A Rainha do Crime
por Walnice Nogueira Galvão
A 15 deste mês de setembro transcorreu o aniversário de Agatha Christie, que viveu 86 anos e escreveu copiosamente. São criações dela os detetives Hercule Poirot, o pernóstico belga meticuloso até à exasperação, e Miss Marple, cuja visão do mundo é limitada pelos antolhos da aldeia em que vive.
Esse é o filão que a faria rica e popular. Produziu mais de 100 volumes, totalizando dois bilhões de exemplares vendidos ao redor do globo. Em seu país, só Shakespeare vende mais que ela, e no resto do mundo ela é campeã das traduções de língua inglesa.
Foi alvo de felizes adaptações para o cinema, às vezes luxuosas, a exemplo de Assassinato no Expresso Oriente dirigido por Sidney Lumet há tempos. tendo no elenco apenas Ingrid Bergman, Albert Finney, Lauren Bacall, Vanessa Redgrave, Sean Connery e muitos mais. Meio século mais tarde Kenneth Branagh comandaria outra versão, com bons atores como Johnny Depp, Judi Dench, Penélope Cruz, Michelle Pfeiffer, enquanto reservava para si próprio o prazer de encarnar o insuportável Hercule Poirot.
A sobrevida da obra é peculiar e às vezes até extravagante. Lá está sua peça de teatro A ratoeira há mais de 50 anos nos palcos de Londres. A França divulga agora uma série de filmes chamada Les petits meurtres d´Agatha Christie, em que pesam o retrô e o humor. A BBC, com base na autobiografia que ela fez o favor de escrever e outras biografias, inicia uma sequência de filmes mais ambiciosos, mas que curiosamente têm Agatha como protagonista e detetive! Garanto que por essa ela não esperava.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
Entre eles estão Agatha e os assassinatos da meia-noite e Agatha e a maldição de Ishtar. Neste último, Agatha investiga crimes no Iraque, aonde fora recuperar-se de um casamento malsucedido, ali conhecendo um arqueólogo que será seu segundo marido. O enlace foi um sucesso, apesar da idade do cônjuge, que era 14 anos mais novo (e lindo! pelo menos no filme). E só a morte dela os separou, após meio século de vida em comum. Todos esses são dados biográficos.
Experimentou a mão – e que mão abençoada – em todos os quebra-cabeças que o gênero policial explora há tempos, desde que Edgar Allan Poe o inventou. Lá estão o quarto fechado; o assassino coletivo ou seu contrário a vítima coletiva; a batalha nos tribunais; a arma exótica que escapa à taxonomia; o envenenamento por peçonha anônima; a ilha deserta em que todos vão morrendo um a um; os quiproquós de identidades e de pistas… Malabarista dos indícios e dos vestígios, ela opera a mágica do suspense, na filigrana de um entrecho caprichosamente urdido. Alguns são verdadeiras proezas da arte.
Quase sempre essas charadas se passam nas camadas superiores da sociedade inglesa , em lento declínio que a Segunda Guerra precipitou, e seus satélites, como os artistas e os profissionais liberais. Não são isentas de esnobismo, embora ela própria, que o encampa e aprova, sinta-se às vezes no direito a lançar farpas de ironia. Mostra-se à vontade no seio da pequena nobreza rural, ou então na casa paroquial anexa à igreja provinciana de culto anglicano. Não falta um toque de nostalgia, entre suspiros passadistas. Mas seu leitor é indulgente, tratando-a como a uma tia velha cujos preconceitos não partilha, preferindo rir deles e dela. Ainda mais quando vêm envoltos em observações ferinas e penetrantes, como é o caso.
Como se vê,são narrativas que passam longe da convenção do romance policial da atualidade, sanguinolento, de vísceras à mostra, ávido de mutilações e fluidos corporais. Esse novo romance expõe taras dos poderosos, acusando a criminalidade sádica de grandes burgueses que passam impunes, blindados pelo privilégio. Traçam um panorama da iniquidade social, com tintas carregadas de denúncia. Vejam-se os escandinavos dos últimos anos, tão instigantes e tão bons escritores.
A elegância dos enigmas de Agatha soa em outro diapasão. São convenções distintas, e se o decoro de Agatha, sempre discreta e reservada, parece obsoleto, daí também decorre grande parte de seu encanto.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
Leia também:
Sete + sete maravilhas da literatura, por Walnice Nogueira Galvão
Deixe um comentário