Da limitação malthusiana à hipótese de uma biorrefinaria integradora: indícios de uma nova revolução agroenergética
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Quando Thomas Malthus formulou sua conhecida hipótese segundo a qual a fome atuaria como um limitador natural do crescimento populacional, partia-se da suposição implícita de que a produção agrícola estaria sujeita a rendimentos crescentes limitados, enquanto a população tenderia a crescer em progressão geométrica. Não se trata de erro lógico, mas de uma formulação historicamente situada. Malthus não dispunha de elementos que lhe permitissem antecipar a sucessão de transformações técnicas que a agricultura viria a experimentar.
Desde então, pode-se identificar, de forma retrospectiva, ao menos quatro grandes ondas de transformação agrícola.
A primeira, geralmente associada à mecanização, parece ter ampliado de forma significativa a área efetivamente cultivável e reduzido o custo do trabalho por unidade produzida. A terra permaneceu a mesma, mas a capacidade de explorá-la parece ter aumentado.
A segunda transformação decorreu do avanço do conhecimento sobre fertilidade do solo e do uso sistemático de fertilizantes minerais. Ao dissociar produtividade de fertilidade natural, essa etapa parece ter produzido ganhos ainda maiores do que a mecanização isoladamente.
A terceira, usualmente denominada Revolução Verde, relaciona-se à incorporação do conhecimento genético ao melhoramento vegetal. A adoção de híbridos e, posteriormente, de organismos geneticamente modificados, sugere que a produtividade passou a depender não apenas do ambiente e dos insumos, mas do próprio desenho biológico das plantas.
Mais recentemente, observa-se uma quarta transformação, menos explicitamente nomeada, associada à gestão, ao controle de custos, ao uso intensivo de tecnologia da informação e à agricultura de precisão. A lavoura passou a operar, ao menos em parte, como uma unidade industrial distribuída, orientada por dados.
Essas transformações parecem ter produzido aumentos expressivos de produção. No entanto, os mercados resultantes continuaram relativamente compartimentalizados. Milho, soja e cana permaneceram, em grande medida, tratados como commodities autônomas, com destinos específicos e pouco integrados entre si. Alimento, energia e insumo industrial continuaram a ser pensados como esferas separadas, ainda que derivassem fisicamente das mesmas biomassas.
É nesse ponto que se pode formular a hipótese de que uma quinta transformação ainda esteja em curso ou por se consolidar: uma revolução de natureza integradora.
No caso brasileiro, alguns indícios dessa integração podem ser observados a partir da relação entre soja e milho. O milho, no Brasil, tende a não ocupar a posição de safra principal. Em grande parte das regiões produtoras, ele aparece como safrinha, sucedendo a soja. Essa característica sugere uma estrutura de custos distinta daquela observada em países onde o milho é cultura principal.
A soja, por ser leguminosa, fixa nitrogênio atmosférico. Parte desse nitrogênio pode permanecer disponível no sistema solo-planta, reduzindo a necessidade de adubação nitrogenada do milho subsequente. Além disso, a adubação corretiva realizada para a soja pode deixar resíduos aproveitáveis. Essas condições indicam que o milho safrinha pode apresentar custo marginal inferior ao milho cultivado de forma isolada.
Se essa hipótese se sustenta, o milho brasileiro tenderia a se comportar menos como produto final e mais como insumo de transformação. Sua utilização em processos industriais — como a produção de etanol e seus coprodutos — passaria a fazer sentido econômico mesmo em contextos de preços internacionais relativamente baixos do grão.
A produção de etanol de milho sugere um ponto adicional: o etanol não emerge como único produto relevante. Há coprodução de DDGS, de óleo de milho e de CO₂ biogênico. O valor econômico do sistema parece decorrer da soma desses fluxos, não de um produto isolado. Nessa perspectiva, a exportação do grão in natura poderia representar, ao menos em tese, a exportação de valor potencialmente agregável internamente.
A armazenabilidade do milho reforça essa possibilidade. Diferentemente da cana, que exige processamento quase imediato após a colheita, o milho pode ser estocado por longos períodos. Isso permite, em princípio, o funcionamento contínuo de plantas industriais, com melhor aproveitamento do capital investido e menor ociosidade.
Esse arranjo, contudo, parece depender estruturalmente da soja. A soja não apenas antecede o milho no campo, mas fornece elementos centrais ao sistema: farelo proteico e óleo vegetal. O farelo sustenta cadeias de proteína animal; o óleo apresenta dupla destinação potencial.
Do ponto de vista sensorial e industrial, o óleo de milho tende a ser percebido como mais leve e mais palatável, sendo amplamente empregado em margarinas e produtos alimentícios processados. O óleo de soja, por sua vez, apresenta sabor mais intenso e aceitação sensorial menor, sendo consumido sobretudo por razões de preço e disponibilidade. Essa diferenciação sugere uma hierarquia de usos.
Nesse contexto, pode-se levantar a hipótese de que o biodiesel funcione como destino regulador do excedente de óleo de soja não absorvido pelo consumo humano. O biodiesel não concorreria, nesse caso, com a alimentação, mas atuaria como mecanismo de estabilização de preços e de escoamento de excedentes.
A integração entre soja e milho, entretanto, parece insuficiente para se sustentar isoladamente sem uma base industrial pré-existente. É aqui que a cadeia da cana-de-açúcar se torna relevante. O setor sucroenergético brasileiro construiu, ao longo de décadas, infraestrutura industrial, domínio fermentativo, cogeração de energia e logística compatível com grandes volumes de biomassa.
Essa estrutura pode, em tese, ser utilizada de forma complementar pelo milho, sobretudo fora da safra da cana, reduzindo ociosidade e diluindo investimentos. Ao mesmo tempo, a entrada do milho pode estimular a própria cadeia da cana a avançar para novos patamares tecnológicos.
Entre esses avanços, destacam-se possibilidades como o uso de cultivares transgênicas, a produção de hidrocarbonetos renováveis, o aproveitamento da celulose e da lignina e a eventual produção de combustíveis sustentáveis de aviação. Não se trata de afirmar que essas rotas estejam plenamente consolidadas, mas de reconhecer que sua viabilidade econômica pode aumentar em um ambiente industrial integrado.
Nesse sentido, não parece adequado tratar milho, soja e cana como culturas concorrentes. Os indícios apontam mais para uma relação de complementaridade sistêmica. A soja prepara o sistema agronômico; o milho amplia o valor agregado industrial; a cana fornece a infraestrutura e pode se beneficiar da diversificação de coprodutos.
Se essa integração se confirmar, estaríamos diante de algo distinto das revoluções agrícolas anteriores. Não se trataria apenas de produzir mais, mas de extrair mais funções econômicas, energéticas e alimentares da mesma base material, reduzindo a necessidade de expansão sobre áreas naturais ainda preservadas.
Essa hipótese, naturalmente, não encerra o debate. Ela o abre. Seu mérito, se houver, reside menos em oferecer respostas definitivas e mais em sugerir que o limite malthusiano pode não ter sido apenas empurrado para frente, mas redesenhado pela organização inteligente dos fluxos de biomassa, energia e nutrientes.
Para que essa revolução aconteça são necessárias duas condições, que tomemos todos consciência do fenômeno e, como consequência, o Estado tome a frente da coordenação. Assim como a integração começa no meio rural e termina na indústria, coordenação deve começar no Mapa e terminar no MICT, passando pelo Ministério do Planejamento. O cavalo está encilhado na nossa porta, resta montar.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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