5 de julho de 2026

Antonio Delfim Netto: Je suis grec, mais…

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do Valor

Je suis grec, mais…

Por Antonio Delfim Netto

A experiência grega é arriscada, mas fascinante. É um exemplo vivo de que só o jogo continuado entre a urna e o mercado é capaz, por caminhos raramente lineares, de colocar a sociedade na vereda civilizatória.

Vereda, porque a estrada virtuosa é estreita e pedregosa. Segui-la exige uma liderança forte, confiável, inteligente e com sorte. O voluntarismo desinformado que às vezes emerge das urnas nunca leva a ela. A tragédia é que as consequências sempre chegam tarde e, nos casos mais agudos, podem levar à interrupção do jogo, pois a graça eleitoral tem limite…

Honestamente, alguém pode pedir a um cidadão que depois de cinco anos de austeridade, sem ver qualquer sinal de esperança, tenha a paciência e a crença religiosa de prosseguir com a duvidosa solução “científica” que lhe foi imposta, no fundo, bem no fundo, pelo poderoso sistema financeiro internacional para proteger seus interesses? Não, porque a austeridade sem esperança briga com a democracia!

A experiência grega é arriscada, mas fascinante

Cansado de tomar o remédio amargo e de aceitar humilhado a reprimenda moralista que “ele comeu demais e agora é hora de descomer” o cidadão grego, em legítima defesa, decidiu-se por uma mudança radical. Felizmente, na minha opinião, ela talvez terá menos voluntarismo do que aparenta à primeira vista.

Alexis Tsipras e seu partido, o Syriza, receberam, através do sufrágio universal, a responsabilidade de devolver aos gregos a sua dignidade, minorar o seu sofrimento e reerguer a sua economia. Depois de 1.800 dias de angústia e desespero, de aceitar o maior socorro financeiro que se conhece (para pagar aos credores), de expiar os graves pecados que seus governos cometeram até 2009, os gregos resolveram jogar tudo para o alto.

Quando ficou óbvio que a trágica “receita” da “troika” (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) não funcionou, e que ele já não tem mais nada a perder, entregou-se ao seja lá o que um ateu quiser…

O PIB grego hoje, é 1/3 menor do que era antes da crise. A sociedade se desagrega diante do desemprego involuntário renitente, que atinge um em cada quatro de seus cidadãos dispostos a trabalhar. E, pior, assiste à destruição da sua geração mais jovem, metade da qual não vê nenhum futuro.

Diante desses fatos cruéis, a redução do déficit fiscal e a inversão do déficit em conta corrente, resultados da tal “receita” foi irrelevante, porque, por falta de crescimento (e, portanto, do emprego), a dívida pública que era de 130% do PIB em 2008, ronda hoje a 180%.

Isso tornou possível a Tsipras mostrar aos gregos que quem a “receita” da troika salvou mesmo, foram os banqueiros credores. Que ela é produto do uso de uma “falsa” ciência e que ele é o portador da “verdadeira”, que vai salvá-los.

O novo governo, com o apoio de radicais nacionalistas de direita, assumiu quebrando a louça. Anunciou no seu primeiro dia algumas medidas emergenciais: vai rediscutir a “receita”, suspendeu as privatizações (que ajudariam a pagar os credores internos e externos), anunciou um aumento de 30% no salário mínimo e a revisão da dispensa de funcionários públicos. Acendeu a luz vermelha em Bruxelas e em Frankfurt, que vai exigir mais capital para seus bancos.

Tenho dúvidas se o desgravatado Tsipras tem clara consciência da confusão em que se meteu e se será capaz de controlar o seu sucesso político e conformar-se com as limitações do seu voluntarismo na economia. A minha esperança é o seu importante ministro das Finanças, o conhecido economista Yanis Varoufakis, que tem um amplo domínio do “mainstream” e do keynesianismo, além de um bom olho no marxismo, o que lhe dá os nítidos limites do exercício da política social e econômica que terá de discutir com a troika.

Ele sabe que não há saída sem dor e que a solução do problema grego (como o brasileiro), está menos no numerador (controle do crescimento da dívida) e mais no denominador (o aumento do crescimento do PIB e do emprego), o que exige confiança e competitividade. Para entender como pensa Yanis Varoufakis, nada melhor do que ler o seu “Foundations of Economics – A Beginner´s Companion”, 1998.

Sou tentado – talvez ingenuamente – a acreditar que o “barulho” inicial foi um movimento da autoridade grega para colocar melhor as peças no xadrez que terá de jogar contra a troika. Aliás, Varoufakis é um especialista em teoria dos jogos.

Os dois contendores têm muito a perder (3/4 dos cidadãos gregos querem continuar na zona do euro). Por um lado, o experimento grego pode estimular cidadãos de outros países a imitá-lo. Por outro, o seu colapso poderá deixá-la sozinha, moralmente ainda mais enfraquecida e destinada a trilhar por muito tempo nas sombras do subdesenvolvimento.

É evidente que existe uma margem de compromisso possível entre os desejos da troika e as necessidades dos gregos. A dose de blefe e de realismo nesse jogo que Tsipras e Varoufakis utilizarão será decisiva para encontrá-la, porque os parceiros não aceitarão a chantagem crua.

Nos meus curtos 87 anos, já vi, sem aviso prévio, muito leão virar gato depois de rugir algum tempo assustando apenas a si mesmo e com os bolsos vazios…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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6 Comentários
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  1. Alexandre Weber - Santos -SP

    3 de fevereiro de 2015 5:21 pm

    Delfim surpreendente

    Mas…..hehehehe….. faltou a Suiça Delfim, esta que é a mais matreira de todas e têm as informações assimétricas que fazem a diferença, afinal gira o caixa 2 do planeta e já caiu fora.

    Nós, meros mortais aqui podemos especular e avançar algumas hipóteses que no caso são para lá de temerárias, mas que pelo andar da carruagem vêm a calhar no momento.

    A dívida americana e européia são impagáveis, o que nos dá 100% de certeza do calote.

    Isto coloca a Troika de tanga e pires na mão.

    Não vejo melhor hora do que agora para dar o default total  e renegociar, afianl somos ou não comerciantes.

     

    1. Alexandre Weber - Santos -SP

      4 de fevereiro de 2015 1:51 am

      Boletim da GATA hehe…

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      Financial Times, London
      Monday, February 2, 2015

      http://www.ft.com/intl/cms/s/0/182e3278-aa2e-11e4-8f91-00144feab7de.html

      The US Federal Reserve is coming under the most political pressure it has faced since the financial crisis, as Republicans who say it lacks transparency attempt to subject its monetary policy deliberations to external audit.

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      There is growing speculation that the Swiss National Bank has set a new target for the country’s currency, as the Swiss franc continues to tick lower against the euro.

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      By Henry Sanderson
      Financial Times, London
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      The replacement for the near-century old London gold fix will start in March, with the hope of attracting at least 11 members, including Chinese banks for the first time.

      UK financial authorities are undertaking an assessment of financial benchmarks in the wake of a series of scandals, including the gold fix.

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  2. Fr@ncisco

    3 de fevereiro de 2015 5:32 pm

    Os Velhos Lôbos

    Como Zagallo, Delfim perde o pêlo mas não perde o vício.

  3. wendel

    3 de fevereiro de 2015 7:03 pm

    Será ?????????????????

    Como  ele mesmo diz – ”  já ví muito leão virar gato depois de rugir algum tempo assustando apenas a si mesmo e com os bolsos vazios…”

    Isto não quer dizer que irá acontecer com o atual Ministro grego, mas …., a troika, não irá permitir a este mesmo governo que a desmoralize frente ao mundo!

    Algum mecanismo irão tentar para solucionar este impasse, e acredito que, mesmo que haja alguma perda para os gregos, alguma claussula deverá ser mudada nestes acordos que só fazem saquear o povo deste pais, e vários outros que sofreram e ainda sofrem nas mãos destes abutres !!!!!!!!! 

  4. valney

    3 de fevereiro de 2015 10:59 pm

    A sorte dos gregos não está
    A sorte dos gregos não está exclusivamente com seu novo governo, mas especialmente com o povo espanhol. As eleições da Espanha será um divisor de águas na Europa.

  5. altamiro souza

    3 de fevereiro de 2015 11:35 pm

    no começo delfim acredita na

    no começo delfim acredita na democracia, no final duvida….

    é a velha escolha delfínica…fazer crescer o bolo para depois distribuir….

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