5 de junho de 2026

A transição energética e a elasticidade-preço do petróleo II, por Luiz Alberto Melchert

O petróleo, que já foi símbolo de modernidade, transformou-se na trava estrutural da evolução energética e monetária do mundo.
Reprodução

A aviação permanece dependente do combustível Jet A-1 devido a limitações físicas e operacionais que impedem substitutos viáveis.
O diesel terrestre tem substituição parcial pelo biodiesel, mas limites químicos e mecânicos mantêm a rigidez da demanda.
O bunker fuel naval, insubstituível por biocombustíveis, só poderá ser superado por reatores nucleares embarcados, alterando a demanda global.

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A transição energética e a elasticidade-preço do petróleo II

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Introdução

No capítulo anterior, analisamos os combustíveis leves e mostramos como a agricultura vem promovendo, silenciosamente, a substituição parcial do petróleo sem prejuízo à alimentação humana e sem expansão significativa da área plantada. Esse movimento, embora pouco perceptível, já produz um efeito estrutural: aumenta a elasticidade-preço da demanda por petróleo, corroendo a rigidez que sustentou sua centralidade econômica ao longo de décadas.

Nesta nova etapa, avançamos do leve para o pesado. O objetivo é examinar como essa mesma lógica de substituição encontra limites físicos, produtivos e logísticos à medida que se percorrem os diferentes segmentos do consumo energético: primeiro na aviação, depois no transporte terrestre pesado e na navegação. Cada um desses setores impõe restrições próprias, que determinam o ritmo e a profundidade da transição energética.

A dependência do  petróleo não é homogênea. Ela varia consoante a dificuldade de substituição. É  a agregação do consumo que preserva a baixa elasticidade-preço da demanda, fundamento material de sua relevância geopolítica.

Ao seguir essa progressão — da agricultura aos céus, das estradas aos oceanos — torna-se possível compreender por que a transição energética avança de modo desigual e por que seus efeitos transcendem o ambiental. Trata-se de um processo que reorganiza a logística global, redefine vantagens competitivas e, em última instância, ameaça a hegemonia monetária baseada no petróleo.

Combustíveis aeronáuticos

A aviação geral depende, até hoje, de um combustível altamente poluente: a gasolina aeronáutica, conhecida como avigas. Seu principal problema não é apenas o alto teor de hidrocarbonetos aromáticos, mas o fato de ainda conter aditivos à base de chumbo tetraetila, usados para garantir o efeito antidetonante necessário aos motores de ciclo Otto.

Em princípio, seria possível substituir o chumbo por etanol anidro, que exerce a mesma função. Essa solução, amplamente usada em motores automotivos, é inviável na aviação por um motivo físico elementar, mas incontornável: o ponto de congelamento do etanol é muito superior ao da gasolina. Em altitude, onde as temperaturas chegam facilmente muito abaixo de zero, ocorre dissociação da mistura, com separação de fases entre gasolina e etanol. Isso pode interromper o fluxo uniforme de combustível, causar falhas de combustão e, em última instância, levar à perda de potência ou parada do motor.

Por causa dessa limitação física, a avigas não pode adotar etanol como antidetonante, e continua como sempre foi, um combustível altamente poluente, tóxico e tecnologicamente ultrapassado, mas ainda indispensável para motores a pistão na aviação geral.

Além do obstáculo termodinâmico, subsiste um limite econômico severo. Motores aeronáuticos de ciclo Otto exigem manutenção intensiva, com revisões por volta de cinquenta horas e recondicionamento completo em torno de mil horas. A aviação geral não tolera esses custos. Por isso, o setor migrou para motores Diesel aeronáuticos a pistão e, sempre que possível, para motores à reação, que oferecem intervalos de manutenção muito mais longos e confiabilidade infinitamente maior.

Esses motores utilizam combustíveis pesados como o Jet A-1, cuja principal virtude não é energética, mas física: um ponto de congelamento extremamente baixo, em torno de –47°C, que garante estabilidade e segurança operacional em altitude. Essa é a propriedade fundamental que mantém a aviação dependente de hidrocarbonetos pesados, igualando a aviação geral à comercial.

O consumo de combustível na aviação comercial é colossal, medido em dezenas de toneladas por voo. Um Boeing 777 em rota intercontinental, como São Paulo–Paris, consome algo como sessenta toneladas de combustível, variando conforme carga, altitude e vento. Essa escala explica por que a aviação é um dos setores mais pressionados em exigências de compensação ambiental e, simultaneamente, um dos mais dependentes do petróleo.

Atualmente, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) começam a ser incorporados em pequenas proporções — cerca de dez por cento — sem alterar motores ou infraestrutura. Essa substituição reduz emissões, mas não altera o paradigma energético: trata-se apenas de mitigação parcial.

A aviação, portanto, permanece atrelada aos combustíveis pesados por motivos físicos, energéticos e de segurança operacional. Ela não contribui para elevar a elasticidade-preço da demanda do petróleo. Ao contrário, é um dos principais fatores que a mantêm baixa, justamente porque não há substituto funcional que apresente densidade energética e estabilidade térmica comparáveis às do Jet A-1.

Combustíveis pesados terrestres

O diesel ocupa posição estratégica na matriz energética global. Ele sustenta a logística terrestre, agrícola e industrial, o que o torna um dos grandes pilares da demanda mundial por petróleo. Qualquer alteração na sua composição ou substituição repercute imediatamente no sistema produtivo. É por isso que o biodiesel, apesar de sua expansão nas últimas duas décadas, permanece limitado a um papel marginal na transição energética.

O biodiesel não é um derivado direto da biomassa. Ele resulta de um processo químico denominado transesterificação, no qual os ácidos graxos presentes em óleos vegetais ou gorduras animais são transformados em ésteres metílicos ou etílicos. Para que isso ocorra, é preciso quebrar a molécula de triglicerídeo, liberando glicerol e reagindo a fração graxa com um álcool leve. No Brasil, a prática dominante é a transesterificação etílica, que consome etanol como catalisador.

Esse detalhe é central: a produção de biodiesel consome etanol, reduzindo parte do ganho energético que se pretende obter. Em outras palavras, troca-se seis por meia dúzia, pois um combustível renovável (o etanol) é usado para transformar outra biomassa em combustível renovável, com retorno energético relativamente modesto.

O subproduto inevitável da transesterificação é o glicerol, cuja proporção varia enormemente conforme a matéria-prima. Gordura animal gera quase oitenta por cento de glicerol em relação ao volume de éster produzido, o que torna sua utilização pouco vantajosa. O óleo de soja, predominante no Brasil, gera cerca de quarenta por cento de glicerol, um valor ainda alto. O dendê, embora muito mais produtivo em termos agronômicos, praticamente dispensa transesterificação, pois seu óleo é estável o suficiente para queimar como combustível pesado. Já o farmeceno é hidrocarboneto puro, quimicamente semelhante ao diesel, mas tão pouco viscoso que não pode ser usado diretamente em motores devido ao risco de falha de lubrificação e desgaste acelerado.

Essa heterogeneidade mostra que o problema do diesel não é apenas energético ou químico, mas estrutural: as matérias-primas renováveis disponíveis não fornecem, simultaneamente, produtividade, estabilidade físico-química e viscosidade adequada.

Além disso, existe um limite operacional rígido imposto pelos motores. A mistura de biodiesel ao diesel fóssil não pode ultrapassar cerca de quinze por cento sem gerar perda significativa de performance, aumento de consumo e risco de desgaste acelerado. Misturas superiores a esse percentual afetam a atomização do combustível no ciclo Diesel e comprometem o rendimento térmico e a lubrificação do sistema de injeção.

Do ponto de vista logístico, o diesel apresenta vantagens inexistentes na aviação: seu elevado ponto de congelamento não representa obstáculo relevante, pois é possível aquecer tanques e tubulações, e veículos terrestres não enfrentam temperaturas extremas nem quedas abruptas de pressão. Assim, ao contrário da aviação, não é o frio que limita a substituição, mas sim a produtividade agrícola, a química da transesterificação e a tolerância mecânica dos motores.

A escala do problema é gigantesca. O diesel alimenta caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e equipamentos industriais. Cada ponto percentual de biodiesel adicionado à mistura reduz a demanda fóssil, mas a impossibilidade de ultrapassar quinze por cento de mistura transforma essa redução em alívio marginal, nunca em substituição estrutural. Para substituir integralmente o diesel fóssil por biodiesel, seria necessária uma área plantada de oleaginosas várias vezes maior do que toda a área agricultável do Brasil — algo fisicamente impossível.

Assim, os combustíveis pesados terrestres contribuem para aumentar discretamente a elasticidade-preço do petróleo, mas não deslocam o diesel fóssil como pilar do transporte. A rigidez estrutural permanece. A verdadeira ruptura — aquela capaz de transformar o petróleo de ativo estratégico em commodity comum — não ocorrerá no transporte terrestre. Ela só poderá ocorrer no mar, onde se encontra o maior consumidor de hidrocarbonetos pesados: o bunker fuel.

Combustível naval pesado – o bunker como pilar final da dependência do petróleo

Entre todos os derivados do petróleo, nenhum exerce papel tão decisivo na rigidez da demanda global quanto o combustível naval pesado, conhecido como BPF ou bunker fuel. Trata-se do último bastilhão da dependência mundial dos hidrocarbonetos, e isso não se deve apenas ao volume consumido, mas à natureza física, industrial e operacional do transporte marítimo moderno.

As embarcações contemporâneas já não utilizam a transmissão mecânica direta típica da navegação do século XX. O arranjo dominante é híbrido: motores de ciclo Diesel operam como geradores de eletricidade, alimentando motores elétricos que acionam hélices múltiplas ou propulsores azimutais. Esse sistema elimina longos eixos— tradicional fonte de vibração, risco estrutural e manutenção custosa — e confere enorme flexibilidade operacional. Mas, apesar dessa modernização, o insumo energético permanece o mesmo: o óleo combustível pesado.

O bunker fuel é um derivado de altíssima densidade energética, com viscosidade elevada, temperatura de fluidez alta e grande estabilidade térmica. Ele precisa ser aquecido a temperaturas consideráveis para ser bombeado e atomizado. Tais características, que o tornam inadequado para motores terrestres e inviável na aviação, são perfeitas para embarcações de grande porte, que dispõem de espaço físico e massa suficientes para lidar com um combustível tão pesado.

O consumo marítimo é colossal. Um único porta-contêineres de grande porte pode queimar algo como quatro mil toneladas de combustível em uma viagem intercontinental. Petroleiros e graneleiros chegam a valores parecidos. As emissões de enxofre e particulados são elevadas, e mesmo após regulações recentes da IMO, a navegação continua dependendo de um combustível cuja combinação de densidade energética, estabilidade e custo é insuperável.

Essa escala torna absolutamente inviável substituir o bunker fuel por biocombustíveis líquidos. A energia contida em quatro mil toneladas de bunker teria de ser reproduzida por biocombustíveis cuja densidade energética é muito inferior e cuja produção agrícola, portanto, inatingível. Além disso, matérias-primas renováveis para combustíveis pesados competem com alimentos, com o diesel agrícola e com as limitações metabólicas das plantas. A navegação, portanto, não tem substituto renovável líquido viável.

Surgem propostas recorrentes para reduzir o consumo de bunker, como o retorno às velas, rotores Flettner e dispositivos para capturar energia das ondas por meio de pêndulos. Essas soluções enfrentam limitações. Os navios modernos são grandes demais para depender de velas, pois a potência do vento é insuficiente para mover embarcações de centenas de milhares de toneladas. Já os dispositivos que aproveitam o balanço das ondas enfrentam um paradoxo, a engenharia naval busca maximizar a estabilidade, reduzindo a oscilação, não amplificá-la.

Assim, o bunker não é apenas um derivado pesado: ele é o combustível que ancora o comércio mundial, responsável por cerca de noventa por cento do transporte internacional de mercadorias. É essa centralidade logística que preserva a rigidez da demanda global por petróleo e sustenta, ainda hoje, a sua baixa elasticidade-preço.

Somente reatores nucleares embarcados de pequeno porte, os (small nuclear reactors — SNR) podem romper essa dependência. Diferentemente da aviação, em que massa e volume são restrições absolutas, os navios dispõem de espaço abundante para blindagem, circuitos de resfriamento e compartimentos técnicos. Os reatores modernos podem operar por anos sem reabastecimento, eliminando completamente a necessidade de bunker.

Trata-se da única tecnologia com densidade energética suficientemente alta para substituir o combustível naval pesado sem comprometer alcance, estabilidade ou confiabilidade. Reatores compactos, instalados em compartimentos blindados, transformariam navios de alto consumo em embarcações virtualmente autossustentadas, libertando a navegação da dependência direta do petróleo com ganho de capacidade de carga.

Se adotada em larga escala, essa tecnologia representaria o golpe mais profundo na demanda global por petróleo desde o início da era industrial. O setor marítimo, maior consumidor de derivados pesados, deixaria de ser o sustentáculo da baixa elasticidade-preço. O petróleo perderia seu último reduto estratégico.

A ruptura energética final — aquela que desmantela a espinha dorsal do sistema logístico mundial — não ocorrerá na agricultura, nem na aviação, nem no transporte terrestre. Ela ocorrerá no mar, e passará pela substituição do bunker fuel por energia nuclear embarcada.

Conclusão

A transição energética avança por caminhos desiguais. Nos combustíveis leves, sobretudo pela agricultura, o deslocamento do petróleo já ocorre de modo silencioso, sem competição com a alimentação humana e sem expansão significativa da área plantada. Nos combustíveis pesados terrestres, a substituição parcial pelo biodiesel aumenta apenas marginalmente a elasticidade-preço, mas não altera a estrutura profunda da demanda. A aviação permanece presa ao Jet A-1 por razões físicas intransponíveis. E, no mar, onde se concentra o maior consumo de derivados pesados, o bunker fuel ainda reina absoluto, sustentando a baixa elasticidade-preço que há décadas garante previsibilidade ao mercado mundial de petróleo.

No entanto, mesmo que em ritmos distintos, todos esses setores estão sofrendo pressões simultâneas. Cada substituição parcial corrói um pouco da rigidez que o petróleo manteve por quase um século. O que parecia imutável começa a ceder: primeiro nas bordas, depois nos segmentos intermediários e, por fim, na espinha dorsal logística do comércio mundial. No momento em que a propulsão naval nuclear avançar além do restrito domínio militar, o bunker — último baluarte dos hidrocarbonetos pesados — deixará de ser indispensável. E, com isso, o petróleo perderá o papel de ativo insubstituível.

É nesse cenário que entra Donald Trump. Ele compreende que a erosão da demanda rígida por petróleo é, antes de tudo, uma ameaça ao lastro material do dólar. A hegemonia monetária dos Estados Unidos sempre dependeu, em última instância, da previsibilidade do consumo global de petróleo. A consequência lógica é que, à medida que a elasticidade-preço aumenta, a função geopolítica do petróleo diminui. Para Trump, o essencial não é negar a transição, mas adiá-la. Adiar para preservar o tempo necessário para que outro pilar energético ou tecnológico possa substituir o petróleo como âncora do sistema monetário.

Mas o cerco se fecha. A agricultura já mostrou que pode substituir combustíveis leves sem afetar a produção de alimentos. O diesel terrestre, embora limitado, pressiona a demanda fóssil pelas bordas. A aviação, que parecia inamovível, começa a receber misturas renováveis, ainda que irrelevantes diante do todo. E o setor marítimo, até há pouco impermeável, passa a discutir seriamente a propulsão nuclear civil como única saída para reduzir emissões e custos.

Trata-se de um movimento que ultrapassa a política ambiental. É uma disputa civilizatória. De um lado, a necessidade de preservar condições mínimas de sobrevivência para a humanidade. De outro, o impulso de preservar uma arquitetura de poder financeiro que vigora desde os anos 1970. A questão, no fundo, é simples: o planeta não pode esperar que os interesses hegemônicos encontrem conforto tecnológico. Do contrário, perde-se a possibilidade de sobrevivência.

O petróleo, que já foi símbolo de modernidade, transformou-se na trava estrutural da evolução energética e monetária do mundo. E a transição, que começou silenciosa na agricultura e segue avançando pelos setores pesados, avança por inevitabilidade física, não por vontade política. O fim do petróleo como âncora do sistema mundial não será resultado de um gesto, mas de uma soma de pressões combinadas: tecnológicas, climáticas, logísticas, competitivas e, sobretudo, termodinâmicas.

No limite, resta saber como conciliar aquilo que é indispensável à subsistência humana com a ambição daqueles que ainda se consideram donos do mundo.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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