Argentina: voltou a esperança, por Santiago Gómez

No discurso de posse Alberto Fernández anunciou uma reforma do sistema judicial. “Nunca mais uma justiça contaminada pelos serviços de inteligência, ‘operadores judiciais’, procedimentos escuros e linchamentos midiáticos”

Foto El Pais

Argentina: voltou a esperança

por Santiago Gómez

Ontem começou uma nova etapa na Argentina. O Presidente Alberto Fernández anunciou no seu discurso na Câmara de Deputados que construirá um Novo Contrato de Cidadania Social, fraterno e solidário. “Fraterno por que é hora de abraçar aos diferentes, solidário porque nessa emergência social é preciso começar pelos últimos para depois atingir todos”. Criou o Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade, assim como também os ministérios de Desenvolvimento Produtivo e Hábitat e Vivenda. Restituiu os ministérios de Saúde, Cultura, Trabalho, Ciência e Tecnologia e o do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Anunciou que o governo realizará uma intervenção na AFI – Agência Federal de Inteligência, “com o objetivo de impulsionar uma reestruturação do sistema de inteligência todo e da informação estratégica do Estado”. 

Fernández chegou no Congresso guiando seu carro e deixando uma mensagem clara: quem  guiará o destino da Argentina será ele e não a vice-presidenta, Cristina Fernández de Kirchner. Enquanto Alberto Fernández discursava, a Praça de Maio e a Praça dos Congressos estava lotada com milhares de pessoas que começaram chegar na noite do dia anterior. Quase um milhão de argentinos e argentinas passaram o dia ouvindo os discursos e participando dos show musicais que começaram às 14 horas, no palco montado na frente da Casa Rosada. A festa finalizou às 22h.

“Convido vocês, sem distinção nenhuma, para colocar Argentina de pé”. O discurso presidencial focou na necessidade de recuperar a economia argentina, promover o diálogo entre todas as forças políticas, para reconstruir a unidade nacional, acabando com a polarização que o macrismo impulsionou em parceria com a mídia tradicional. É preciso lembrar que a decisão de Cristina de ser vice-presidenta, possibilitou que o Frente Renovador de Sergio Massa, também peronista e ex-chefe de gabinete de ministros de Cristina, possibilitou o triunfo. Em 2015 Daniel Scioli teve um 38% dos votos no primeiro turno e 49% no segundo. Sergio Massa, então candidato a presidente, obteve 10% no primeiro turno. Sergio Massa assumiu como chefe do gabinete de ministros, após a saída de Alberto Fernándes do governo da Cristina em 2008. 

Plano Integral contra a Fome

Fernández informou que na primeira reunião do seu governo tratarão a problemática da fome, junto com empresários, sindicalistas, representantes de movimentos sociais, organismos de direitos humanos, e da sociedade civil, que aceitaram o convite do Presidente para tratar da problemática. Entre as pessoas mais destacadas que aceitaram o convite encontra-se Marcelo Tinelli, o principal condutor televisivo argentino, assim como também o Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. “A pobreza está nos níveis mais altos desde 2008, quer dizer que regredimos dez anos em quatro”, disse Alberto Fernández.

Fernández recordou a taxa de pobreza, inflação e desemprego, que deixou o governo Macri, com dados elaborados pelo ex-governo. A inflação é a maior dos últimos 28 anos, desde 1991 que Argentina não tinha uma inflação superior ao 50%. A taxa de desemprego é 10,6%, a maior desde 2006. O dólar passou de $9 para $63 em quatro anos. O PIB é o menor da década. “A pobreza atual está no nível mais alto desde 2008, regredimos mais de dez anos em quatro”, disse Alberto Fernández. Em quatro anos fecharam 20.000 empresas, das quais 4.229 eram industrias. O setor industrial perdeu 141 empregos com carteira assinada durante o governo Macri. 

Um gabinete jovem e com Memória

O gabinete de Alberto Fernández tem a particularidade de ter escolhido ministros e ministras jovens. O chefe de gabinete de ministros é Santiago Cafiero, 40, politólogo e neto de Antonio Cafiero, histórico dirigente do peronismo, e o ministro mais jovem do segundo governo de Perón. Eduardo “Wado” de Pedro, será Ministro do Interior, será responsável pelas relações do Executivo com os governadores, 43. Wado, como é conhecido, é filho de desaparecidos, e um dos principais líderes de La Cámpora, o maior movimento político kirchnerista da argentina. Martín Guzmán, 37, é o novo Ministro de Economia. Guzmán se formou na Universidade de La Plata, é professor da Universidade de Columbia, onde trabalhava com o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz. Guzmán avisou que nos próximos dois anos Argentina não deve pagar nem o capital nem os juros da dívida externa. Alberto Fernández anunciou que primeiro é preciso a economia crescer para depois pagar. “Como disse Néstor Kirchner, os mortos não pagam”, disse Fernández, lembrando a renegociação da dívida realizada enquanto ele era chefe do gabinete do Kirchner.

Juan Cabandié, 41, Ministro de Ambiente, e Victoria Donda, 43, quem será a próxima presidenta do Instituto Nacional contra a Discriminação, Xenofobia e Racismo, nasceram na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), o maior centro clandestino de detenção durante a última ditadura militar argentina. Nicolás Trotta, 43, é o novo Ministro de Educação. Ele entrevistou o ex-presidente Lula na prisão, para o jornal Página/12. Trotta era reitor da Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho (UMET). A universidade foi criada pelo sindicato de trabalhadores em prédios e condomínios da Argentina e foi inaugurada em 2013, com a presença de Lula.

Unidade latino-americana e a relação com o Brasil

Durante a campanha Alberto Fernández anunciou que recuperar a unidade latino-americana era uma das principais metas do seu governo. Teve algumas diferenças com Jair Bolsonaro, como consequência da visita de Fernández a Lula em Curitiba, e porque foi parte da campanha Lula Livre. Fernández argumentou que como professor de direito penal não podia desconhecer as violações ao devido processo que aconteceram no processo contra o ex-presidente. Mas durante a campanha deixou de responder às provocações do presidente brasileiros e seus filhos. 

Alberto anunciou que a chancelaria estará focada em conseguir novos mercados, motorizar exportações, promover investimentos produtivos, que possibilitem mudar processos produtivos e gerar emprego. “Vamos fortalecer o Mercosul e a integração regional. Com a República Federativa do Brasil, principalmente, temos que construir uma agenda ambiciosa, inovadora e criativa, no tecnológico, produtivo e estratégico, baseada na irmandade histórica dos nossos povos, que vai além de qualquer diferença pessoal entre quem governa. Continuamos apostando por uma América Latina unida, para nos inserir com sucesso e dignidade no mundo. Em 1974 Juan Domingo Perón disse: ‘no nível nacional, ninguém consegue se realizar num país que não se realiza. Do mesmo jeito, no nível continental, nenhum país poderá se realizar num continente que não se realize”. 

Reforma judicial 

Durante o discurso Fernández anunciou que enviará ao Congresso um conjunto de leis para reformar o sistema federal de justiça. “Soube dizer um penalista clássico, que quando a política ingressa nos tribunais, a justiça foge pela janela. Sem uma justiça independente do poder político, não há república nem democracia. Só existe uma corporação de juízes interessados em satisfazer o desejo dos poderosos e punir sem razão a quem os enfrenta. Por isso, venho manifestar na frente da Assembleia e de todo o povo argentino um categórico Nunca mais! Nunca mais uma justiça contaminada pelos serviços de inteligência, os ‘lobistas judiciais’, procedimentos escuros e linchamentos mediáticos. Nunca mais uma justiça que é usada para saldar discussões políticas, nem uma política que judicializa as diferenças para eliminar o adversário”. 

Fernández também anunciou que realizará uma intervenção na Agência Federal de Inteligência e que os fundos reservados usados pelos agentes de inteligência, as forças armadas e as forças de segurança serão utilizados para combater a fome.

 

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