21 de maio de 2026

A Reparação Não Será Financiada, por Carolina Morais

Resolução da ONU declara o tráfico transatlântico de africanos escravizados como "o crime mais grave contra a humanidade"
Rugendas

ONU aprova resolução que classifica tráfico negreiro como crime contra humanidade; 52 países, incluindo UE, se abstêm.
EUA, Israel e Argentina votam contra reparações, alegando ausência de base legal para erros históricos.
Gana propõe reparações concretas; potências ocidentais rejeitam por impacto econômico e preservação de privilégios.

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A Reparação Não Será Financiada

por Carolina Morais

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O que significa o silêncio da Europa sobre o tráfico negreiro na ONU?

Ontem, 25 de março, Dia Internacional de Memória pelas Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravizados, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica. A resolução declara o tráfico transatlântico de africanos escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade” e convoca os estados-membros a discutir justiça reparatória. A votação foi de 123 a favor, 3 contra — Estados Unidos, Israel e Argentina — e 52 abstenções, incluindo o Reino Unido e todos os 27 membros da União Europeia.

O placar, no entanto, conta uma história mais reveladora do que o resultado. Na linguagem diplomática as abstenções não são neutras, são uma recusa com luvas de veludo. Os Estados Unidos declararam que “não reconhecem nenhum direito legal a reparações por erros históricos que não eram ilegais sob o direito internacional no momento em que ocorreram” — argumento que, traduzido sem eufemismos, significa: fizemos o que a lei nos permitia, portanto não devemos nada. A União Europeia, por sua vez, expressou preocupação com o que chamou de “interpretação desequilibrada dos eventos históricos”, como se séculos de captura, desumanização e exploração sistemática de um continente pudessem ser matéria de debate equilibrado. O que está em jogo é econômico.

O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, em Chutando a Escada, demonstrou como as nações hoje ricas construíram sua prosperidade por meio de protecionismos, subsídios e políticas industriais que agora negam aos países em desenvolvimento. Uma vez no alto da escada, ela é chutada para baixo sob o argumento do livre mercado e da meritocracia global. Mas e se pudermos acrescentar que a escravidão foi a versão mais brutal e literal desse mesmo mecanismo: a África não ficou “para trás” por acaso ou por incapacidade. Foi sistematicamente esvaziada de sua força mais vital — humana e intelectual. Como apontou a presidente da Assembleia Geral, os países de onde os africanos foram arrancados sofreram um esvaziamento profundo, tendo perdido gerações inteiras que poderiam tê-los ajudado a prosperar.

Estima-se que entre 12 e 13 milhões de africanos foram sequestrados e transportados ao longo de quatro séculos. Não eram apenas corpos: eram agricultores, artesãos, matemáticos, sacerdotes, líderes, inteligência coletiva subtraída a golpes de corrente maritima. O que foi roubado não foi apenas trabalho; foi o futuro de um continente. A escravidão não atrasou a África, ela a destituiu deliberadamente para acelerar o enriquecimento de outros.

E qual seria o custo concreto da reparação? O ministro das Relações Exteriores de Gana apontou caminhos tangíveis: a devolução de todos os artefatos saqueados às suas nações de origem, o reconhecimento formal e o pedido de desculpas público dos perpetradores, o combate ao racismo estrutural e a compensação financeira aos afetados. São propostas que os países escravagistas entendem perfeitamente bem  e é exatamente por isso que as recusam. Devolver o acervo do British Museum, do Louvre e dos grandes museus europeus implicaria admitir que suas coleções são espólios de guerra. Compensar as diásporas implicaria redistribuir riqueza que, na sua origem, foi acumulada sem nenhuma remuneração. Reformar as estruturas financeiras globais — o FMI, o Banco Mundial, as regras da OMC — implicaria abrir mão de vantagens que sustentam o padrão de vida dos chamados paises Ontem, o G7 inteiro, a saber: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, votou contra ou se absteve na votação proposta por Ghana.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou a atenção para a necessidade de garantir que países africanos tenham propriedade real sobre seus recursos naturais e participação igualitária na arquitetura financeira global e no Conselho de Segurança da ONU. Essas são, notavelmente, as mesmas reformas que as potências ocidentais bloqueiam há décadas — na mesma ONU em que ontem se abstiveram de reconhecer o que fizeram.

A abstensão de 52 nações, muitas das quais construíram impérios sobre o trabalho não remunerado de africanos escravizados, não é uma posição filosófica sobre a hierarquia dos crimes. É uma posição econômica. É a escada sendo chutada mais uma vez — desta vez não com navios negreiros, mas com o jargão jurídico da retroatividade e a retórica da equidade entre atrocidades.

Reparação não é pedido de desculpa. Não é cerimônia, não é placa, não é minuto de silêncio. Reparação é a construção de caminhos reais: escolas, hospitais, soberania econômica, acesso ao capital, acesso a terra, devolução do patrimônio cultural, reforma das regras do comércio internacional que ainda hoje penalizam as economias africanas e das diásporas. É reconhecer que a pobreza não é natural: ela foi fabricada. E que o desenvolvimento negado ontem é a desigualdade vivida hoje.

Enquanto as nações que lucraram com o maior crime contra a humanidade se abstêm de assumir qualquer responsabilidade concreta, a escada segue no chão. Com seu silêncio ontem, tais nações, principalmente europeias, disseram em alta voz: não financiaremos nenhuma reparação daquilo que nós causamos. E os descendentes daqueles que foram desumanizados para construir o mundo moderno continuam sendo cobrados para provar que merecem subir.

Carolina Morais – Historiadora e coordenadora do Heritage Voyage of Return (HVR).

Brasilia, 26 de março de 2026

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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