A primeira presa política, por Walnice Nogueira Galvão

Walnice Nogueira Galvão escreve sobre mulheres notáveis, pela firmeza, pela bravura, pela intransigência

Patricia Galvão - Pagu

A primeira presa política

por Walnice Nogueira Galvão

Embora digam, não é a Pagu de tantos méritos a primeira presa política no Brasil – nem de longe. Caminhando cada vez mais para trás, a prioridade pode caber a várias outras.

Pagu, ou Patrícia Galvão, já representa uma nova extração de presa política, aquela que é militante político-partidária, anarquista, comunista, socialista. Passou por várias prisões ao longo da vida, tendo a última durado cinco anos, de 1935 a 1940.

A data de 1935 assinala outras militantes. Em represália ao Levante Comunista, a repressão generalizada atingiu mulheres que se tornariam célebres, algumas delas ocupando a não menos célebre Cela 4 da Casa de Detenção, no Rio de Janeiro. Nela conviveram Nise, Eneida, Maria, Olga, entre outras.

A Dra. Nise da Silveira revolucionaria o tratamento psiquiátrico, praticando a terapia através da arte, criando o Museu do Inconsciente, patrocinando entre outros Artur Bispo do Rosário, artista extraordinário.

Eneida, jornalista paraense politicamente ativa no Rio, é autora de um livro clássico, uma história do carnaval carioca baseada em pesquisa de arquivo, coisa inédita até então. Seria a primeira madrinha da Banda de Ipanema.

Maria Werneck, advogada e sufragista, foi militante a vida toda, tendo participado de diferentes movimentos em defesa de trabalhadores e de mulheres. Hoje seu nome figura num dos Cieps criados por Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro, em justa homenagem.

Olga Benario é protagonista de uma das piores ignomínias da história do Brasil: judia, comunista e grávida, mulher de Luis Carlos Prestes, foi entregue a Hitler por Getúlio Vargas e Filinto Müller, cientes de que a aguardava o extermínio na câmara de gás.

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Uma plêiade de mulheres notáveis, pela firmeza, pela bravura, pela intransigência. Graciliano Ramos alude a este incomparável naipe em Memórias do cárcere.

Avançando no tempo, teremos as inúmeras sequestradas, presas, torturadas e mortas pela ditadura instaurada em 1964. Mas se recuarmos encontraremos “mandonas”, como Josefa Carneiro de Mendonça, em Minas Gerais. A masmorra em que a atiraram reconhecia a liderança por ela desempenhada na Revolução Liberal de 1842, que convulsionou o oeste do Estado. Ana Luisa Escorel acaba de publicar um romance histórico-biográfico por ela protagonizado.

Quem vai ao Ceará logo fica sabendo de mais uma, Bárbara de Alencar. Salientou-se no Crato, onde foi um dos chefes da Revolução de 1817, precursora da Confederação do Equador de 1924, movimentos de latifundiários que coligavam Pernambuco, Ceará e Paraíba. Detida no Cariri, foi transportada para Fortaleza, dali para Pernambuco e Bahia, sendo libertada apenas em 1820. Participaram com ela seus três filhos: Tristão, que seria o primeiro presidente da República na Confederação do Equador, Carlos José e José Martiniano, este o padre pai de José de Alencar, que proclamou a Independência e a República do alto do púlpito da Matriz do Crato.

Foi classificada oficialmente como uma das “Infames Cabeças” da rebelião. Em Fortaleza, onde tem estátua, é nome de rua e do Centro Administrativo do Estado. Vê-se ali o calabouço subterrâneo em que ficou, com placa celebrando-a como a primeira presa política do Brasil.

Ainda antes registra-se outra mandona, Maria da Cruz,  no bojo das revoltas que ficaram conhecidas como “os motins do sertão” (1735-6) no norte de Minas, provocados pela cobrança do imposto sobre o ouro. Já os chamaram de “Inconfidência Sanfranciscana”, antecipando a Inconfidência Mineira. Maria da Cruz foi posta a ferros e levada à Bahia, sendo condenada a degredo na África. Mas depois seria reintegrada em suas terras, nelas morrendo em 1760.  Em Minas há a cidade “Pedras de Maria da Cruz”, que foi nome de sua fazenda; quase nada saberíamos dela não fossem os trabalhos de Diogo de Vasconcelos.

Quando Guimarães Rosa escreve Grande sertão: veredas, ela ainda é invocada perto de duzentos anos depois com veneração, sendo seu nome sinal de boa linhagem, penhor de lealdade. Diz-se ali de um dos chefes: “Ele é bisneto de Pedro Cardoso, trasneto de Maria da Cruz!”

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Talvez por enquanto caiba a ela a prioridade.

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*Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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1 comentário

  1. além da guerreira baiana Maria Quitéria de Jesus,
    lembreI das personagens do Filme TORRE DAS dONZELAS,
    PRESÍDIO TIRADENTES, ONDE APARECE NOSSA
    ETERNA PRESIDENTE DILMA ROUSSEFCOM
    AS OUTRAS CORAJOSAS MULHERES qUE LUTARAM tANTO pela democracia…..
    NO FILME BACURAU NÃO HÁ COMO NÃO SE
    EMOCIONAR QUANDO O NOME DE
    MARIA LETICIA
    É CITADO ENTRE AS VÍTIMAS….
    tem um filme da pagu, Eternamente Pagu – Norma Bengell (1987),
    que fala tb da história de oswald de andrade e do
    modernuismo…imperdível….com carla cvamuratti,
    direção de norma benguel, tem no you tube
    o filme sobre nise da silveira tem no netflix e é
    protagonizado pela grande glória pires….
    é a arte como solução, como revelação do humano,
    em substituição ao anacronico e cruel choque elétrico….
    é de chorar tb….
    parece distante do real mas essas mulheres
    comprovam que vale a pena viver por algo
    que dignifique o ser humano.

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