17 de julho de 2026

África do Sul no Caminho do Mundo, por Joao Bimbato

Para dar a volta no continente africano, os cargueiros precisam passar pela rota do Cabo da Boa Esperança, que contorna a África do Sul.
Reprodução

A Maersk retomou o uso do Canal de Suez, mas a crise no Irã reacende a importância da rota pelo Cabo da Boa Esperança.
A rota do Cabo da Boa Esperança, contornando a África do Sul, é uma alternativa segura e histórica para o comércio entre Ocidente e Oriente.
A África do Sul ganha destaque na vigilância marítima e segurança, diante da volatilidade no Oriente Médio e gargalos no Oceano Índico.

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África do Sul no Caminho do Mundo

A crise no Irã traz à memória a importância da África do Sul

por Joao Bimbato

A gigante dinamarquesa Maersk havia acabado de retomar suas atividades de navegação passando pelo Canal de Suez, no Egito. Até pouco tempo atrás, embarcações que transitavam pela área eram com frequência alvos de ataques de militantes houthis, a partir do território do Iêmen, ao lado do qual é inescapável passar, por causa do Estreito de Bab el-Mandeb.

É muito possível que na empresa houvesse algum otimismo. Voltar a utilizar o Canal de Suez traz importante economia de tempo e recursos para quem navega para regiões ao norte do Equador ou vem dessa região. Em vez de literalmente descer meio mundo, contornar o sul da África e subir de novo, basta atravessar alguns quilômetros por um duto oceânico criado pelo gênio da engenharia humana, e voialà: ganha-se o Mediterrâneo ou o Oceano Índico de modo quase imediato.

Porém, é igualmente muito provável que o otimismo da Maersk e outras companhias também estivesse temperado de saudável dose de cautela. Afinal, a região onde se encontra o Egito, colado na Península Arábica e muito perto do Golfo Pérsico, é vulnerável a oscilações de segurança. Com o estouro da crise no Irã, a precaução parece ter feito sentido, e então o mundo volta a lembrar-se da África do Sul.

Para dar a volta no continente africano, os cargueiros precisam passar por uma velha conhecida: a rota do Cabo da Boa Esperança, que contorna a África do Sul. Essa região encontra-se na encruzilhada comercial do mundo há pelo menos seis séculos. Isso, se for tomada a perspectiva europeia, porque, sob a perspectiva do sul da África ou de navegadores árabes e persas (hoje, iranianos), essa área já estava conectada aos caminhos do comércio mundial há milênios.

De todo modo, passar por ali foi a saída que, inicialmente, os portugueses e, depois, outros navegadores europeus encontraram para continuarem a utilizar a milenar Rota da Seda. Essa Rota ligava a China por terra à Europa Ocidental, que prosperava com o comércio de especiarias. São produtos que hoje consideramos corriqueiros, como canela, pimenta-do-reino, ou incensos, mas que à época tinham imenso valor culinário e medicinal, pelos quais os compradores estavam dispostos a pagar muito ouro. Assim como hoje estão dispostos a pagar muitos dólares pelos bens que vêm da região, como o petróleo e o gás produzidos no Golfo Pérsico, cujo acesso é controlado pelo Irã em grande medida.

Acontece que, em 1453, surgiu o Império Otomano, quando os turcos tomaram Constantinopla, capital do cristão Império Romano do Oriente. Os otomanos impuseram então taxações mais severas, dentre outros motivos, por diferenças religiosas, mas principalmente para se beneficiarem da Rota da Seda. Combinado com o monopólio de cidades como Gênova e Veneza sobre o Mar Mediterrâneo, esse novo fator tornou impraticável, aos europeus mais ao Ocidente, continuar o comércio com as “Índias”, conceito geográfico vago que abrangia a atual Índia e outros territórios do sul e do sudeste asiáticos, além da Pérsia.

Tamanha oportunidade de negócios não podia ser desperdiçada. Como primeiro Estado moderno europeu, Portugal teve condições de centralizar o poder político e proporcionar estabilidade econômica que serviu de motor à expansão marítima a fim de contornar a barreira otomana e o monopólio italiano. Os portugueses começaram então a tatear a costa da África, rumando a sul. No processo, venceram barreiras psicológicas e lendárias em torno de suposto abismo e monstros marinhos no mar e estabeleceram postos e feitorias. Até que Bartolomeu Dias dobrou, sem morrer, o Cabo da Boa Esperança – com o perdão do trocadilho.

Com esse novo caminho para o Oceano Índico, os europeus mantiveram o fluxo de caixa que lhes permitiu financiar novas navegações. Dentre as expedições, são famosas as de Cristóvão Colombo, que morreu acreditando que tinha alcançado as “Índias” ao navegar indefinidamente para o oeste, quando na verdade encontrou em seu caminho a América, e a de Pedro Álvares Cabral, que se deparou com o que viria a ser o Brasil. Há quem diga, aliás, que Cabral teria ali chegado por acidente, porque estaria tentando ir às “Índias”. A sugestão, claro, é polêmica.

Desde o feito de Bartolomeu Dias, a rota do Cabo passou a ser a principal ligação marítima entre Ocidente e Oriente por quatrocentos anos, até a abertura do Canal de Suez, em 1869, no Egito. No entanto, atravessar Suez traz desafios que não existem ao descer pelo Atlântico até o Cabo da Boa Esperança. Além da volatilidade de segurança, muito superior à realidade do sul da África, qualquer imperícia na condução de um navio pela estreita ligação entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho pode atravancar 12% do comércio global que passa por ali, como em 2021, quando um navio da Evergreen Marine se atravessou no corredor de navegação por seis dias, causando um impacto diário de US$ 9,5 bilhões.

Por sua vez, o Oceano Índico é repleto de “chokepoints” ou “gargalos”, passagens estreitas e incontornáveis, e por isso estratégicas. Dentre eles, o mencionado Estreito de Bab el-Mandeb, o Estreito de Málaca, entre a Malásia e a Indonésia, e o Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico, que o Irã tem buscado bloquear em reação ao conflito militar em que se encontra.

Em comparação, o quadro de segurança do sul da África é muito mais sereno, e o Oceano Atlântico praticamente não apresenta gargalos. Argumenta-se, aliás, que, no comércio entre países africanos, que representa US$ 190 bilhões, é mais vantajoso para as nações abaixo do Equador contornar o Cabo da Boa Esperança do que subir até Suez, o que também se aplica às navegações para a Índia e a China.

Com o aumento do trânsito em torno da rota do Cabo por conta das volatilidades no Oriente Médio dos últimos anos, a África do Sul passa a ter ainda mais importância em temas como vigilância e resgate em relação a incidentes marítimos na região, inclusive vinculados à pirataria, e nota-se que poderia ser considerada uma falácia a ideia de que a rota ao sul da África seria “secundária” vis-à-vis Suez.

A África do Sul não é muito falada, mas deveria ser objeto de mais atenção no mundo, para o qual ela, como se nota, é inescapável. Diria incontornável, até, mas seu contorno é precisamente o ponto aqui.

Opinião do autor não reflete a opinião dos colaboradores do Itamaraty e da Embaixada do Brasil na África do Sul

João Bimbato é diplomata.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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