A Petrobras na fogueira das refinarias, por André Motta Araújo

A epopeia das refinarias merece um livro para contar essa saga de ótimos patrícios nossos que vestiram a camisa do desenvolvimento do Brasil

Reprodução

A direção neoliberal amadora da PETROBRAS se prepara para uma mega liquidação de seu parque de refinarias, construídas com grandes esforços, visão, patriotismo, entusiasmo de jovens engenheiros, todo um grande grupo de brasileiros em busca da auto suficiência de combustíveis do país.

A epopeia das refinarias merece um livro para contar essa saga de ótimos patrícios nossos que vestiram a camisa do desenvolvimento do Brasil.

A obtusa, patética e obscura direção da PETROBRAS, ao contrário do padrão mundial de administração das grandes petroleiras, NÃO SÃO PESSOAS DO MUNDO DO PETRÓLEO, são apenas financistas e criou uma nova doutrina econômica única no mundo: uma grande empresa AJUDA A CONCORRÊNCIA a assumir sua fatia do mercado onde ela é dominante. VAMOS ABRIR PARA A CONCORRÊNCIA é coisa inédita para uma empresa de capital aberto.

Se eu tenho um mercado, QUE É UM VALOR – mercado vale mais que ativo físico – por que vou cedê-lo a um concorrente?  Porque É MELHOR TER CONCORRÊNCIA. Mas, melhor para quem? Não é para quem vai perder mercado mas a direção da PETROBRAS e acha que ceder mercado é bom,  gostoso, faz bem à saúde, é bonito. A PETROBRAS é dona do mercado e gentilmente entrega para a SHELL, de graça, por ideologia neoliberal. É LINDO.

A VENDA SEM LEILÃO

Por uma lei absurda do governo FHC, a PETROBRAS está isenta da Lei de Licitações, pode comprar e vender sem obedecer a lei. Mas essa isenção foi pensada para dar mais flexibilidade a compra de tubos, motores, compressores, válvulas e NUNCA PARA VENDER REFINARIAS, que é um ativo central, O CORAÇÃO DA PETROBRAS, sua maior fonte de capital de giro.  

Como é possível vender MEGA ATIVOS, de bilhões de dólares, sem leilão? A DIREÇÃO DA PETROBRAS ESCOLHE PARA QUEM VENDER E A QUE PREÇO, qual o critério? Da cabeça do gestor, não precisa explicar.

Em uma escala de valores que atinge bilhões de dólares de capital investido, o padrão internacional seguido pelo Banco Mundial, Banco Interamericano, governos de países centrais, OCDE, exige a transparência do ” “BID”, do único modelo que mesmo imperfeito garante transparência. O LEILÃO, aquilo que se faz nas bolsas do mundo quando se muda capital de mãos, compra quem dá mais. 

O método de escolha secreta de compradores não garante nenhuma transparência e é obviamente sujeito a qualquer tipo de negociação. O Estado brasileiro ainda tem o controle da PETROBRAS embora esteja se desfazendo de mais e mais ações da empresa. Hoje [o Brasil] tem 42,62% do capital e investidores estrangeiros tem 38,36%, o caminho de perda do controle está sendo trilhado com determinação e entusiasmo pelos neoliberais de clube de golfe. Uma das vinte maiores petroleiras do mundo tratada como se fosse um boutique de cosméticos, dirigida com desdém, desprezo, leviandade, como se não fosse parte da história moderna do Brasil.

https://www.investidorpetrobras.com.br/pt/visao-geral/composicao-acionaria

A ERA DAS ESTATAIS DE PETRÓLEO

Até a Segunda Guerra, o petróleo no mundo era dominado pelas “Sete Irmãs”, expressão do livro de Anthony Sampson sobre quatro empresas americanas, uma britânica, a Anglo Persian, depois Anglo Iranian, depois British Petroleum, uma anglo-holandesa, a Royal Dutch Shell e uma francesa, a Cia.Française des Petroles, depois TOTAL. 

Elas [ as empresas] detinham as reservas, os navios, as refinarias e a distribuição. Após o fim da Segunda Guerra nasceram as estatais do petróleo. Antecedidas pela PEMEX mexicana, que é de 1938, depois vieram a PETROBRAS, a Iraq Petroleum, a National Iranian Oil Co. (NIOC), a ENI italiana, muito depois a SONATRACH da Argélia e a SONANGOL de Angola. A ARAMCO que era 100% americana, capitaneada pela Standard Oil Co. of California (CHEVRON), foi estatizada, depois. Em função do petróleo no Mar do Norte nasceu a STATOIL norueguesa. Com a abertura da China de Mao nasceram as quatro grandes estatais chinesas, capitaneadas pela SINOPEC. Ao todo hoje são 13 estatais entre as 20 maiores do mundo. 

No mundo árabe todo o petróleo foi estatizado com a Kuwait Oil Co. e as estatais do QATAR e EMIRADOS. A criação da OPEP por iniciativa da Venezuela, nos anos 60, reforçou o papel das estatais QUE HOJE DOMINAM COMPLETAMENTE as reservas mundiais de petróleo (1,1 trilhão de barris), detendo 91% das reservas. Entrando depois fortemente no refino, a SAUDI ARAMCO está expandindo sua capacidade de refino para chegar a 6 milhões de barris dia. A PEMEX está construindo uma mega refinaria em Las Bocas, no Estado de Tabasco, para triplicar sua capacidade de refino. 

Nenhuma estatal de petróleo ESTÁ SAINDO DO REFINO, estão aumentando sua capacidade de refino PARA AGREGAR VALOR AO PETRÓLEO CRU, exatamente o contrário do que os “gênios” da PETROBRAS estão fazendo. AS ESTATAIS SÃO A TENDÊNCIA DE CONTROLE DO PETRÓLEO DO MUNDO e estão aumentando fortemente sua participação no refino, ninguém está vendendo refinarias e muito menos o controle da companhia como pretendem os neoliberais de aldeia do Leblon, Gávea e adjacências.

A QUESTÃO DA ADMINISTRAÇÃO DA PETROBRAS

Os gestores atuais da PETROBRAS não são especialistas em petróleo. São pessoas de mercado de capitais, em um ramo que exige EXPERIÊNCIA NO SETOR. EXXON, CHEVRON, SHELL, modelos neoliberais têm CEOs com décadas de experiência em petróleo.

Rex Tillerson, CEO da EXOON, 37 anos de empresa até ser indicado para Secretário de Estado de Trump. Ben van Beurden da ROYAL DUTCH SHELL, 37 anos na companhia. Bob Dudley da BP, 40 anos na companhia. Michael Wurth da CHEVRON, 37 anos na companhia. TODOS ENGENHEIROS DE PETRÓLEO, gente especializada em um setor altamente especializado que a PETROBRAS tem as centenas, como o engenheiro Guilherme Estrella, descobridor do pré-sal.   

O clima político produzido pela Lava Jato criou as condições para os governos Temer e Bolsonaro colocarem na PETROBRAS “outsiders”, gente QUE SÓ CONHECE PETRÓLEO EM POSTO DE GASOLINA, amadores não especializados em nada, o que é uma temeridade para gerir uma das 20 maiores empresas de petróleo do mundo.

Como esses curiosos não tem como conduzir grandes projetos de CRESCIMENTO DA EMPRESA – como o CEO da BP, que conduz 20 grandes projetos simultâneos – esses amadores se concentram em uma só coisa, desde o incompetente Pedro Parente: VENDER ATIVOS E REAJUSTAR PREÇOS, só isso. Esse é o único projeto do atual CEO da PETROBRAS, que é economista sem nenhuma experiência em petróleo, formado na catedral do neoliberalismo jurássico, a Universidade de Chicago.

A QUESTÃO DO PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS

Qual a vantagem de um país ter uma estatal de petróleo, QUE PRODUZ praticamente todo o petróleo que o País consome, se na bomba o preço do combustível é cobrado pelo PREÇO INTERNACIONAL EM DÓLAR? Não em lógica. 

A PETROBRAS foi criada em 1953 para dar ao Brasil AUTO SUFICIÊNCIA em combustíveis. Então, se temos no Brasil produção e refino, por que na bomba se cobra o preço como se todo o petróleo fosse importado – a PREÇOS DO MERCADO SPOT que não é o preço de referência para 95% do mercado mundial? 

O mercado dos grandes países compra petróleo por contratos de longo prazo e não pelo preço especulativo de bolsa, onde 90% dos contratos são de derivativos, sem transferência física de petróleo. Esse preço NÃO é o que deve balizar o preço na bomba para um país produtor auto suficiente.

Os preços de petróleo em países produtores NÃO são cotados a preços internacionais reajustadas pela cotação do dólar. PARA QUE ENTÃO TEMOS O PRÉ SAL? Aí vão dizer que importamos gasolina e diesel porque nossas refinarias não estão refinando, estão ociosas, mas então porque não é prioridade usar TODA A CAPACIDADE DAS REFINARIAS? Se falta reforma e manutenção, essa seria uma prioridade da gestão da PETROBRAS, mas como eles não entendem nada de petróleo, preferem importar, é mais fácil, cômodo e dá menos trabalho. Depois cobra-se do consumidor.

A PRIMEIRA ARMADILHA NA ERA FHC

No governo FHC a turma de “economistas de mercado” que ele juntou para montar o Plano Real já tinha a intenção de privatizar a PETROBRAS, mas não havia naquela época condições políticas de privatizar a grande estatal. 

FHC indicou para presidir a PETROBRAS o diretor no Brasil do mega banco americano de negócios MORGAN STANLEY, Francisco Gros. Doido para privatizar, tentou-se inclusive mudar o nome para PETROBRAX. Como não foi possível seguiram um roteiro preparatório, LISTARAM AS AÇÕES NA BOLSA DE NOVA YORK e venderam aproximadamente 40% das ações no mercado internacional. Com isso colocaram a PETROBRAS  sob jurisdição americana, um alçapão em que NENHUMA OUTRA ESTATAL PETROLEIRA CAIU. 

A partir desse estupidez, que não trouxe nenhum benefício para a PETROBRAS porque NÃO VEIO CAPITAL NOVO, apenas venderam ações velhas da União. A PETROBRAS passou a ser dirigida como empresa do mercado financeiro e não como EMPRESA ESTRATÉGICA do Brasil. O governo FHC financeirizou a PETROBRAS e a tornou refém do mercado financeiro internacional. Tudo passou a ser feito em função dos acionistas estrangeiros e não da população brasileira.

A SEGUNDA ARMADILHA : LAVA JATO

A cruzada moralista desencadeada em 2014 se encarregou em desfechar a pá de cal na PETROBRAS. Essa foi demonizada, conspurcada como sendo a empresa mais corrupta do planeta, ela chegaria em último lugar em competição nesse campo com as russas, chinesas, africanas e árabes. 

Com isso, a PETROBRAS – que era a maior compradora da indústria brasileira de bens de capital, carro chefe e locomotiva da indústria brasileira – passou a comprar TUDO NO EXTERIOR. Os neoliberais têm horror a expressão “conteúdo nacional”, conceito que define a preferência pela compra no País de equipamentos, sondas, navios aqui e gerando milhares de empregos, como FAZEM TODOS OS PAÍSES DO MUNDO, a começar pelos EUA.

Grandes empresas europeias que fornecem para o setor de petróleo, como SCHLUMBERGER francesa e ROLLS ROYCE britânica, a primeira em pesquisa

geodésica de reservas e a segunda em turbinas para plataformas, foram forçadas a mudar suas sedes para Houston, no Texas, para fornecer para as petroleiras americanas, é o BUY AMERICAN ACT. No Brasil proteger a indústria nacional passou a ser pecado, segundo a Lava Jato e a Miriam Leitão.

Com a demonização da PETROBRAS pela cruzada moralista foi fácil aos neoliberais de terceiro mundo, com Pedro Parente à frente, assumir o controle político da PETROBRAS, impondo BARBARIDADES EM POLÍTICAS DE PREÇO e trabalhando 24 horas por dia para vender os melhores ativos da empresa, começando pela BR Distribuidora. O Pré-Sal retalhado e vendido a qualquer um e agora as refinarias, por último vai ficar o edifício sede na Av. Chile e a marca LUBRAX.

OS ELEITOS PARA AS REFINARIAS

A PETROBRAS não vai vender só as refinarias, ELA VAI VENDER O MERCADO NA REGIÃO DAS REFINARIAS, mas o mercado vai de graça, cortesia.

No SUL, a REFAP e a  REPAR, vão para a Ultrapar e a Raizen, leia-se Shell, que também deve ficar com a Refinaria de Pernambuco. A Refinaria Landulfo Alves, na Bahia, deve ir para a SINOPEC. Curioso, o Brasil privatiza para uma estatal chinesa. Há outros rolos em vista, com a espanhola CEPSA, que é controlada pelo  fundo estatal de Abu Dhabi, Mubadala e que pode se associar aos chineses da Sinopec. 

Tudo está sendo processado em segredo, sem conhecimento do Congresso, do TCU, do MPF. Os neoliberais de happy hour da PETROBRAS escolhem a dedo o comprador e quanto ele vai pagar, caixa pretíssima.

As vendas devem se processar logo no início de 2020, não há notícia pública sobre os EMPREGADOS das refinarias. Pela lógica desse tipo de negócio, devem ser rapidamente dispensados e trocados por mão de obra terceirizada, para redução de custos, é o modelo clássico das privatizações.

O desmonte, destruição e morte da PETROBRAS deve dar material para um belo livro de terror. Desde a escolha de um falso gênio, incapaz de prever uma mega greve de caminhoneiros que reduziu o PIB do Brasil até a escolha de um grupo que está lá para retalhar e vender em pedaços a empresa.

Caso único, no seleto grupo das grandes estatais de petróleo que hoje dominam o mercado mundial. São elas que regulam a produção e o preço final do óleo em todo o mundo. A PETROBRAS faz parte desse seleto grupo e prefere sair pela porta dos fundos, pagando um pedágio no Departamento de Justiça dos EUA e aceitando ser por ele monitorada com dois fiscais dentro da empresa, situação que nenhuma das outras estatais de petróleo jamais aceitaria. Os vira latas brasileiros não só aceitaram como acham bonito e A VENDA DAS REFINARIAS FAZ PARTE DO MESMO CONJUNTO DE HORRORES.

Registre-se, sob o ponto de vista histórico, que os EUA tem como política de Estado não aceitar de bom grado a existência de estatais de petróleo em qualquer lugar do planeta e tudo farão para que esse tipo de empresa deixe de existir, é um direito deles pensar assim. 

A primeira estatal de petróleo, a PEMEX, foi constituída em 1938 nacionalizando ativos e reservas de empresas americanas, os EUA não esqueceram disso.

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