias globais de valor (CGV) já deveria estar gerando uma maior reflexão no Brasil, pois novas oportunidades surgirão para a articulação de arranjos produtivos regionais. Incentivos fiscais federais e estaduais à produção de bens e serviços precisarão ser revisados em algum momento. Afinal, deveria haver uma maior preocupação com as reservas estratégicas nacionais que um país do porte do Brasil precisa ter no xadrez geopolítico global? Uma matéria publicada no dia 28 de julho na Folha de S.Paulo, assinada por Larissa Garcia e Pedro Ladeira, mostrou uma pesquisa realizada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

Essa pesquisa revelou que a pandemia poderá afetar a distribuição de alimentos na América Latina. Segundo a matéria, “93% dos agricultores familiares já percebem os efeitos da crise gerada pelo vírus à região”. A pandemia afetou o transporte e a distribuição de alimentos, além de aspectos sanitários da produção intensiva em mão de obra. A renda da maioria dos agricultores familiares diminuiu durante a pandemia. De acordo com a matéria, “os produtos mais impactados pela Covid-19 (88%) se dividem em cinco grupos: grãos e cereais, vegetais, frutas, tubérculos e carnes”.

Consultando algumas matérias publicadas na imprensa, é possível notar que os especialistas afirmaram que os estoques de alimentos estariam abaixo dos 20% necessários no Brasil, algo que colocaria em risco o abastecimento. Durante a pandemia, diversas matérias foram publicadas na imprensa sobre a elevação dos preços dos alimentos nos supermercados. Segundo o IBGE, para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho, os alimentos voltaram a subir, e, de acordo com alguns especialistas, só não passamos até então por uma crise de abastecimento alimentar porque o consumo foi represado por conta da fome, do desemprego e da queda da renda.

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Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, em inglês), a agricultura familiar é vital para a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável. Portanto, o fortalecimento da agricultura familiar é estratégico, inclusive para a retomada e a reconstrução econômica brasileira. A gestão eficiente de estoques públicos reguladores de preços é também fundamental. No que diz respeito às possibilidades de geração de renda e agregação tecnológica de valor à produção, o fortalecimento da agricultura familiar poderá gerar um novo impulso na estruturação de novas fontes de renda e de ocupações laborais para o interior do Brasil, além de garantir a segurança alimentar nacional.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

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