Adeus ao fim do mundo!, por Marcos Silva

Bacurau retoma essa tradição do reinventar, sob o signo de paródia cosmopolita: parece que tem sido bem entendido fora do Brasil nessa perspectiva.

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019

Adeus ao fim do mundo!

por Marcos Silva

Bacurau é nordeste do Brasil e mundo, macho e fêmea (como o demonstra a central figura hermafrodita do personagem Lunga, interpretado por Silvero Pereira, marginal redentor, Tirésias e Corisco[1] reconfigurados, com unhas pintadas e capacidade de mobilização), “isso e aquilo”, de acordo com a canção “A voz do vivo”, de Caetano Veloso, gravada por Gilberto Gil em 1969, entre a prisão dos dois, após o AI-5, e seu exílio:

“Quem já esteve na lua, viu.

Quem já esteve na rua também viu.

Quanto a mim é isso e aquilo.

Eu estou muito tranquilo

Pousado no meio

Do planeta

Girando ao redor do sol”.[2] 

Ambientação indicada como oeste de Pernambuco, foi filmado no Seridó do Rio Grande do Norte, com capitais brasileiros, franceses e talvez outros. O fim do mundo tem tudo que o resto do mundo tem: motocicletas, celulares, internet, caminhão com tela computadorizada, drones, pages, uma mulher que toma iniciativa no convite erótico (Teresa, a atriz Bárbara Colen), outra que é conduzida para sexo pago contra sua vontade (Sandra, a atriz Jamila Facury), heróis-bandidos, gente que luta por cidadania, menino com roupa esportiva Adidas (algum merchandising que evidencia cena internacional), um político canalha…

“Depois de alguns anos”, conforme anunciado no começo do filme, é aqui, ali e em qualquer lugar (Lennon e McCartney acabaram nesse suposto fim do mundo)[3], agora, num passado que o Museu de História de Bacurau preserva com zeloso orgulho e se reatualiza na hora da luta contra os assassinos invasores. Os espectadores só conhecem o acervo do museu no enfrentamento final. Aparece um imaginário nordestino e mundial clássico (imagem do Divino, ex-votos, cangaço e. depois, no meio da multidão, Antonio das Mortes, matador de cangaceiros, personagem de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol, retomado por Mendonça Filho e Dornelles de forma muito livre), em misturas com Literatura espanhola do Siglo de OroFuente Ovejuna, de Lope de Vega[4], que aborda a invenção da cidadania e o direito à escolha amorosa – e videogames (também conhecidos por crianças brasileiras como jogo games), com direito a drones e mortes sequenciais, sem esquecer de hýbris e katharsis nas tragédias gregas, dos cavalos à solta que, junto com o assassinato de seus donos, evocam faroestes, da cena do violeiro que ri dos primeiros invasores na cidade, citação do grande clássico Morte em Veneza, de Luchino Visconti (a retirada dos músicos mambembes no hotel de luxo)[5]. A presença desse violeiro (Carranca, interpretação de Rodger Rogério), que comenta ações e questiona os outros provocativamente, apela para provérbios e pontua diferentes momentos narrativos do filme, tradição de literatura oral contemporânea (a edição de Literatura de Cordel é maior no sudeste que no nordeste brasileiro, não é fenômeno regional no sentido da Geografia Fisica) e também lembrança dos aedos gregos, poder de toda Arte

“Aproveite bem a vida

Pois logo a velhice aparece.

 

“Se acham melhores que os outros.

 

“Eu não quero seu dinheiro,

Estou aqui só de gaiato”

.

Bacurau é cultura cinematográfica e mais, nesses e noutros exemplos de intertextualidade. Não é 1963 nem 1964 (anos em que surgiram os grandes filmes brasileiros Vidas secas e Deus e o Diabo na Terra do Sol [6]) mas declara a possibilidade de perturbadores poderes populares, retomando discussões daquele tempo. A simples república virou utopia? Talvez sim, se o não-lugar for entendido como crítica a lugares empiricamente existentes e que até podem usar o nome fantasia “república”, um perder dessas aspas.

Desde que inventaram o Nordeste do Brasil, ele passou a existir e a ser reinventado a partir de diferentes ângulos, não necessariamente da ideologia dominante a cada momento. Bacurau retoma essa tradição do reinventar, sob o signo de paródia cosmopolita: parece que tem sido bem entendido fora do Brasil nessa perspectiva. Os elogios que recebeu não vieram apenas daquela região. Mesmo no Brasil, a melhor crítica ao filme foi produzida por Inácio Araújo, na Folha de São Paulo, que viu a obra como… Cinema![7] As regiões e o cosmopolitismo estão em todos os lugares – grandes contingentes de nordestinos em São Paulo, gaúchos a tomar chimarrão no centro-oeste, sushi e quibe a se tornarem pratos nacionais, forró na França, capoeira nos EEUU… As categorias “utopia” e “distopia”, mais região e mundo, podem se revelar apenas genéricas diante do que o filme nos apresenta. O lugar de Bacurau é um problema cinematográfico – isso não basta? Aqueles conceitos se tornam empecilhos quando transformados em chaves explicativas a priori. Quais lugar e crítica Bacurau cria?

Duas pistas musicais indicam alicerces cinematográficos brasileiros de Bacurau: “Objeto não-identificado”, de Caetano Veloso, interpretada por Gal Costa, que fez parte do filme Brasil Ano 2000, de Walter Lima Jr.; e “Réquiem para Matraga”, cantada pelo autor Geraldo Vandré, na trilha sonora de A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos[8]. É cinema brasileiro – ficção científica e política, drama social e metafísico – que dialoga e dialogava com tensões políticas (críticas à ditadura de 1964, críticas à ditadura de 2016) e estéticas (possibilidades e limites na tradição cinematográfica e musical do CPC/UNE, possibilidades e limites na tradição musical e cinematográfica do mercado delirante neoliberal), na segunda metade dos anos 60 do século XX e nas primeiras décadas do século XXI. O ato de personagens cantarem “Bicho da noite”, de Sérgio Ricardo, no enterro da personagem Carmelita relembra esse importante compositor, responsável pela trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol.[9]

Havia experimentação, questionamentos de presente/passado e projetos de presente/futuro naqueles anos 60 do século XX. Pode haver experimentação e questionamentos no tempo de fake news e Nazismo redimido do século XXI? A resposta do filme é afirmativa.

O espaço sideral, mostrado e cantado na abertura do filme, é o lugar dessa cidade – quem nasce ali é gente, conforme resposta de criança a uma auxiliar nacional dos invasores (codinome Maria), mulher depois descartada fisicamente pelos comparsas. Quando eliminado pelos invasores, o nome de João, parceiro de Maria no apoio àqueles estrangeiros, se revela Marcelo, oficial de Justiça – esse poder participa de golpes e ilegalidades na América Latina contemporânea, como se sabe.

Bacurau é isolada por estradas esburacadas (vias de incomunicabilidade, reveladas em seguida ao plano inicial do espaço cósmico), carente de água. O velho caminhão-pipa, que conduz o espectador para lá, passa por corpos de pessoas mortas na estrada, atropela caixões de defunto na pista, vê-se um prédio escolar destruído; a morte está por toda parte; mas a vida é teimosa.

Há muitos caixões de defunto em cena ao longo de todo o filme, o que evoca, pelo avesso, uma passagem de Cabra marcado para morrer (produzido originalmente pelo CPC/UNE): a fala de João Virgínio sobre um ataúde que era usado por diferentes mortos pobres, depois enterrados diretamente na terra; a Liga Camponesa do Engenho Galiléia foi parcialmente apresentada, nesse relato, como resposta a tal situação de miséria e abandono humanos. Mudaram os tempos, quais foram mesmo as mudanças? A morte e o isolamento ainda reinam nos planos metafísico e político[10].

A lenda do personagem Lunga começa a ser anunciada desde esse começo: afastado, reserva, guardião – matador e talvez traficante (conforme programas televisivos recifenses reprisados em Bacurau) e bandido social, junto com Pacote/Acácio, contra as aparências do Mal, assinaladas por Damiano (o ator Carlos Francisco), negro idoso que comercializa ervas e sementes[11]. Lunga é procurado pela polícia (oferecem recompensa por seu paradeiro) e associado à luta coletiva de Bacurau por água, aplaudido quando retorna a Bacurau. Teresa e Erivaldo, o motorista do caminhão-pipa (o ator Rubens Santos), não admitem delatar aquele personagem.

Teresa (papel de Bárbara Colen), passageira daquele caminhão na abertura do filme, filha de Plínio e neta de Carmelita, traz uma mala que será depois conduzida com cuidado por vários moradores de Bacurau e contém vacinas e soros. Sua chegada se dá no dia em que Carmelita (interpretada pela mitológica cirandeira Lia de Itamaracá – que não dança no filme) morreu, aos 94 anos, matriarca que desperta respeito e afeição de todos os presentes no velório; com exceção de Domingas (papel da também lendária atriz Sonia Braga, sem se apoiar em sua beleza física), que, inicialmente, aparenta estar bêbada e agride com palavras a morta – “bruxa nojenta”. “rameira safada”; Plínio (o ator Wilson Rabelo), filho de Carmelita e professor na escola local, reage a isso com serenidade, atribui as agressões à emoção que Domingas sentia.

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Carmelita se assemelha a uma espécie de mãe de todos, embora surja depois outra Deusa-Mãe ainda mais explícita, mestiça não identificada por nome, Vênus Calipígia a ajudar Damiano (homem que cultiva carinhosamente plantas, até conversa com elas e mostra falo em repouso) – Pretos Velhos mais que Pretos Velhos – na eliminação de dois invasores com tiros de um bacamarte, o que remete a passado e tradições da Cultura Popular, ali atualizados[12]. A morte de Carmelita, no começo da narração, assume o peso de um forte marco para a cidade. Na hora em que o caixão deve ser enterrado, brota água de seu interior, matéria rara na cidade, imagem de vida que continua, rio que não deixa de passar e evocação do desfecho no filme A fonte da donzela, de Ingmar Bergman (nasce uma fonte no local onde a jovem fora violentada e morta)[13]. É o contrário do carro-pipa depois baleado pelos invasores, que perde seu conteúdo como desperdício e risco para o local.

A cidade abriga fragmentos de tecnologia, práticas e recursos sociais recentes (além das motos, escola mais conservada e aparelhada, com quadro de ex-alunos aprovados em cursos universitários de fora, pequena banda que ensaia, ônibus escolar), mulheres fumam em público etc. Domingas é uma médica dedicada e séria que, depois daquele enterro, pede desculpas a todos pelo que disse no enterro e até recebe/enfrenta o líder invasor (Michael, olhos ostensivamente azuis, interpretado por Udo Kier) com comida e bebida – outra Deusa Mãe corajosa, serena e civilizada. Sua última fala sobre Michael é “Já teve mãe”, quer dizer, foi gente, não o é mais. Ela e Plínio, intelectuais, são tão importantes no enfrentamento da invasão quanto os marginais ma non tropo Lunga e Pacote. O filme sugere que todos eles são um pouco intelectuais e marginais (evocação enviesada de Gramsci?[14]), podem pensar e agir contra arbitrariedades.

Na escola, Plínio tenta localizar Bacurau para os alunos no mapa do page e não o consegue; isso se repete quando ele e as crianças consultam o computador maior; a cidade aparece apenas num mapa em papel, com aparência de feito a mão – no passado técnico. O que é esse estar fora do mapa e do presente? O que pode ser construir-se, como mapa e agora, para aquela população?

Um mapa é mais que traços precisos de localização; é interpretação, um ser mundo, relacionar-se com outros lugares, outras pessoas; é poder. A ação dos personagens de Bacurau significa garantir esse lugar e seu tempo para eles mesmos, contra quem os excluía e queria destruir-lhes as vidas como se fossem insetos descartáveis.

Há uma reação dessas pessoas diante do ausente e midiático prefeito Tony Jr. (o ator Thardelly Lima): quando ele chega a Bacurau, anunciado na tela computadorizada de veículo e em voz amplificada, a população da cidade desaparece. O prefeito alardeia objetos que traz como suposta doação para todos (mantimentos, remédios, livros, caixão de defunto): “Eu estou aqui para cuidar de vocês. (…) Eu estou trazendo só coisa boa.” – cuidar de animais para o abate? Uma voz define aquela doação como “presente de grego”. Enquanto ele declara que quer votos nas próximas eleições, pessoas ocultas gritam insultos. Os livros, com aparência envelhecida, meio fetiches para o prefeito, são despejados de um caminhão com caçamba, como lixo descarregado. Depois, em reunião dos moradores, Plínio fala sobre alimentos vencidos entre os dons e a necessidade de selecionar aqueles livros-lixo, descartar o que não presta; e Domingas aponta, no mesmo lote, a inclusão de remédio tarja preta, “inibidor de humor e comportamento”, que produz crescente apatia em seus consumidores (o produto que os moradores de Bacurau usam ou oferecem, portanto, não é mero entorpecente, antes mantém vivo quem o experimenta); as doações de Tony Jr. são outras tantas formas potenciais de eliminar aquela gente, que, todavia, sabe se defender.

A presença dos invasores começa a se tornar mais palpável na aparição de um drone com formato de disco voador (“daqueles de filme antigo”, na fala de Damiano, que o viu), o objeto não identificado da canção de abertura, incapaz de produzir medo no personagem que o enxergou pela primeira vez. Em seguida, e inexplicavelmente, surgem muitos cavalos soltos na cidade. O caminhão-pipa chega a Bacurau com o reservatório perfurado a bala, perdendo seu conteúdo. E o acesso a celulares fica bloqueado em toda a região.

Esses anúncios de invasão se consolidam na presença de um casal de motoqueiros: João (o ator Antonio Saboia – que é identificado como Marcelo, depois de morto pelos invasores estrangeiros que usaram seus serviços) e Maria (a atriz Karine Teles). Também a morte se expressa em masculino e feminino A dupla fala português e usa veículos potentes, roupas adequadas para percorrer trilhas e ostensivamente diferentes do que é habitual ali, capacetes que quase sempre ocultam suas faces.

Maciel e Fábio, rapazes de Bacurau, vão à fazenda de Seu Manolito, de onde os cavalos soltos procediam, e encontram seus moradores mortos, alguns num automóvel, outros na sede edificada – depois, somos informados que os assassinos foram os invasores Jake (papel de James Turpin) e Terry (interpretado por Jonny Mars). Fábio e Maciel são assassinados por aqueles motoqueiros de fora, acontecimento que conduz aos parceiros desses agressores – brancos, estrangeiros, a falar inglês.

Na conversa entre os invasores (ainda com a participação de João e Maria), fica evidente o isolamento intencional da cidade por aqueles homens e mulheres – cidade sem sinal de internet, sem eletricidade, estrada bloqueada, sem polícia – e a hierarquia entre eles: os estrangeiros têm uma escuta que indica orientações a cada passo, os dois brasileiros que os apoiam não possuem esse equipamento. João procura argumentar que ele e a parceira vieram de outra região brasileira (sul do país, com população descendente de imigrantes italianos e alemães, brancos como os estrangeiros) mas ambos são caçoados pelos demais quanto a essa pretensão de igualdade, inferiorizados como não-brancos ou brancos de segunda (mexicanos brancos); João é até admitido como bonito latino por uma das invasoras, redução a quase prostituto latin lover, mercadoria sujeita a descarte, como ocorreria pouco depois e fora anunciado pelo drone, em inglês: “Os dois idiotas estão voltando para a base”.

Michael, líder desses invasores, define o grupo como alheio àquela terra e sem responsabilidade identificável sobre seu destino (“Tecnicamente, não estamos aqui”), senha para o vale-tudo em relação aos moradores de Bacurau, tratados como alvos de safári recreativo. O papel daqueles homens e mulheres armados é matar, gratuitamente, os mais fracos, ato que os excita sexualmente – a dupla Jake e Julia (a atriz Julia Peterson) copula em seguida à morte de indefeso casal idoso (Claudio e Nelinha, o ator Buda Lira e atriz não identificada), que tentava fugir da invasão. O sexo entre aqueles seres, ao invés de gerar vidas, deriva de mortes.

Em contrapartida, a indagação racional vem de suas vítimas, tratadas como inferiores, que lhes perguntam por que fazem aquilo – a companheira de Damiano e Domingas lançam esse questionamento, Kate responde para a primeira “Não sei”. Tais mortes, para os invasores, são uma espécie de jogo (videogame ao vivo), o número de vítimas conta pontos para quem as eliminou. O líder orienta o grupo a matar pessoas com apenas um tiro, o que não acontece. A gratuidade dos assassinatos cometidos pelos invasores fica ainda mais evidente quando um deles (Josh, o ator Brian Townes) mata Nivaldo (ator não identificado), uma criança que brincava no escuro com lanterna – outro invasor liquidara uma criança na chacina da fazenda.

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A eliminação de João e Maria está associada ao fato de terem matado Maciel e Fábio: o assassinato, naquele contexto, é monopólio/privilégio dos invasores.

Pacote (interpretado por Thomas Aquino) é visto com admiração pelos moradores de Bacurau em vídeos semelhantes a programas televisivos de Recife sobre crimes, onde aparece disparando contra adversários sem identificação. Conhecido por todos como “Rei do Teco” (a última palavra designa carreira de cocaína), atira em pessoas naquelas imagens e nega ou foge de seu teor, prefere ser tratado, no começo do filme, pelo nome de Acácio (adjetivo que significa ingênuo e sem maldade), como se procurasse escapar de alguma perseguição.

Informado sobre aquele drone/disco voador e os assassinatos de Maciel e Fábio, ele decide procurar Lunga (essa palavra designa uma árvore de Angola; também é nome de um repentista cearense – Seu Lunga -, que se tornou personagem da cultura popular, mal-humorado e respondão), que vive isolado, numa construção afastada de todos, com aspecto de presídio, gradeada, ele e dois companheiros como virtuais prisioneiros e sentinelas. Damiano não se entusiasma com essa atitude de Pacote, avalia que Lunga “vale mais pelo Mal que pelo Bem que pode fazer”.

Lunga interpreta aqueles fatos e o bloqueio da internet na região como sinais de ataque a Bacurau e aceita o pedido de auxílio de Pacote, que reassume seu nome original -antes, ele fizera isso quando se apresentou a João e Maria, exibição de poder para dois estranhos suspeitos.

Os invasores Willy (o ator Chris Doubek) e Kate (a atriz Alli Willow) atacam uma casa isolada, com aspecto frágil (paredes de taipa, cobertura de sapé), onde Damiano, idoso e nu, cuida delicadamente de plantas, com as quais conversa, numa espécie de estufa. O corpo do homem é enrugado, nádegas flácidas, mas o pênis é volumosamente visível. Ele parece pressentir que algo está prestes a acontecer (ouve um canto de ave) e se dirige para o interior da casa. Willy lamenta que essa vítima seja um velho negro mas começa a incendiar a cobertura de sapé e a disparar. É surpreendido, todavia, por tiro que vem de dentro da casa, atingido na cabeça, que permanecerá exposta, destroçada, em quase toda a cena. Kate, apavorada, dispara repetidamente contra aquela frágil casa e também é atingida por outra bala proveniente de uma arma com aparência de bacamarte. Quem dispara um só tiro certeiro, a cada vez, são Damiano e sua companheira (sem indicação de nome da personagem e da atriz), nus, Falo e Deusa Mãe arquetípicos, imagens de totalidade e vida[15]. O aparente atraso técnico (casa de taipa com cobertura de sapé, bacamarte) derrota a onipotente presunção vazia dos invasores. Não há sadismo dos vencedores, Damiano pergunta para Kate se ela quer viver ou prefere morrer, oferece-lhe a substância meio mágica consumida em Bacurau e a mulher é depois encaminhada para Domingas – morreu por hemorragia, segundo informação da médica a Michael.

As perdas sofridas são tratadas pelos moradores de Bacurau, nesse contexto de luta, como aprendizado e alicerce para nova força, reinserção, por conta própria, no mapa. A igreja da cidade aparece quase sempre fechada (talvez depósito de móveis ou objetos semelhantes) mas o sagrado, como poder dessas pessoas, está disperso em toda parte, naqueles corpos, naquelas capacidades de entender e agir, naquela terra.

Contra os invasores e como na anterior vinda de Tony Jr., a população do lugarejo desaparece de cena no momento em que a cidade é explicitamente invadida. Ao mesmo tempo, o conteúdo do Museu de História é revelado para o espectador, com destaque para fotografias de cabeças decepadas em escadaria (memória da matança do Bando de Lampião em 1938), óculos e armas que são recolhidos por Joshua (o ator Brian Townes) mas de nada lhe servem, é um cangaceiro mais que fake. Michael empunha um revólver com aparência antiga, enfia seu cano na própria boca – matar gratuitamente os outros é também começar a se matar ou antecipar-se a morte. E atira em vários de seus parceiros, bem como alvos esparsos de Bacurau – prédios, chão, pessoas.

Com os invasores dentro da cidade, seus até então ocultos moradores saem de dentro da terra (natureza mas também inferno) e da escola (intelecto); liderada por Lunga, a coletividade enfrenta e derrota aqueles inimigos, corta suas cabeças, lava o sangue do chão (o sagrado onde se pisa) mas mantém marcas sangrentas nas paredes (a memória que se vê, outras peças de museu).

Seria muito fácil comparar esses atos a matanças em presídios brasileiros ou mera barbárie daqueles homens e mulheres. Se fizermos isso, ignoraremos a dimensão de defesa em seus atos e a extrema violência gratuita dos inimigos que derrotaram.

As cabeças dos assassinos invasores, decepadas, são expostas na calçada da igreja, recordação carnavalizada[16] do Cangaço – os degolados, agora, eram agentes de arrogantes poderes. E Tony Jr. reaparece, pergunta “Cadê os gringos, os turistas?” (ele evidencia conhecer os estrangeiros, disfarçando-lhes as identidades), nega o conluio com Michael e os seus e é expulso da cidade, quase nu, montado de costas num burro, com máscara de Judas em Sábado de Aleluia – para ser malhado! Michael finda confinado sob a terra pelos moradores, mandado para as profundas, parte a fazer ameaças, em inglês, aos moradores, à maneira de Jean, no ritual antropofágico final de Como era gostoso meu francês, em sua língua nacional[17].

No enterro dos mortos de Bacurau, nomes são pronunciados – são gente! -, dentre eles figura o de João Pedro Teixeira, liderança camponesa assassinada antes de 1964, tema central de Cabra marcado para morrer. A História, em Bacurau, é Alegoria e Poética (o que poderia ter acontecido), universal, na tradição aristotélica[18]. Michael comenta, em inglês, sobre o povo de Bacurau: “Tanta violência!”. Quer dizer: os outros são violentos…

A Política, nessa obra, se situa entre o prefeito canalha, associado aos assassinos invasores, e o povo justiceiro, sem espaço para partidos – um grande silêncio do filme, possível referência ao esvaziamento partidário brasileiro do momento em que ele foi realizado. Os partidos brasileiros retornarão?

Bacurau é um filme de regresso: Teresa, as prostitutas, Lunga, Pacote… O coração do Brasil está em todo lugar e assistimos à migração pelo avesso.

Não se trata de final feliz: as ameaças de Michael possuem bases reais, mesmo com sua remessa para as profundas; Tony Jr. provavelmente, encontrará algum subalterno no caminho para eliminar aquela humilhante situação (Judas, nu e mascarado, montado de costas em burro) ou será descartado e substituído por similar.

Mas Bacurau se pôs no mapa, mostrou poder coletivo e popular, o que incomoda alguns espectadores e entusiasma outros tantos.

Ali não é o fim do mundo, ali é o mundo.

Esse mundo não tem fim.

 

PS – Por que retomar Glauber Rocha?

Porque Glauber Rocha é um clássico!

Isso não é suficiente?

Marcos Silva – Departamento de História da FFLCH/USP

Bacurau (Brasil/França). 2019. Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Roteiro: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Produção: Emilie Lesclaux, Said Ben Said, Michel Merkt e Globofilmes. Música original: Mateus Alves e Tomaz Alves de Souza. Direção de Fotografia: Pedro Sotero. Montagem: Eduardo Serrano. Elenco: Sonia Braga (Domingas), Lia de Itamaracá (Carmelita), Wilson Rabelo (Plínio), Udo Kier (Michael), Silvero Pereira (Lunga), Bárbara Colen (Teresa), Thomas Aquino (Pacote/Acácio), Thardelly Lima (Tony Jr.), Rubens Santos (Erivaldo) e Carlos Francisco (Damiano). 132 minutos. Colorido.

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Leituras complementares

BITTENCOURT, Bruna. “Bacurau é sobre meu êxtase de ir ao Cinema” (Entrevista de Kleber Mendonça Filho). Trip. São Paulo: Trip Editora, 284, 16 ago 2019

https://revistatrip.uol.com.br › trip › entrevista-com-kleber-mendonca-filh…

Cahiers du Cinema – La rentrée du Cinema. Paris: 758. 2019.

MESQUITA, André. Mapas dissidentes. São Paulo: FAPESP/Humanitas, 2019.

SILVA, Marcos. “A História e seus limites”. Revista da USP. São Paulo: USP, 33, mar/maio 1997, 209/216.

www.revistas.usp.br › revusp › issue › archive

Notas

[1] Tirésias é personagem mitológico grego, cego, que viveu como homem e como mulher, personagem na tragédia ´´Edipo Rei.

SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Geir Campos. São Paulo, Abril, sem data.

Corisco foi cangaceiro, ligado ao Grupo de Lampião, personagem do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol.

ROCHA, Glauber. Deus e o Diabo na Terra do Sol (Basil). (Brasil). 1964. Direção: Glauber Rocha. Produção: Luiz Augusto Mendes e Copacabana Filmes. Roteiro: Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Waldemar Lima e Walter Lima Jr. Fotografia: Waldemar Lima. Montagem: Glauber Rocha e Rafael Valverde. Música: Sérgio Ricardo. Elenco: Maurício do Valle (Antonio das Mortes), Othon Bastos (Corisco), Geraldo Del Rey (Manuel), Yoná Magalhães (Rosa), Sonia dos Humildes (Dadá), Lídio Silva (Sebastião) e João Gama (Padre). 118 minutos. Branco e preto.

[2] GIL, Gilberto. “A voz do vivo”.

https://www.youtube.com › watch (gravação original: 1969, Gilberto Gil).

[3] LENNON, John e McCARTNEY, Paul. “Here, there and everywhere”. https://www.youtube.com/watch?v=HMAf4Uq9mrs (gravação original: 1965, Beatles,  Rubber soul).

[4] LOPE DE VEGA, Félix. Fuente Ovejuna. Tradução de Mário Lago. São Paulo: Peixoto Neto, 2007 (1ª ed.: 1619).

[5] VISCONTI, Luchino. Morte em Veneza (Itália / França). 1971. Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Luchino Visconti e Nicola Badalucco, a partir de novela homônima de Thomas Mann. Fotografia: Pasquale De Santis. Direção de Arte: Ruggero Mastroianni e Ferdinando Scarfiotti. Música: Gustav Mahler, Franz Léhar, Ludwig Van Beethoven. Figurino: Piero Tosi. Efeitos sonoros: Giuseppe Muratori e Vittorio Trentino. Elenco: Dirk Bogarde, Björn Andressen, Silvano Mangano, Marisa Berenson, Carole André, Nora Ricci, Mark Burns, Leslie French, Antonio Appicella, Dominique Darell, Masha Predit, Ev Axen, Bruno Boschetti, Queimaduras Da Marca e Romolo Valli. 128 minutos. Colorido.

[6] SANTOS, Nelson Pereira dos. Vidas secas (Brasil). 1963. Direção: Nelson Pereira dos Santos. Produção: Herbert Richers. Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, baseado em romance de Graciliano Ramos. Fotografia: Luiz Carlos Barreto. Montagem: Rafael Valverde. Elenco: Átila Iório (Fabiano), Maria Ribeiro (Sinhá Vitória), Jofre Soares (Coronel), Orlando Macedo (Orlando Macedo), Genivaldo Lima (Filho) e Gilvan Lima (Filho). 103 minutos. Branco e preto.

[7] ARAÚJO, Inácio. “Réplica – Críticos dizem que Bacurau é um filme de propaganda: e daí?”. Folha de São Paulo. São Paulo: 16 set 2019.

https://www1.folha.uol.com.br › ilustrada › 2019/09 › criticos-dizem-que-

[8] LIMA JR., Walter. Brasil Ano 2000. (Brasil). 1969. Direção: Walter Lima Jr. Produção: Claude Antoine e Walter Lima Jr. Roteiro: Walter Lima Jr. Fotografia: Guido Cosulich. Montagem: Nelo Meli. Música: Rogério Duprat, Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros. Elenco: Anecy Rocha (Filha), Raul Cortez (Homem que protesta), Aizita Nascimento (Mulher), Enio Gonçalves (Jornalista), Iracema de Alencar (Mãe), Zgbniew Ziembinski (General) e Helio Fernando (Filho). 95 minutos. Colorido

SANTOS, Roberto. A hora e a vez de Augusto Matraga. (Brasil). 1965. Direção: Roberto Santos. Produção: Roberto Santos e Luiz Carlos Barreto. Roteiro: Assis Ribeiro, Gianfrancesco Guarnieri, Helio Silva, João Guimarães Rosa e Roberto Santos, baseado em conto de João Guimarães Rosa. Fotografia: Helio Silva. Montagem: Silvio Reinoldi. Música: Geraldo Vandré. Elenco: Leonardo Vilar (Augusto Matraga), Maria Ribeiro (Dionora), Flavio Migliaccio (Quim Recadeiro), Joffre Soares (Joãozinho Bem-Bem), Maurício do Valle (Padre), Solano Trindade (Pai das Crianças), Emmanoel Cavalcante (João Lomba) e Ivan de Souza (Jurumin). 106 minutos. Branco e preto.

[9] SÉRGIO RICARDO. “Bicho da noite”, in: A grande música de Sérgio Ricardo. Rio de Janeiro: Phillips, 1967.

https://www.letras.mus.br › MPB › Sérgio Ricardo

[10] COUTINHO, Eduardo. Cabra marcado para morrer (Brasil). 1964/1984. Direção: Eduardo Coutinho. Produção: CPC/UNE, MPC, Mapa, Zelito Viana e Eduardo Coutinho. Direção de produção: Marcos Faria e Alberto Graça. Produção executiva: Leon Hirszman e Zelito Viana. Produtor associado: Vladimir Carvalho. Argumento: Eduardo Coutinho. Roteirista: Eduardo Coutinho. Direção de fotografia: Fernando Duarte e Edgar Moura. Câmera: Fernando Duarte e Edgar Moura. Som direto: Jorge Saldanha. Efeitos especiais de som: Geraldo José e Antônio César. Montagem: Eduardo Escorel. Música: Rogério Rossini. Identidades/elenco: Elizabete Teixeira, Altino Silva, João Virgílio Nascimento, José Daniel do Nascimento, João José da Silva, Cícero Anastácio da Silva, Braz Francisco Coutinho, Severino Silva, João Mariano da Silva e outros. Locução Tite de Lemos e Eduardo Coutinho. Narração: Ferreira Gullar. 119 minutos. Colorido e Branco e Preto.

[11] HOBSBAWM, Eric. Rebeldes primitivos – Estudos de formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX. Tradução de Nice Rissone. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.

[12] LIMA, George Michael Alves de. Os bacamarteiros de Caruaru. Dissertação de Mestrado em Antropologia, defendida na UFPE. Recife: digitado, 2013.

[13] BERGMAN, Ingmar. A fonte da donzela (Suécia). 1960. Direção: Ingmar Bergman. Produção: Allan Ekelund e Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nkyvisk. Música: Erik Nordgren. Elenco: Max Von Sidow (Herr Töre), Birgitta Valberg (Marëta Töre), Birgitta Pettersson (Karin Töre) e outros. Locução Tite de Lemos e Eduardo Coutinho. Narração: Ferreira Gullar. 89 minutos. Branco e Preto.

A imagem do rio que passa é central num samba clássico de Paulinho da Viola:

PAULINHO DA VIOLA. “Foi um rio que passou em minha vida”. Foi um rio que passou em minha vida. Rio de Janeiro: Odeon, 1970.

https://www.letras.mus.br › Samba › Paulinho da Viola

O azul de Portela é associado noutro samba ao manto de Nossa Senhora Aparecida:

PINHEIRO, Paulo César e DUARTE, Mauro. “Portela na avenida”. Gravação de Clara Nunes. Rio de Janeiro: Odeon, 1982.

https://www.letras.mus.br › Samba › Clara Nunes

[14] GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

[15] JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Maria Luíza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2000.

[16] BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Tradução de Yara Frteschi Vieira. São Paulo/Brasília, Hucitec/EdUnb, 1987.

[17] Como era gostoso meu francês (Brasil). 1971. Direção, Argumento e Roteiro: Nelson Pereira dos Santos. Direção de fotografia e Câmera: Dib Lutfi. Técnico de som: Nelson Ribeiro. Montagem: Carlos Alberto Camuyrano. Cenografia: Regys Monteiro. Figurinos: Mara Chaves. Produção: Condor Filmes, L.C.B. Produções Cinematográficas, K. M. Eckstein, Nelson Pereira dos Santos, Luis Carlos Barreto e César Thedim. Equipe de produção: Carlos Alberto Diniz, Antônio Mendes Soares, Raimundo B. de Mello, Nelson Pereira dos Santos Filho, Pedro Jaconi Quirino, Mário Soares Filho e Francisco Vieira Nunes. Gerente de produção: Pedro Aurélio Gentil. Companhia distribuidora: Condor Filmes. Elenco: Arduino Colassanti, Ana Maria Magalhães, Eduardo Imbassahy Filho, Manfredo Colasanti, José Kleber, Gabriel Arcanjo, Luiz Carlos Lacerda, Jorge Rodrigues da Silva, José Soares, Josué Amaral Batista, Erley J. Freitas, Janira Santiago, Ana Maria Miranda, Marlete Ribeiro Barbosa, Maria de Souza Lima, Ilde Miranda da Silva, Lídia Maia Santos, Rose de Carvalho, Heloísa de Carvalho e Gildete dos Santos. Narração: Célio Moreira. 79 minutos. Colorido.

[18]  ARISTÓTELES. ARISTÓTELES. Poética. Tradução Eudoro de Sousa. 2. ed. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 1990

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6 comentários

  1. Excelente critica/resenha. Eu resumo Bacurau de forma mais frontal: é um filme que diz o que uma sociedade atacada, violentada, humilhada, deve fazer. Como responder aos ataques sistêmicos. E não ha nada de novo nisso, pois algumas revoluções ja passaram pela historia. Kleber Mendonça Filho, que numa avant-première em Paris explica porque em seu ultimo filme o tom sobe muito mais, é direto ao mostrar as cabeças! Na revoluação francesas cabeças rolaram… Em algum momento, no Brasil, deve acontecer isso também.
    Os diretores – assim como Tanrantino em”Era uma vez em Hollywood” salva Sharon Tate da selvageria da seita de Charles Manson – fazem uma homenagem aqueles que morreram durante os ataques ou o processo. Ja se falou no nome de Marielle Franco, mas ha também Marisa Leticia da Silva e outros anônimos que morreram e morrem pela violência sistêmica praticada em nosso Pais. Viva Bacurau! Viva cabeças como o modesto Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

  2. Alô USP!!
    A acreditação imprime “TANTA VIOLÊNCIA”… tanta civilidade…
    Esse lugar de fala acadêmico acreditado é eco de quem dá as ordens para a caça.

    De onde parte o som?

    Essa é a pergunta calada, no texto, no filme, nas críticas, nos comentários …

    Ninguém de dentro do espelho sabe, nem viu ou verá. Bacurau não atingiu ou foi abortado dessa profundidade?

    QUEM DÁ AS ORDENS?

    DE ONDE PARTE O SOM?

    Essa resposta não é acessível à academia, triste Brazil…
    Nem à nossa pseudo intelectualidade, triste Brazil…

    BACUREI-SE USP!

    Desforma, vira gente des.forma.atada!
    Gente é g.Ente!
    E a gEnte precisa disso urg.Ente!

  3. Excelente crítica, Marcos! Sempre nos fazendo ir além do filme (com enorme erudição), mas sem sair dele. A menção a João Pedro Teixeira também me chamou a atenção na única vez que vi. Uma das tantas lembranças importantes. Esse filme me parece uma mônada, como dizia Walter Benjamin, ou um ensaio de uma história do Brasil a contrapelo.

  4. QUEM DÁ AS ORDENS?

    DE ONDE PARTE O SOM?

    “É preciso sair da ilha para ver a ilha”-José Saramago.

    E para ver o mundo?

    A pergunta é lugar de fala!

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