21 de maio de 2026

A presença invisível da marinharia brasileira no comércio colonial luso-brasileiro, por Luiz Melchert

Por trás da fachada oficial, existia uma marinharia invisível, nascida nos estaleiros do Recôncavo Baiano, do Rio de Janeiro e de Pernambuco
Rob Gonsalves

▸No comércio colonial luso-brasileiro, a presença da marinharia brasileira era invisível, operando clandestinamente em confronto com a Coroa.

▸A engenharia do triângulo atlântico viabilizava o comércio triangular entre Brasil, África e Europa, com participação de brasileiros, africanos e estrangeiros.

▸A asfixia da construção naval brasileira ao longo dos séculos resultou em dependência aberta no século XVIII, prejudicando a autonomia e desenvolvimento do Brasil.

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A presença invisível da marinharia brasileira no comércio colonial luso-brasileiro

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Durante muito tempo, a historiografia repetiu que o Brasil colônia não possuía marinha própria, que os grandes navios pertenciam à metrópole e que a navegação atlântica era monopolizada por Portugal e, mais tarde, pela Inglaterra. Essa visão, no entanto, desmorona diante das evidências econômicas e logísticas que emergem das rotas do açúcar, do ouro e da cachaça — produtos que sustentaram o império ultramarino português e, simultaneamente, alimentaram uma rede clandestina de comércio operada por navios e marinheiros brasileiros.

Por trás da fachada oficial do comércio metropolitano, existia uma marinharia invisível, nascida nos estaleiros do Recôncavo Baiano, do Rio de Janeiro e de Pernambuco, capaz de cruzar o Atlântico e operar de forma independente — muitas vezes em confronto direto com os interesses da Coroa. Essa marinharia foi o embrião técnico e humano da futura Marinha Imperial Brasileira.

DO PADRE ETERNO À FROTA CLANDESTINA
O ponto de partida simbólico dessa história é o galeão Padre Eterno, construído no Rio de Janeiro em 1663 com madeira e mão de obra locais. Com mais de 2 000 toneladas e 150 canhões, foi o maior navio de guerra de seu tempo — uma façanha que escandalizou Lisboa. O sucesso do Padre Eterno provou que a colônia tinha recursos e conhecimento técnico suficientes para sustentar uma indústria naval própria.

Mas o que poderia ter sido o início de uma era de autonomia transformou-se em motivo de restrição. A Coroa temia que o desenvolvimento de estaleiros coloniais fortalecesse as elites locais. Impôs licenças, proibiu a construção de grandes embarcações e obrigou o Brasil a depender de navios europeus, comprados a peso de ouro na Inglaterra e na Holanda. Assim começou a asfixia da construção naval brasileira, que se tornaria cada vez mais severa ao longo do século seguinte.

A ENGENHARIA DO TRIÂNGULO ATLÂNTICO
Apesar das proibições, o comércio triangular entre Brasil, África e Europa funcionava com precisão quase científica. Do Brasil partiam açúcar, ouro e cachaça; da África vinham escravizados; e da Europa, ferragens, tecidos, armas e seguros marítimos.

Essa engrenagem exigia uma logística complexa, combinando ventos, correntes e épocas de safra. As cargas partiam em comboios armados, fiscalizados na aparência, mas permeados por arranjos informais. No papel, tudo era português. Na prática, boa parte dos navios e tripulações era mista — com participação de brasileiros, africanos e estrangeiros — e parte do capital que sustentava o comércio vinha de Londres, Amsterdã e Antuérpia.

DA GUERRA DA CACHAÇA À TOLERÂNCIA DO CONTRABANDO
A Guerra da Cachaça (1647–1654) marca o primeiro choque aberto entre a economia colonial e o controle metropolitano. A proibição de destilar e exportar aguardente visava forçar os colonos a comprar vinhos e bagaceiras portuguesas, usados como moeda no tráfico africano.

A revolta só foi possível porque o Brasil possuía, já então, uma frota autônoma capaz de navegar entre o Rio, Recife e Luanda. Eram bergantins, sumacas e patachos construídos com madeiras tropicais, mais resistentes que as europeias. Para que houvesse um comércio suficientemente intenso a ponto de gerar uma insurreição, era indispensável a existência de embarcações transatlânticas produzidas localmente.

Lisboa tinha plena consciência desse contrabando, mas, como lembrou o historiador José Jobson Arruda, preferia perder parte pelo contrabando a perder a colônia inteira. Faltavam-lhe recursos para vigiar todo o Atlântico, e o comércio clandestino, embora ilegal, mantinha girando a engrenagem econômica do império. O que começou como brecha tornou-se mecanismo funcional de sobrevivência do sistema colonial.

O AGRAVAMENTO NO SÉCULO XVIII
A tolerância do século XVII converteu-se, no século XVIII, em dependência aberta. O ouro das Minas Gerais trouxe abundância momentânea, mas canalizou-se quase todo para Lisboa — e, de lá, para Londres.

D. João V, em vez de investir na industrialização naval do Brasil, optou por comprar navios estrangeiros e embelezar conventos. O Tratado de Methuen (1703) institucionalizou a dependência: Portugal trocava o vinho por manufaturas inglesas e entregava o controle dos seguros, dos fretes e até das fundições de artilharia.

O Marquês de Pombal, meio século depois, tentou reagir, mas sua modernização era inspirada no modelo britânico e manteve o freio sobre a indústria colonial. As companhias monopolistas que criou (Grão-Pará, Maranhão, Pernambuco e Paraíba) foram tentativas de racionalizar o sistema, não de emancipá-lo. Ao mesmo tempo em que reorganizava a administração, Pombal reforçava a interdição dos grandes estaleiros coloniais — culminando o processo de asfixia iniciado ainda na Guerra da Cachaça.

O OURO, OS SEGUROS E O FRETE ESTRANGEIRO
Os fluxos oficiais e clandestinos partilhavam a mesma base financeira. O ouro das Minas pagava o açúcar, a cachaça e os escravos, mas também os seguros marítimos e os fretes cobrados em Londres e Lisboa.

Cerca de 60% do ouro chegado à metrópole era reexportado para saldar déficits comerciais e serviços estrangeiros. O que restava circulava no Brasil por meio do contrabando de retorno — uma rede de crédito e de seguros “por fora”, operada por comerciantes locais, com cobertura informal de agentes ingleses.

Lisboa ainda aparecia como capital do império, mas o eixo real de decisão deslocara-se para o Atlântico Sul — e, em última instância, para o mercado financeiro de Londres.

O IMPÉRIO QUE O BRASIL PODERIA TER SIDO
Se D. João V ou Pombal tivessem investido na criação de arsenais, fundições e cordoarias no Brasil, o império luso-brasileiro poderia ter se reinventado. O eixo Lisboa–Rio tornar-se-ia bicêntrico e autossuficiente, unindo riqueza mineral, madeira abundante e experiência náutica.

Em vez disso, a dependência consolidou-se: Portugal manteve os territórios, mas perdeu o domínio dos mares — o instrumento de sua grandeza. E o Brasil, embora vigiado e limitado, herdou da clandestinidade uma competência marítima que seria decisiva após a independência.

O LEGADO DA MARINHARIA INVISÍVEL
Os estaleiros ocultos e as frotas não registradas formaram gerações de carpinteiros, calafates e pilotos que, após 1822, comporiam a base técnica da Marinha Imperial Brasileira.

A marinharia “invisível” não aparece nos registros da Fazenda Real, mas aparece nas práticas, nas rotas e nas revoltas. Ela foi o corpo vivo da experiência colonial, a prova de que a colônia aprendera a navegar por conta própria.

O mapa do comércio luso-brasileiro mostra que, muito antes da independência política, o Brasil já possuía uma independência material em construção — nas docas, nos estaleiros e nas rotas de contrabando. Foi essa experiência, adquirida às escondidas, que ensinou o país a manter-se à tona num oceano de dependências.

(Mapa: “Circuito Atlântico Luso-Brasileiro (sécs. XVII–XVIII)”, elaborado para esta publicação.)

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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