Anticiência e o desenho inteligente, por Gustavo Gollo

Gustavo Gollo apresenta sua proposta sobre a literalidade da visão de ciência como um jogo

Anticiência e o desenho inteligente
por Gustavo Gollo
Quando fé demais não cheira bem.

Tenho defendido que a ciência deve ser vista como um jogo. A proposta não é nova, tanto Karl Popper quanto Rubem Alves, 2 filósofos da ciência – ou epistemólogos –, adiantaram características ou atitudes científicas que a encaixam plenamente na definição de um jogo. Minha proposta, no entanto, vai bem além da deles, uma vez que proponho a literalidade da visão de ciência como um jogo. Penso que a ciência deva ser vista e praticada, literalmente, como um jogo de enigmas, mas um jogo “à vera”, não apenas com perguntinhas banais com respostas prontas, como em joguinhos comerciais. 

Penso que, vista como um jogo de composição de perguntas, e construção e busca de respostas para essas perguntas, a ciência ganha vida e entusiamo, passando a ser praticada com alegria, despojando-se da rabugice típica dos especialistas, e da exasperação de professores iracundos empenhados em reproduzir suas próprias e tristes condições de mestres irascíveis, desses que obrigam seus discípulos a perscrutar as mesmas tristes migalhas infecundas que eles mesmos já remoeram seguidamente, como se gerenciassem um brocoió depauperado compelido a remoer eternamente o mesmo bagaço seco que eles insistem em repassar a seus discípulos. (Tenho insistido que, vivendo em um mundo aberto, os profissionais de ciência, em nossos tempos, parecem ter deliberado agir como cegos, ocluindo qualquer visão alternativa de mundo, e impedindo que a atenção recaia sobre qualquer outro objeto que não a do mesmo bagaço seco já tantas vezes remoído que constitui o interesse único do ultraespecialista, consideração que justifica a estagnação da ciência contemporânea).

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Formados à imagem e semelhança de seus mestres, esses rabugentos empenham-se dedicadamente em perscrutar a aridez do bagaço que remoem, e a reproduzir o mesmo hábito inútil em seus discípulos. Sublinhe-se que tais criaturas são incapazes de ver a ciência como um jogo, atividade sabidamente alegre e gratificante, sendo compelidos a tratá-la como o fel que destilam durante o amargo ofício a que se dedicam. Resulta de tal empenho um monturo árido, insípido e desagradável, assemelhado à areia de deserto, seca e estéril e que constitui o grosso do estabelecido como ciência convencional. Advirto os jovens cientistas de que, caso não se afastem de tais criaturas, se tornarão como elas.

Thomas Khun costumava comparar a prática científica à resolução de quebra-cabeças. Penso na ciência como um jogo muito mais rico que esse, no qual as próprias peças que compõem o quadro são criadas pelos cientistas. Vejo a ciência como uma atividade fundamentalmente delirante, como um ato de criação. Não penso em cientistas garimpando peças de um quebra-cabeças previamente existentes, mas criando mundos, à maneira dos ficcionistas e dos artistas em geral. Ciência é criação. Dentre todas as possíveis, a comparação entre ciência e ficção me parece a mais ilustrativa. Cabe-lhe certa ressalva, uma vez que os delírios permitidos a um ficcionista são limitados, de modo que, caso um ficcionista transponha tais limites, esvaziará sua obra, tornando-a inverossímil e pouco atraente. Quanto ao cientista, poderá ele mesmo, a exemplo de Einstein, dar conteúdo e verossimilhança a seus delírios, por mais absurdos que sejam. Também nesse quesito, a teoria da relatividade é exemplar; caso tal ideia tivesse surgido na mente de um mero ficcionista, com o propósito, apenas, de sustentar o cenário de obra fictícia, teria sido considerada tão disparatada que esvaziaria a história, dada sua completa inverossimilhança. Convém notar que a teoria da relatividade é o que de melhor existe hoje, no ramo; dentre todas as teorias existentes, a mais bem sustentada e enxuta. (Apenas por cautela, ressalto que não considero as teorias científicas meras ficções, mas ficções de um tipo muito especial).

O jogo da ciência: jogando à vera

Os que já completaram um quebra-cabeças de muitas peças, devem ter vivenciado um sentimento paradoxal ao encaixar a última peça, quando a vitória traz, simultaneamente, certa desilusão, ao ver finalizado o quadro. Sentimento análogo acompanha o jogador, após ganhar a final do campeonato, quando a vitória, o objetivo de tudo, esvazia a sensação maravilhosa de busca que o acompanhava durante as semanas anteriores, quando a vitória era apenas um sonho.

Creio em uma natureza paradoxal do paraíso, que faz com que ele se esvaia assim que seja alcançado. Penso que o paraíso consista na própria busca pelo paraíso, e que estar nele signifique estar prestes a alcançá-lo, convicção que se esvai tão logo isso ocorre. Contentemo-nos com a loucura, e louvemo-la entusiasticamente!

Quanto ao jogo da ciência, conforma-se muito naturalmente a tudo isso. Nossa ignorância é bem ilustrada pelo homem que ao acender um fósforo na escuridão percebe a extensão do desconhecido à sua volta, constatando-a muito maior ao acender uma vela, e ainda mais ampla ao acender uma lâmpada, descobrindo, conforme a intensidade de sua luz, a amplidão de sua ignorância. (Não tenhamos receio de nos reconhecer ignorantes, somos).

Assim, todos os cientistas se reconhecem, creio, imensamente ignorantes, percebendo a vastíssima extensão de seus desconhecimentos, tão mais exposta exatamente nas áreas que ele mais conhece. Karl Popper denominou sua autobiografia intelectual “Busca sem término”, como uma referência a algo análogo à descoberta das imensidões sem fim, ao redor de tudo. Chamo a isso “mundo aberto”.

Uma peculiaridade auspiciosa do jogo científico é que ele nunca termina, propiciando a cada realização, um conjunto ainda maior de desafios, cada vez mais extasiantes. Resolva um dado enigma e, como prêmio, obterá 2 novos. Podemos, assim, permanecer, cada vez mais próximos do paraíso, embora sempre a dois passos dele, enquanto caminhamos em seu rumo.

Luta, suor e alegria

O jogo da ciência, como tantos outros, exige luta e dedicação, e seus feitos mais grandiosos – as soluções mais admiráveis –, correspondem, naturalmente, àqueles cujas sucessivas tentativas de solução falharam, exigindo cada vez mais garra e destreza dos desafiantes. Como em qualquer outra atividade, o sucesso exige suor e determinação.

O jogo da ciência, no entanto, permite uma alternativa mágica conhecida apenas por seus mais exímios jogadores. Trata-se da invenção delirante de novos campos, de novos enfoques, de novos enigmas, ou, simplesmente, de uma nova ciência. A alternativa revela a proximidade de parentesco do cientista com o artista; não vejo objeção a que façanhas assim brilhantes sejam chamadas “ciência artística”. Uma vez que vivemos em um mundo aberto, depende de nossa inventividade a possibilidade de criarmos novos tipos de conhecimentos, novas questões, novos enfoques nunca antes propostos.

Mas, e o desenho inteligente, afinal?

O precursor do desenho inteligente foi William Paley, décadas antes do surgimento da teoria da evolução. Mais de um século depois, Richard Dawkins escreveu um artigo magnífico intitulado “O relojoeiro cego” que se encontra em um livro de mesmo nome, no qual reconstrói a belíssima argumentação de William Paley que, por muitas décadas, se impôs como a maior objeção à teoria. Ambos os argumentos constituem grandes momentos do jogo da ciência, e merecem ser apreciados; recomendo.

Quanto aos atuais proponentes do desenho inteligente, vejo-os como uma espécie de “plateia do contra” que, por não conseguir participar do jogo, empenha-se em acabar-lhe com a graça. O jogo funciona assim: construímos um enigma e tentamos resolvê-lo; frequentemente, a tarefa é difícil, mas acaba resultando em uma solução, que, por sua vez, incita novos desafios. Ressalte-se que o pressuposto do jogo da ciência é que se busca uma solução racional para cada enigma.

Eventualmente, naturalmente, algum enigma revela-se excepcionalmente difícil, desafiando todos os solucionadores. Em tal caso, os menos aguerridos logo se cansam, e desistem do desafio, resignando-se ao desconhecimento daquele enigma. Alguns prosseguem, mais e mais, e mesmo assim, até os mais heroicos acabam esgotados em certo momento, desistindo da tarefa árdua. Quando um determinado enigma parece ter desafiado todos, sem que as maiores mentes tivessem conseguido solucioná-lo, surge então um proponente do desenho inteligente e propõe sua “solução” padrão para todos os enigmas recalcitrantes: – Esse enigma não pode ser explicado racionalmente e só pode ser explicado pela interferência e o engenho do Criador. Note que o propósito de tal criatura parece ser o de acabar com a farra, de terminar o jogo em sua melhor parte, exatamente quando o desafio torna-se, verdadeiramente, um Desafio!

Perceba também que faz parte do jogo atingir tais dificuldades. Obstáculos fáceis são transpostos rapidamente, revelando outros, consequências da solução anterior. É essa a dinâmica saudável do jogo, de modo que, em qualquer momento, espera-se que apenas enigmas de dificuldade considerável permaneçam não resolvidos, uma vez que a solução dos fáceis deve ter sido rapidamente apresentada. Por essa razão, o resultado de qualquer boa ciência, será o acúmulo de problemas cada vez mais difíceis, fato, por vezes, desanimador. Resolver enigmas, no entanto, nos injeta ânimo, e quanto mais árdua tenha sido a solução, maior será o prêmio alcançado; os que já realizaram tais façanhas sabem disso.

Mas o proponente do desenho inteligente está sempre empenhado em acabar com a farra e melar o jogo, aproveita-se então desses momentos de desânimo dos participantes, quando os problemas tratados parecem insolúveis – normalmente por estarem mal formulados, de modo que a solução do enigma exigirá sua reformulação, o que faz parte do jogo –, e decreta: ah, isso é impossível sem a intervenção divina; fim de jogo!

Nota 1

Convém notar que um problema teológico resultante das intervenções divinas, pelos milagres, é que elas constituiriam remendos, consertos necessárias para corrigir erros divinos realizados durante a construção do mundo, tese retomada implicitamente em meu livro de ficção “O oitavo dia: anunciação”. (Não sou místico mas muitas de minhas histórias costumam ser). Nessa história, o mundo é criado como uma semente que contém já, em seu interior, todo o seu desenvolvimento futuro. A tese fundamental do desenho inteligente, quando avaliada racionalmente, ameaça exclusivamente as concepções teístas, não a científica.

https://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4474237

http://www.virtualbooks.com.br/editora/img/livros/9788579532269.jpg

Nota 2

Tenho sido vítima de algo que pode ser apropriadamente denominado “fundamentalismo científico” e que decorre de um zelo absoluto pelas “verdades científicas” já estabelecidas. Essa vertente fundamentalista acredita em derradeiras provas científicas, como se revelações divinas. Para esse grupo, tendo sido provadas, “verdades” científicas tornam-se inquestionáveis, transfigurando em heresia qualquer questionamento sobre tais revelações, impossibilitando a crítica das crenças vigentes, transformadas em dogmas.

Biólogos fundamentalistas têm atacado sistematicamente meus trabalhos, especialmente os mais heréticos, os que contestam verdades estabelecidas. Existem biólogos fundamentalistas trabalhando nas universidades, pasmem.

Tais criaturas têm, sistematicamente, “abafado” meus vídeos na internet, dificultando o seu acesso através dos motores de busca, como o google.

Eis um deles:

Os sacripantas ainda vandalizaram textos em meu site. A espécie humana é uma fonte de surpresas inesgotável!

1 comentário

  1. Por falar em desenho inteligente, eu tenho estudado a proporção áurea de meados de dezembro até aqui. Tinha estudado o número pi mas nada sabia sobre o número fi (1+sqr5)/2. Quando entendi tal número, falei para minha filha sobre o retângulo de ouro, insinuando que o número fi seria uma prova da existência de um ser supremo. O que a proporção áurea tem a ver com um suposto Criador Inteligente?

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