Ocidente cognitivo, o “privilégio do absurdo”
por Antônio Sales Rios Neto
“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram.
O tratado sobre mitologia saxônica que Beda não escreveu.
A obra inconcebível que Dante talvez vislumbrou,
após a correção do último verso da Comédia.
A história sem duas tardes: a da Cruz e a da Cicuta.”
Luis Borges
“Vendo-se em um mundo que não entendem,
os seres humanos sempre criarão mundos imaginários
que também serão ininteligíveis.”
John Gray, sobre os versos de Borges
Se há algo que possamos afirmar com alguma assertividade acerca do desajustado mundo humano é que, diferentemente do que ocorre com os outros animais, ele aparenta não ter nenhuma coerência (consistência interna) e correspondência (consistência externa) com o imperscrutável mundo real. Tudo o mais que já se afirmou para além disso parece, portanto, pertencer ao campo da especulação, o que não significa dizer que não devemos continuar investigando as causas da aparentemente irremediável insensatez que caracteriza o comportamento do Homo sapiens moderno, protagonista do inesgotável palco de guerras, massacres, destruições e genocídios que fez da tragédia o sentido da História.
Essa perturbadora incongruência, inata à condição humana moderna, já havia sido identificada por grandes pensadores, como é o caso do pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939). Tentando desvendar os perenes e inarredáveis conflitos da psiquê humana, Freud percebeu que há uma tensão entre o que ele chama de “princípio do prazer” e o “princípio da realidade”, o permanente conflito interno decorrente de um insolúvel confronto entre o Eu e o que se situa “fora” dele, entre o mundo interior e o mundo exterior. Para Freud, “este princípio (do prazer) domina o desempenho do aparelho psíquico desde o começo; não há dúvidas quanto a sua adequação, mas seu programa está em desacordo com o mundo inteiro, tanto o macrocosmo como o microcosmo.”
Num mundo em que o conflito e, por consequência, o medo de ser excluído ou (no caso dos conflitos humanos mais agudos) eliminado pelo outro se torna a regra, não há como conceber que um processo civilizador esteja realmente em curso e, assim, possamos vislumbrar um futuro reconhecível para a humanidade. Daí talvez resulte o fato das necessidades humanas de segurança e liberdade, bem como o desejo obsessivo de ludibriar a morte, terem ganhado, desde tempos imemoriais, tanta centralidade na convivência humana. Num mundo em que o outro, incluindo-se a Natureza (com a qual deveríamos estar integrados, e não dela apartados), é um obstáculo ou ameaça, o animal humano está sempre buscando os meios de dominação e controle ao seu alcance para garantir sua autopreservação.
O que é mais contraditório nessa incongruência inerente à condição humana, que aparenta ser a questão primordial da inquietação humana, é que ela constitui o âmago e a razão de existir da própria filosofia e das religiões, sobretudo as monoteístas, as quais, para tentar garantir algum nível de segurança e liberdade para as sociedades, sempre desnorteadas por interesses conflitantes, criaram a teologia e a teleologia para contornar e atenuar a conflituosa convivencialidade entre os homens e dar algum significado ao incompreensível mundo humano.
Inequivocamente desconectada da complexidade do mundo real, esta aparenta ser a única lógica que governa o desajustado, conflituoso e autodestrutivo mundo dos homens, bem sintetizada nas palavras de Thomas Hobbes (1588-1679), um dos nomes mais influentes do entendimento humano: “o privilégio do absurdo, ao qual nenhum ser vivo está sujeito, exceto o homem. E entre os homens aqueles que professam a filosofia são de todos os que lhe estão mais sujeitos.” Hobbes era um materialista pragmático que, apesar de não ver outra forma de contenção da agressividade humana (supostamente inerente ao nosso “estado de natureza”) que não fosse pela via do controle a cargo do Leviatã – o poder do Estado soberano absoluto, parecia ter plena consciência de que o invento humano chamado Civilização não é algo natural.
Escapar dessa desesperançosa percepção acerca da condição humana, que para muitos está traduzida na visão hobbesiana da “guerra de todos contra todos”, talvez esteja a saída para a humanidade conseguir atravessar este incognoscível século XXI. Incognoscível porque não há como vislumbrar como sairemos dele, haja vista as três impossibilidades civilizatórias que ele carrega: 1) a aceleração descontrolada das mudanças climáticas, rumo ao colapso ambiental; 2) o fenômeno da mercantilização da vida, agora hiperturbinada por predadores digitais; 3) a vertigem de uma potencial iminência de conflito geopolítico nuclear global.
O que parece reforçar assustadoramente esse drama existencial é que, do ponto de vista cognitivo, o Homo sapiens moderno limitou-se e condicionou-se a duas estratégias psíquicas de compreensão e interação com a sua conflituosa condição. De um lado, abraçou a teologia, a percepção de que há uma Entidade transcendente no controle da realidade; e, do outro, fundou a teleologia, a crença de que a Razão é a única força capaz de proporcionar e garantir um desejado progresso civilizatório. Estratégias que se fizeram necessárias desde a sua célebre expulsão do Jardim do Éden. Nos 2.500 anos em que esses dois condicionamentos cognitivos operaram em complementaridade, sempre convergindo na ideia de que o universo e a existência humana possuem um propósito intencional e finalístico, supostamente governado por uma inteligência superior ou plano divino, o máximo que se alcançou foi atenuar a inquietação humana diante de um mundo recorrentemente e crescentemente intratável.
O que é possível, agora, ao animal humano fazer, já que, diante das três impossibilidades civilizatórias mencionadas acima, seu mundo está inequivocamente imbricado numa agonia terminal?
Ao que a História demonstra, precisamos, portanto, vislumbrar entendimentos para além das abstrações greco-judaicas que forjaram o projeto civilizador do Ocidente, como parecem sugerir as duas epígrafes que iniciam este texto, nas quais o escritor britânico John Gray sintetiza, em um dos seus enigmáticos ensaios (O silêncio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos – Record, 2017), a condição humana a partir de um dos muitos versos nostálgicos do genial poeta argentino Luis Borges (1899-1986). Refletindo sobre o desejo de Borges de que não houvessem as “duas tardes”, Jesus na cruz e Sócrates bebendo cicuta – que, como se sabe, moldaram toda a conflituosa história do Ocidente –, Gray conclui que, tal como o amálgama ficcional resultante da interação entre essas duas personalidades fundantes da cognição ocidental, são os mitos criados pelos humanos que, para o bem ou o mal, definem o seu modo de viver:
“Aparentemente contrastantes, essas duas mortes transmitem a mesma segurança. Jesus é uma encarnação de Deus, um Ser eterno, ao passo que Sócrates (tal como representado por Platão) tem acesso a um reino de formas eternas. Suas vidas são exemplos de logos – um princípio de ordem – em ação na história.
É verdade que, sem essas duas tardes, a história certamente teria sido diferente. Mas a vida continuaria governada por ficções.”
Independentemente dos eventos que ajudaram a germinar e a forjar a longuíssima história do Ocidente, o fato é que parece haver uma força maior a conduzir e conservar o mundo humano como ele sempre se apresentou, condicionando-o irremediavelmente à lógica do conflito interno, que alimenta e amplifica as inesgotáveis guerras, massacres e destruições já registrados pela História. Parece haver, portanto, uma espécie de Ocidente cognitivo que, guiado por mitos que operam na contramão da complexidade do mundo real, dominou e ainda domina o pensamento humano para além da sua sociabilidade animal. Por isso, talvez valha a pena investigar as raízes desse Ocidente psíquico.
Ocidente cognitivo – a origem da excentricidade do mundo humano
Até onde se avançou nos estudos de antropologia cultural, a ontologia humana (compreendendo o Homo sapiens e seus antecessores – taxionomicamente chamados de Hominini) se deu num processo em que todos os aspectos da vida dos primatas hominídeos foram condicionados culturalmente, ou seja, contextualmente. Assim, as mais remotas culturas humanas, desde a pré-história, cada uma com seus valores, crenças, costumes, linguagens, práticas, símbolos etc, constituem redes consensuais de ações e emoções que, conservadas de forma transgeracional, engendraram uma multiplicidade de modos de vida, acoplados a diferentes contextos sociais e ambientais.
No entanto, do ponto de vista das ciências sociais, o reconhecimento dessa diversidade de modos de vida só foi possível no final do século XIX, em razão do que se chamou de relativismo cultural – o entendimento de que não há uma cultura “superior” ou “inferior”, “melhor” ou “pior”. Quem articulou inicialmente essa ideia foi o antropólogo Franz Boas, em 1887. Dizia ele: “a civilização não é algo absoluto; é relativa, e nossas ideias e concepções só são verdadeiras em relação à nossa civilização”.
Esse relativismo cultural significou um avanço em relação à abordagem da evolução unilinear vigente à época, que colocava a Cultura Ocidental no ápice da evolução das sociedades humanas. Ou seja, contrariando e interrompendo o fluxo ontológico dessa diversidade cultural inerente ao viver humano, o longuíssimo processo de formação do que hoje se conhece por Cultura Ocidental, bem como sua hegemonia conquistada sobretudo na esteira da globalização do capitalismo financeiro ocorrida no final do século XX, forjou-se a partir de um determinismo metafísico e histórico, e não mais contextualmente, estando em congruência com os ciclos naturais – os processos complexos que regem a teia da vida.
Segundo sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), “a ideia de civilização expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo”. Elias foi talvez um dos que melhor identificou, por meio de um abrangente estudo condensado em dois volumes (O processo civilizador, 1939), os mecanismos de “controle social” e de “autocontrole” que induziram o comportamento humano e forjaram o longo processo civilizador. Esse processo civilizador constitui a marcha expansiva e irrefreável dos ideais do Ocidente, oriundos dos ideais greco-judaicos e seus sucedâneos romano-cristãos – em especial o mito do progresso – que emergiram nas cercanias do Mediterrâneo por volta de doze séculos antes de Cristo.
Mas o Ocidente é uma ideia que, embora consolidada culturalmente somente por volta do século XV, quando a Europa começou a se definir em oposição ao resto do mundo, espelha a própria noção de Civilização e de História. Para além do seu significado geográfico e temporal, a ideia de Ocidente carrega na sua essência um componente cognitivo que é o enquadramento da condição humana às dimensões teológica e teleológica, abstrações criadas pelo homem para lidar com as insuportáveis contingências da sua conflituosa realidade que, segundo evidências da antropologia e da arqueologia, vem predominando desde os últimos seis ou sete mil anos.
Este talvez seja o principal elemento formador da noção de Civilização, ou do chamado homem dito civilizado. Portanto, investigar como esse enquadramento doutrinário foi forjado talvez forneça as pistas para entendermos como chegamos às agonias que definem o tempo presente e quais são as possíveis brechas para escaparmos do crescente e aparentemente insolúvel conflito humano que arrastou toda a humanidade para o abismo existencial que está bem à nossa frente. Essa psiquê ocidental pode constituir-se, nessa perspectiva, como a principal fonte que alimenta aquilo que o antropólogo Alexei Yurchak chamou de hipernormalização, uma psiquê coletiva irrefletida que normaliza o mundo humano como ele se apresenta, sempre conflituoso e autodestrutivo, tornando invisível e silenciosa a nossa ruína enquanto espécie animal.
Parece haver, nessa perspectiva, um Ocidente psíquico, principal condutor da história da humanidade, que, funcionando sob a lógica da dominação e da apropriação de realidades que são inerentemente incontroláveis, constitui-se como elemento comum a todas as grandes civilizações e culturas que se desenvolveram nos últimos seis milênios. Ele não é, portanto, uma exclusividade do que se entende hoje por Mundo Ocidental. Esteve também presente nas civilizações antigas, incluindo-se as do lado oriental, estudadas pelos historiadores e arqueólogos, como é o caso das que foram identificadas pelo historiador britânico Arnold Toynbee, registradas na sua grande obra Um Estudo de História (1934 a 1961). Está hoje presente naquelas que foram recentemente propostas no Choque de Civilizações (1993), do cientista político Samuel Huntington.
A explicação mais razoável sobre qual teria sido o gatilho para que esse fenômeno cultural chamado Ocidente, hoje globalizado, por meio do qual os mitos associados a ideia de dominação e apropriação se sedimentassem na psiquê humana, pode ter sido causado pelas invasões patrocinadas pelos povos pastores guerreiros indo-europeus ou arianos, patriarcais, vindos das estepes euroasiáticas, ocorridas entre sete e seis mil anos atrás, a chamada hipótese kurgan, que teriam mudado radicalmente o padrão cultural até então predominante dos povos pré-patriarcais (povos de culturas matrísticas) que habitavam a Europa Antiga. Essa hipótese foi levantada pela arqueóloga lituana Marija Gimbutas (1921-1994) e está registrada nos seus últimos livros: The Goddesses and Gods of Old Europe (1974), The Language of the Goddesses (1989) e The Civilization of the Goddess (1991).
Conforme se depreende hoje das descobertas na antropologia, arqueologia, linguística e outros ramos afins, existiram culturas pré-patriarcais que, cada qual operando ao seu modo e contexto, encontravam melhores condições de segurança e liberdade na vida comunal que levavam, baseada numa cooperação não hierárquica. Gimbutas apresentou seu estudo sobre a cultura kurgan em 1956, no qual ela combinava pesquisas de arqueologia e linguística com o objetivo de colher evidências no estudo dos povos de língua proto-indo-europeia. Ela mapeou três ondas migratórias desses povos kurgan que devastaram populações inteiras e causaram um enorme choque cultural na Europa Antiga: Primeira Onda, de 4300-4200 a.C.; Segunda Onda, de 3400-3200 a.C.; e Terceira Onda, de 3000-2800 a.C. “Graças ao número crescente de datações com radiocarbono, hoje é possível traçar as várias ondas migratórias dos pastoralistas da estepe ou povo kurgo, as quais varreram a Europa pré-histórica”, afirmava Gimbutas.
Um dos estudos mais aprofundados sobre este longo processo de ruptura cultural está registrado no livro O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro (1ª edição em 1987, prefaciado pelo neurobiólogo chileno Humberto Maturana), da socióloga austríaca Riane Eisler, no qual ela aborda não só o trabalho de Gimbutas mas de outros renomados arqueólogos como o britânico James Mellaart (1925-2012), que chamou essas ondas kurgan de “padrão desintegrador”. O Ocidente cognitivo trata-se, portanto, de um processo milenar de conservação cultural, que, gradualmente, foi apagando nossas ancestralidades. Abordei esse assunto com mais aprofundamento em dois textos intitulados Pistas para entender a agonia patriarcal e Como nasceu e germinou a civilização patriarcal.
A cognição ocidental é, provavelmente, resultante dessa prevalência milenar da Cultura Patriarcal, que deu origem às três ordens políticas que tentaram (e continuam tentando) em vão superar o conflituoso mundo humano. São elas: a militar, a religiosa e a comercial, sobre as quais abordei recentemente no texto Mercado, a última parada do Ocidente patriarcal?. A partir delas, generais, sacerdotes e mercadores se reversaram no poder e sempre dominaram o destino dos povos e civilizações. A psiquê ocidental está condicionada a estas três ordens políticas, que, não por acaso, abarcam os três temas mais vastos do conhecimento e quase todos os aspectos da experiência humana (sobretudo da cultura ocidental hegemônica), já registrados: a guerra, o monoteísmo e a atividade comercial. Se retirarmos essas três expressões culturais do cotidiano das sociedades, que sempre foi guiado por uma cosmovisão patriarcal e ocidentalizado em todas as suas dimensões, suas vidas, sobretudo as das autoridades constituídas, se tornariam um enorme vazio de sentido e de significado.
A simbiose entre essas três ordens políticas define o Ocidente e sua dissonância cognitiva, pois são elas que compõem o realismo político identificado por Maquiavel, Hobbes, Clausewitz e outros, sobre o qual parece não haver saída, condenando a humanidade à autodestruição. Trata-se, portanto, de um aprisionamento cognitivo fundado nas dimensões teológica e teleológica da compreensão de mundo que forjou o Ocidente: a ideia de que forças do Bem e do Mal sempre governaram o conflituoso mundo dos homens e de que um logos guiado pela Razão caminha inexoravelmente para superá-lo. Constituem, desse modo, abstrações humanas frontalmente desconectadas do mundo real, haja vista os distúrbios de escala planetária a que chegamos na atualidade.
O mundo ocidental, que conduziu a humanidade e forjou a civilização tal como a conhecemos hoje, é resultante de um longuíssimo percurso que está assentado nessas três principais ordens políticas, intimamente imbricadas e interdependentes, que se mesclaram e se reforçaram mutuamente ao longo dos últimos seis mil anos da sangrenta e mórbida história humana. Isso explica, por exemplo, porque a cognição ocidental nunca comportou a coexistência de várias nações dentro de uma conformação multipolar (com predominância militar, religiosa, econômica e cultural, simultâneas) por muito tempo, sobretudo se essas nações estiverem operando fora dos padrões teológicos e teleológicos que configuram a psiquê ocidental.
A humanidade está, portanto, aprisionada num grande impasse cognitivo, que o biólogo e antropólogo inglês Gregory Bateson (1904-1980), autor do conceito de cismogênese (o termo significa “criação da divisão”, tendência a um padrão de comportamento em que indivíduos se definem em contraposição uns aos outros), expressou da seguinte forma: “a fonte de todos os problemas de hoje é o hiato entre como pensamos e como a natureza funciona”. Resumindo, eis o cerne do nosso problema antropológico: a vida matrística pré-patriarcal, cooperativa e não hierárquica, está no DNA da nossa espécie, conflitando por milênios com o desvio patriarcal desencadeado pelo ideário guerreiro e dominador kurgan, e mantido, século após século, por sacerdotes, generais e mercadores.
Inclusive, não é difícil perceber que essa condição matrística originária se faz presente no ser humano em geral, seja ele um cristão, muçulmano, hindu, ateu, liberal, conservador ou qualquer outra matiz étnica-política-religiosa (aliás, todas essas divisões são desdobramento do longo e nefasto percurso da Cultura Patriarcal milenar). Apesar do neoliberalismo ter nos empurrado para a atual era do individualismo narcísico, essa condição matrística ainda se expressa naturalmente nas mais variadas comunidades. Pessoas comuns, independentemente de estarem contaminadas pelo ideário patriarcal, manifestam seus afetos em suas interações cotidianas sempre valorizando mais o cuidado com o outro e com o seu meio ambiente. Esse comportamento é observado, por exemplo, sempre que há grandes catástrofes assolando a vida de muitas pessoas. No íntimo, todos queremos, apreciamos e estamos sempre buscando uma convivência pacífica, porém somos constantemente confrontados, influenciados e moldados pelos mitos e ficções patriarcais de apropriação da realidade que movem as engrenagens de poder instituídas, nos âmbitos religioso, militar e econômico que condicionam as sociedades.
Portanto, reconhecer que o Homo sapiens moderno, aquele forjado a partir do fenômeno antropológico que alçou a Cultura Patriarcal como sua condição predominante, está preso a um desvio comportamental radical provocado por circunstâncias históricas muito peculiares (as migrações invasoras dos povos guerreiros indo-europeus), talvez esteja a saída para escaparmos desse Ocidente cognitivo que, neste conturbado século XXI, vem flertando com a possibilidade de um colapso civilizatório global.
O paroxismo climático e geopolítico – estágio agônico do Ocidente cognitivo
O atual sistema-mundo capitalista sedimentou-se após as agruras da Segunda Guerra Mundial, por meio de eventos geopolíticos definidores da ordem global atlanticista que prevaleceu nos últimos 80 anos, como a Conferência do Atlântico (agosto de 1941), os acordos de Bretton Woods (julho de 1944), a criação da ONU (outubro de 1945) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN (abril de 1949). Embora esse sistema-mundo tenha dado à humanidade uma sensação de comunidade de segurança, sob a tutela estadunidense, proporcionando o longo período de estabilidade interestatal conhecido por ordem internacional liberal baseada em regras (OBR ou OIL), contraditoriamente sempre se sustentou na instabilidade, produzindo e se retroalimentando de crises recorrentes e progressivas.
Nas últimas duas décadas, tem sido consenso entre muitos analistas geopolíticos a ideia de que essa ordem mundial baseada em regras, que teve seu primeiro grande sobressalto na crise do subprime de 2007, amplificou-se com a crise econômica da Covid-19 em 2020, deteriorou-se com a guerra na Ucrânia e o genocídio em Gaza, parece ter ruído completamente em 2025 com a segunda chegada do magnata Donald Trump à presidência dos EUA, principal patrocinador, junto com o belicista Benjamin Netanyahu, da convulsão global gerada pelo ataque ao Irã, agora em 2026.
O Ocidente atlanticista, liderado pelos EUA, está inequivocamente em decesso acelerado, mas o Ocidente cognitivo ainda está em franca ascensão. Quem o incorpora hoje, aliando-se psiquicamente aos ideais iluministas, são as autocracias em ascensão (incluindo-se a estadunidense), guiadas pelos ideais nacionalistas, conservadores, xenófobos e mercadológicos capitaneados pela ultradireita.
A instabilidade geopolítica daí gerada tem como desdobramento a percepção de que uma nova “ordem global multipolar” estaria em andamento. Mas a História, que no fundo constitui um espelho da evolução e da hegemonia desse Ocidente cognitivo, nos ensina que o próprio conceito de ordem global pressupõe a existência de um império ou de uma nação hegemônicos. Foi assim ao longo de toda a Era Cristã (e secular), começando pelo Império Romano (27-395 d.C.), seguido dos impérios Bizantino (395-1453), Romano-Germânico (800-1806), Britânico (1583–1783) e agora o decadente imperialismo Americano (1803-2001).
No entanto, contrariando o fluxo da história milenar patriarcal, parece não haver nenhum candidato ao posto de policial do mundo. Nem mesmo a crescente exuberância econômica da China ou a proeminência militar da Rússia, embora estas representem as sombras residuais desse Ocidente cognitivo, que inequivocamente está em seu último estágio, conseguiria galgar tal intento, face às atuais circunstâncias de esgotamento civilizatório e de policrise global terminal que a humanidade enfrenta.
O imperialismo vigente hoje é difuso e imperceptível, e seu principal agente se chama Mercado. Nações de dimensões continentais como China, Rússia e Índia, bem como muitas outras nações que orbitam na esfera de influência desses novos Leviatãs, como é o caso do Irã, Paquistão, Coreia do Norte, também assumiram as duas principais dinâmicas cognitivas geopolíticas do Ocidente: o mercado expansionista termo-fóssil e a lógica do armamento (sobretudo o nuclear), como forma de superar suas limitações e assegurar suas soberanias hobbesianas. É a ascensão dessas novas potências regionais conflitantes que hoje compõe as sombras desse Ocidente cognitivo terminal, pois não dispõem mais de recursos naturais a serem predados, nem de uma arena terrestre segura para se digladiar sem arrastar toda a humanidade para o abismo, haja vista o poder de autodestruição total assegurada por seus artefatos nucleares.
Alguns desdobramentos decorrentes da Grande Aceleração desencadeada desde a década de 1950 comportam alguns ineditismos na história da humanidade que reforçam a tese de que o que estamos vivenciando não é somente uma mudança na ordem global, e sim uma encruzilhada civilizatória, de cunho antropológico, que provavelmente caminhará no fio da navalha entre o colapso socioambiental, podendo ser amplificado por guerras ou uma conflagração nuclear global (o que enceraria prematuramente a aventura humana), e uma, hoje improvável, ruptura civilizatória sobre a qual ainda não é possível vislumbrar qual seria sua gênese, dinâmica e implicações.
Nessa perspectiva, uma nova conformação política global nunca se constituiu como um pacto de boas intenções para manutenção de um sistema de governo pacífico entre os homens, mas sim um fenômeno emergente resultante de forças geopolíticas e geoeconômicas que operam silenciosamente, sempre sob a égide da Cultura Patriarcal milenar. No entanto, pelo menos três principais marcos temporais parecem evidenciar que esse Ocidente cognitivo esbarrou em seus limites lógicos e que, portanto, estamos imersos num impasse civilizatório cujo desfecho ainda não é possível prever. São eles:
1) 1945, a insanidade do armamento nuclear: o desenvolvimento de artefatos bélicos a partir de reações nucleares de fissão ou fusão, iniciado no contexto da Segunda Guerra Mundial com o Projeto Manhattan e aplicado sobre Hiroshima e Nagasaki, levou a lógica hobbesiana ao seu paroxismo: pela primeira vez, uma guerra entre nações teria o poder de destruição de aniquilar a vida na Terra. Sabemos que os muitos acidentes em usinas nucleares já ocorridos, como foi o caso da catastrófica tragédia de Chernobil em 1986, mostram que, mesmo aqueles países com grande capacidade de gerenciamento e mitigação de desastres, como ocorreu em Fukushima em 2011, a ideia de segurança nuclear global num mundo governado por disputas ideológicas, étnicas, religiosas e comerciais conflitantes, cujas raízes muitas vezes envolvem desavenças milenares, é uma quimera.
Apesar do empenho diplomático entre nações para lidar com crises nucleares – como ocorreu nos emblemáticos casos da crise dos mísseis cubanos em 1962 e do exercício de lançamento nuclear Able Archer da OTAN em 1983 –, mediante a criação de protocolos de desarmamento, o mundo hoje nunca esteve tão suscetível quanto à real possibilidade de uma conflagração nuclear em escala global. 1945 inaugura, portanto, o primeiro limite do Ocidente cognitivo: o de que a lógica da guerra entre as grandes potências militares está esgotada. O que constata esse limite é o fato de que, nos últimos 80 anos, nenhuma nação dotada de meios nucleares ousou utilizá-los contra seus inimigos.
2) 1971, a ultrapassagem da biocapacidade da Terra: por conta dessa estabilidade interestatal ocorrida no pós-Segunda Guerra, em boa medida garantida pela inovação do artefato nuclear inaugurado em 1945, deflagrou-se o processo de crescimento demoeconômico ilimitado responsável pelo fenômeno da Grande Aceleração desenvolvimentista iniciada com os Trinta Anos Gloriosos (1945-1975) – que permitiram o Estado de bem-estar social americano, europeu e japonês (1947-1973). Foi a partir desse avanço geoeconômico exponencial que a capacidade dos ecossistemas de produzir materiais biológicos renováveis e absorver resíduos gerados pelo homem, medida em hectares globais (GHa), foi ultrapassada em 1971. Desde essa época, a humanidade vem consumindo mais recursos do que o planeta consegue regenerar, resultando num crescente e incontrolável déficit ecológico.
Essa Grande Aceleração ganha mais impulso ainda com o ingresso dos Quatro Tigres Asiáticos – Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan (entre 1960-1990) e, especialmente, do Império do Meio (a partir de 2000) na dinâmica de Mercado, o principal sustentáculo do Ocidente cognitivo na contemporaneidade. E nesse já agônico e decisivo decênio em que nos encontramos, a Índia, um país continental com 1,5 bilhão de habitantes, está em acelerado desenvolvimento para ser também incluída no padrão de consumo ocidental. O ano de 1971 representa, assim, a ultrapassagem do segundo limite do Ocidente cognitivo, pois, desde este ano, estamos consumindo uma Terra que não existe, acelerando perigosamente o processo de colapso ambiental que já se encontra beirando a irreversibilidade.
3) O limiar temporal da irreversibilidade: estamos agora bem próximos do limiar da irreversibilidade, as chamadas fronteiras planetárias ou tipping points (pontos de não retorno) da mudança climática, os limites críticos do sistema terrestre para a habitabilidade do planeta, cujo marco temporal de mitigação, segundo a comunidade científica, provavelmente se dará nesta década. Se esses limites forem ultrapassados, o sistema climático sofrerá alterações severas, abruptas e autoperpetuadas, tornando sua reversão ao estado original impossível, pelo menos na escala de tempo humana. Com o aquecimento global, em curso há mais de cinco décadas, ultrapassarmos em 2024 a meta de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, estabelecida no Acordo de Paris, o que nos aproxima perigosamente desses pontos de irreversibilidade.
O consenso científico é o de que o que for feito ou não para mitigar as mudanças climáticas até 2030 definirá o futuro da humanidade. Esse consenso está inequivocamente dissecado no livro-dossiê O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Editora Elefante, 2023), do pesquisador da Unicamp, Luiz Marques, que vem acompanhando sistematicamente os estudos e alertas de renomados cientistas do clima, como é o caso do respeitado climatologista australiano Will Steffen (1947-2023), falecido recentemente, para quem “estamos numa bifurcação. Não teremos outra década para hesitar como fizemos na década passada.” Segundo o cientista sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK), sediado na Alemanha, “de acordo com a evidência que temos hoje, minha conclusão é de que o que fizermos entre 2020 e 2030 será decisivo para o futuro da humanidade na Terra.”
Sim, provavelmente inauguraremos por volta de 2030 uma nova fase histórica de elevadíssimos riscos planetários (e, até mesmo, existenciais), já reconhecida pela própria comunidade científica, que, considerando os riscos implicados tanto do desenvolvimento nuclear iniciado em 1945 quanto da catástrofe climática em andamento, passou a estabelecer um marco de término civilizatório simbolizado pelo Relógio do Juízo Final. Segundo esse instrumento escatológico criado em 1947 pelo Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago, a humanidade está, considerando-se os parâmetros de destruição antrópica perpetrada até o ano de 2025, a apenas 85 segundos da meia-noite, ponto mais crítico registrado na sua longa série histórica (1947-2025).
Esses três marcos temporais anunciam a falta de fôlego da Cultura Patriarcal milenar que forjou o Ocidente cognitivo ao qual o Homo sapiens moderno ficou irremediavelmente condicionado, desencadeando o longo e imperceptível processo antropogênico de autodestruição autoinfligida. Após 2030, a humanidade provavelmente experimentará um mundo irreconhecível, sob a confluência da agudização de muitas realidades severamente distópicas: clima cada vez mais hostil aos seres humanos, regimes autoritários vigilantes operando exclusivamente sob a lógica predatória do Mercado e, como consequência, comportamentos psíquicos cada vez mais depressivos e sociopáticos. Essa conjunção de realidades distópicas reforça aquilo que o filósofo e sociólogo Edgar Morin vem denunciando há tempos, a percepção de que, ao longo da História, a humanidade sempre esteve ameaçada por duas barbáries interligadas, que se reforçaram mutuamente no nosso chamado processo civilizador:
“Estamos ameaçados, cada vez mais, por duas barbáries. A primeira barbárie a gente conhece, vem desde os primórdios da história, que é a crueldade, a dominação, a subserviência, a tortura, tudo isso. A segunda barbárie, ao contrário, é uma barbárie fria e gelada, a do cálculo econômico. Porque quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, não se vê mais os seres humanos.”
A barbárie histórica é conhecida desde os primórdios da história humana. Está associada ao padrão cultural estabelecido desde as migrações invasoras indo-europeias, gerando dominação, hierarquia, guerra, fanatismo e a normalização da violência como elemento constituinte do processo civilizador. A barbárie da técnica é subproduto da barbárie histórica, constitui a barbárie moderna. Ela surge do pensamento fundado apenas na lógica puramente econômica, racional e burocrática, que ignora os aspectos humanos e afetivos. Essa barbárie desumaniza o humano ao tratá-lo como números ou mercadorias. A civilização atual é um paradoxo onde a técnica e a eficiência (segunda barbárie) muitas vezes potencializam a violência e a exclusão promovidas pelas engrenagens de dominação (primeira barbárie).
A agudização da cognição ocidental, neste século XXI, face aos limites lógicos por ela ignorados – o colapso climático em curso e a conflagração nuclear iminente –, representa também uma transição de época demasiadamente perturbadora, pois as potencialidades humanas que poderão emergir ainda são totalmente incertas. Como essa cognição sempre constituiu a única lógica do mundo humano durante seis milênios, a consumação do seu provável esgotamento nas próximas décadas nos coloca diante do imponderável: o mundo humano se esgotará junto, ou será capaz de restaurar sua cognição ancestral?
É possível escapar do “privilégio do absurdo” que afaga a psiquê ocidental?
Talvez seja premonitório o fato dos últimos seis milênios de predominância da Cultura Patriarcal terem se desdobrado na palavra-síntese “Ocidente”, cujo significado está ligado à noção de “queda”. Ocidente representa o “ocaso”, oriundo do latim occasus, que significa pôr do sol, aquilo que nunca deixa de decair, num processo aparentemente infindável, mas que culminará inevitavelmente com a sua morte. Essa percepção do Ocidente foi recentemente apresentada pelo filósofo italiano Giorgio Agamben: “O Ocidente existe e se governa apenas no tempo de seu fim e de seu declínio assíduo e, como seu Deus, está inexoravelmente em processo de morte.”
Afirmar que esse Ocidente cognitivo – que impôs à subjetividade humana um único modo de viver hierarquizado, fragmentado, competitivo, excludente e predatório, provavelmente despertado seis mil anos atrás, com as invasões patrocinadas pelos povos pastores guerreiros kurgan – sempre constituirá a normalidade da vida dos humanos só se sustenta enquanto houver recursos naturais a serem consumidos e armas a serem usadas para eliminar o outro cujos desdobramentos não resultem numa autodestruição planetária. Mas essas duas lógicas predatórias e ecocidas, conforme comprova a própria comunidade científica, já estão operando bem acima dos limites geofísicos. Se é que a humanidade ainda tem alguma margem de viabilidade, a questão que se coloca é se seria possível escapar desse buraco negro psíquico infligido pelo longuíssimo processo de conservação da Cultura Patriarcal.
A principal característica desse padrão patriarcal milenar que configura e condiciona o modo de viver do Homo sapiens moderno, desde tempos imemoriais, é a sua capacidade autopreservação. Uma cosmovisão resulta de um processo recursivo entre observador e objeto observado, em que a percepção da realidade produz e se retroalimenta da realidade percebida, o que o neurobiólogo Humberto Maturana chamava de processo de conservação de uma cultura estabelecida, isto é, de um modo de viver predominante. Esse condicionamento cognitivo parece ter muito a ver com o insight mais importante do filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860): “o mundo é a minha representação”, que Maturana traduziu nos seguintes termos:
“Uma cultura é, constitutivamente, um sistema conservador fechado, que gera seus membros à medida que eles a realizam por meio de sua participação nas conversações que a constituem e a definem. (…)
Ao crescer como membro de uma cultura, cresce-se imerso de modo natural e como algo que se aceita como próprio e espontaneamente desejado. Isso ocorre numa rede de conversações que implicam um emocionar que especifica, operacionalmente, o conjunto de premissas que fundamenta as distintas argumentações racionais dessa cultura. Para os membros da comunidade que a vivem, uma cultura é um âmbito de verdades evidentes. Elas não requerem justificação e seu fundamento não se vê nem se investiga, a menos que no futuro dessa comunidade surja um conflito cultural que leve a tal reflexão. Esta última é a nossa situação atual.”
Foi por meio desse enlace cognitivo que o Homo sapiens ocidentalizado antropomorfizou a sua própria ontologia, sob o condicionamento da cosmovisão patriarcal desencadeada, provavelmente, a partir das migrações invasoras Kurgan. Desde que a Cultura Patriarcal se instalou, os seres humanos têm sido movidos por um impulso de apropriação, controle e domínio de uma realidade cada vez mais intratável. Como diz o escritor John Gray, “negar a realidade para preservar uma visão de mundo não é uma prática limitada aos cultos. A dissonância cognitiva é a condição humana normal.”
Recentemente, o filósofo italiano Franco Berardi (Bifo) sintetizou bem como esse Ocidente cognitivo está enraizado na cultura humana e o quanto é difícil superá-lo:
“A distopia predomina no imaginário contemporâneo, na produção literária e na cinematográfica. As catástrofes que tomam conta das geleiras e florestas, mares e cidades talvez pudessem ser controladas, embora seja difícil que os danos causados a esses ecossistemas possam ser revertidos. Mas o colapso da mente coletiva torna improvável que possamos sair com vida. O fato de se continuar investindo na guerra, enquanto se produz o aquecimento, a degradação e a acidificação dos oceanos, é um sinal inegável de um colapso mental. Devemos, portanto, nos ocupar deste fato para compreender em que ponto estamos na parábola descendente destinada a conduzir a humanidade à sua extinção.”
Portanto, o colapso ambiental em acelerado curso desde os anos 1970, o atual flerte geopolítico com uma conflagração nuclear global e as ameaças da incontrolável disrupção algorítmica em curso não são um acidente histórico ou um mero evento contingente, mas o coroamento final desse modelo civilizatório milenar oriundo do fenômeno antropológico chamado Cultura Patriarcal. Fomos tão eficientes em dominar e explorar, que desestabilizamos a base da vida na Terra.
A agonia da geopolítica atual é apenas o desdobramento dessa longa escalada antropocêntrica, hoje refletida no pânico que a ascensão global da ultradireita representa, cujo projeto é enterrar de vez a possibilidade de uma convivência democrática, transformar o planeta num imenso Mercado e submeter o que ainda resta de vida social à vigilância dos algoritmos. São estes os novos Leviatãs que sustentam a continuidade da dinâmica patriarcal milenar, que continuam reforçando e exacerbando o atual sistema-mundo capitalista expansivo e predatório, e que, desse modo, estão minando a complexidade dos processos que regem e sustentam a vida no nosso planeta, da qual somos parte integrante e dependemos para viver.
A humanidade está vivenciando nos dias atuais o colapso resultante de um longuíssimo desvio antropológico. Um colapso paradoxalmente imperceptível e enganosamente confortável a uma ínfima minoria que compõe a elite dominante, os autocratas – generais, sacerdotes e mercadores – que precisam da manutenção e potencialização desse Ocidente cognitivo para conservar seus privilégios e desejos de apropriação. Trata-se, portanto, do paradoxo da hipernormalização da ruína civilizatória muito bem identificado pelo sociólogo Gil-Manuel Hernández i Martí: “ao impor a ficção de que o sistema é estável, os poderes dominantes que vivem dele não o salvam, mas agravam seu colapso”.
Esse mundo humano em acelerada decomposição decorre, portanto, de uma sucessão de desdobramentos do problema raiz antropológico da Cultura Patriarcal milenar que pariu esse Ocidente cognitivo ao qual ficamos irremediavelmente condicionados. Estamos agora diante de um impasse existencial que se impõem face à atual policrise terminal. É possível ao animal humano retornar à sua ancestralidade? Restaurar a sua condição matrística originária, em congruência com a complexidade do mundo real? Ainda há tempo para fazer tamanha transição cultural?
O quanto do que cada um de nós estiver disposto a renunciar às ilusões desse Ocidente cognitivo decidirá o que prevalecerá nesse insondável século XXI: a insensatez do colapso socioambiental ou uma ruptura civilizatória restauradora. E talvez a renúncia a esse Ocidente cognitivo – ilusoriamente confortável ao 1% que integra as elites dominantes, miseravelmente aviltante ao restante da humanidade e ao nosso degradado sistema Terra, e inequivocamente autodestrutivo – esteja em tentar ver o mundo a partir do que propõem os labirintos poéticos de Luiz Borges, sem as duas tardes: a da Cruz e a da Cicuta, os dois principais mitos que asseguraram o “privilégio do absurdo” do inebriante processo civilizador que afaga as mentes ocidentais.
“Todos nós saboreamos o mal do Ocidente.”
Emil Cioran
NOTA: este texto contou com uma proveitosa leitura crítica do articulista Ruben Bauer Naveira, colaborador do Outras Palavras, a quem agradeço.
Antônio Sales Rios Neto – Servidor público federal. Estudioso da cultura patriarcal (entendida como principal elemento constitutivo do processo civilizatório e propulsor do antropoceno) e das novas abordagens da Complexidade (um dos meios de superação do patriarcado). Coordenador, representando o Brasil, do projeto “La Emergencia de los Enfoques de la Complejidad en América Latina”, iniciativa da Comunidad de Pensamento Complejo (CPC), sediada na Argentina.
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