10 de junho de 2026

A tragicomédia da prisão preventiva de Jair Bolsonaro, por Fernando Castilho

Para não me perder nesse labirinto, vamos à cronologia, pois sem ela, ninguém entende essa ópera bufa.

1. Flávio convoca vigília religiosa em frente ao condomínio onde Bolsonaro cumpria prisão domiciliar. Ele tenta romper tornozeleira com solda, sendo flagrado pela Polícia Militar.

2. PF acorda Moraes e determina prisão preventiva de Bolsonaro. Defesa alega alucinação devido a medicamentos. STF mantém prisão. PL reativa projeto de anistia.

3. Bolsonaro recusa alimentação da PF, STF mantém prisão e defesas não apresentam novos embargos. Possível plano de fuga fracassa. Alerta sobre riscos de segurança reforçada.

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A tragicomédia da prisão preventiva de Jair Bolsonaro

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por Fernando Castilho

O caso da prisão preventiva de Jair Bolsonaro é tão cheio de camadas que mais parece uma cebola. Só que com caroço. Para não me perder nesse labirinto, vamos à cronologia, pois sem ela, ninguém entende essa ópera bufa.

SEXTA-FEIRA, 21

Flávio Bolsonaro grava um vídeo convocando apoiadores para uma “vigília religiosa” em frente ao condomínio de luxo onde o pai cumpria prisão domiciliar. Vigília religiosa, claro. Porque nada combina mais com oração do que um ex-presidente tentando serrar uma tornozeleira com ferro de solda.

O discurso de Flávio vinha recheado de códigos: “busca ao Senhor dos Exércitos” (tradução simultânea: apoio dos militares golpistas) e “luta para resgatar a democracia” (tradução simultânea: resgatar o papai). Era praticamente um tutorial de conspiração em vídeo.

ENQUANTO ISSO…

Na mesma tarde, Nikolas Ferreira visita Bolsonaro. Conversa vai, conversa vem, e Nikolas usa o celular, proibido durante visitas.

Não se sabe se Bolsonaro já estava entretido com seu novo hobby: romper a tornozeleira. Tentou de tudo, até apelar para um aparelho de solda. Sim, solda, dentro da casa alugada pelo PL às custas do contribuinte. Difícil acreditar que tenha feito sozinho. Alguém teria ajudado? O processo durou horas, até que, às 0h08, a Polícia Militar recebeu o alerta: tornozeleira danificada.

Os agentes foram até lá, gravaram vídeo e perguntaram o que ele pretendia. Resposta: “curiosidade”. Quem nunca acordou de madrugada com vontade de brincar de eletricista, não é? Ele sabia que cortar a pulseira dispararia alerta, mas aparentemente achava que fritar o aparelho inteiro não daria nada. Gênio incompreendido.

Detalhe: ninguém perguntou como o aparelho de solda entrou na casa. A investigação certamente vai descobrir. Teria sido Nikolas o entregador e o soldador?

MADRUGADA DE SÁBADO PARA DOMINGO

A PF acorda Alexandre de Moraes: “Ministro, seu Jair está tentando fugir”. Moraes toma um copo d’água, liga para o PGR Paulo Gonet, recebe o aval e determina a prisão preventiva. Pela lei, só poderia ocorrer a partir das 6h. Enquanto isso, deixando a toga no cabide, de pijama, redige um documento de 17 páginas fundamentando a decisão.

No texto, determina prisão discreta, sem algemas. Nada de espetáculo. Só o suficiente para virar manchete. Lembrei da prisão de Lula.

SÁBADO, 22

Às 7h, a imprensa divulga. Bolsonaristas correm às redes: “Perseguição religiosa! Era só uma vigília de oração!”. As senhorinhas com Bíblia na mão piram. O detalhe da tornozeleira fritada foi convenientemente omitido.

Nos bastidores, aliados admitem: não há defesa possível. O vídeo é autoexplicativo e será usado por Lula em 2026. Até vai virar meme. A candidatura de Flávio, com sua genialidade estratégica, subiu no telhado.

DOMINGO, 23

Bolsonaro passa por exame de corpo de delito: nenhum problema de saúde. Até sorri. Durante a audiência de custódia, sua defesa alega que ele tentou romper a tornozeleira porque estava sob efeito de medicamentos que interagiram entre si. Resultado: alucinação. Ouvia vozes vindas de dentro da tornozeleira. Talvez diziam: “LULA 2026!”.

Fico me perguntando se, quando correu atrás de emas com uma caixinha de Cloroquina no Alvorada, também estava sob efeito de remédios.

SEGUNDA, 24

Bolsonaro recusa o almoço fornecido pela Polícia Federal. O que um amigo meu chamou de “PF da PF”: comida boa, mas sem a farofa para espalhar pelo chão da suíte.

A Primeira Turma do STF vota por unanimidade pela manutenção da prisão preventiva. A oposição se revolta, chama Alexandre de Moraes de ditador e fala em perseguição religiosa. Malafaia surta dentro da BMW.

O PL se reúne e decide reativar o projeto de anistia, enquanto o presidente da Câmara Hugo Motta rompe com Lindbergh Farias. As defesas de Bolsonaro e Ramagem não apresentam novos embargos. Ou seja: enquanto você lê este artigo, Alexandre de Moraes pode estar decretando trânsito em julgado e emitindo a ordem de prisão definitiva de seu Jair.

MAS QUAL ERA O PLANO MIRABOLANTE?

Reunir apoiadores na porta do condomínio, infiltrar gente da pesada, provocar tumulto e, no meio da confusão, retirar Bolsonaro rumo a alguma embaixada. A dos EUA não serviria: provavelmente o pedido de asilo já teria recebido um sonoro “não”. Quando houve a chance, ele não conseguiu fugir para lá.

Trump, ao ser informado da prisão, reagiu com sua expressão clássica: uma mistura de desdém e resignação, como quem diz “que pena… fazer o quê, né?”.

Sobravam opções mais exóticas: Argentina, Hungria, Arábia Saudita. O roteiro parecia escrito por roteirista de novela ruim.

Mas algo não se encaixa: o timing. Se era essa a ideia, por que não esperar a vigília do sábado para romper a tornozeleira? E por que não cortar a pulseira com uma tesoura em meio ao tumulto? Quando a PF reagisse ao alarme, ele já poderia estar dentro de uma embaixada.

O ALERTA

Se alguém dissesse que um apoiador estacionaria um caminhão-tanque carregado de combustível em frente ao Aeroporto de Brasília para explodir e matar dezenas de pessoas, você acreditaria? Pois é, isso aconteceu. Só não deu certo porque o tal “George Washington” errou a mão.

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro não é detalhe burocrático, nem capítulo qualquer da novela política brasileira. É alerta vermelho: essa turma já tentou explodir caminhão-tanque em aeroporto, invadir a sede da PF, dar golpe em plena Praça dos Três Poderes. E não há limite para quem acredita que democracia é apenas obstáculo inconveniente.

Se hoje o “curioso da solda” está atrás das grades, amanhã seus fiéis podem muito bem tentar transformar a sede da PF em palco de resgate cinematográfico. E não seria delírio imaginar apoio de organizações criminosas. Portanto, nada de negligenciar: segurança reforçada.

Desta vez, não houve “festa da Selma” para disfarçar. Ficará apenas o registro histórico de que o pior presidente pós-ditadura militar terminou onde sempre deveria ter estado: sob vigilância, cercado, e finalmente impedido de brincar de golpista com o destino do país.

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Fernando Castilho

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

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  1. José Jefferson Carvalho Barroso

    25 de novembro de 2025 9:54 am

    Excelente artigo, conciso, irreverente, que finaliza com a sobriedade e seriedade que o assunto requer.
    Obrigado GGN, pela qualidade de seus comentários, pessoas de um nível excepcional em comunicação de massa.

    1. Fernando Castilho

      25 de novembro de 2025 5:49 pm

      Muito obrigado pelo comentário carinhoso.

  2. Rui Ribeiro

    25 de novembro de 2025 10:21 am

    O $ujeito visitou o Bostonaro e usou celular durante a visita, o que é proibido, mas a culpa não é dele, é de quem o flagrou. Bananistão

    1. Fernando Castilho

      25 de novembro de 2025 5:50 pm

      Eles sempre colocam a culpa nos outros.

  3. Carlos

    25 de novembro de 2025 1:29 pm

    A gente continua gastando dinheiro com este infeliz. Recursos caros do STF, da Procuradoria, da PF, trabalhando dia e noite por culpa de um marginal que já deveria estar na penitenciária.
    E nem se pode dizer que como a famiglia levará a comida economizarem. É grana do nefasto PL, ou seja: é dinheiro nosso.

    1. Fernando Castilho

      25 de novembro de 2025 5:51 pm

      Com certeza. Concordo com você.

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