As bandeiras de outrora precisam ser resgatadas, por Francisco Celso Calmon

Por que companheiros se espantam e se chocam com as políticas do governo bolsonarista, se reconhecemos que estamos sob a égide de um Estado Policial de natureza nazifascista? 

As bandeiras de outrora precisam ser resgatadas

por Francisco Celso Calmon

Se o Bolsonaro colocou Deus acima de todos e o Brasil acima de tudo, quem está por cima, do ponto de vista da linguística, Deus ou o Brasil? Na hierarquia político-ideológica sabemos que Bolsonaro e áulicos colocaram os EUA acima de tudo e todos. 

Na semana próxima passada, o presidente do TRF4 Victor Luiz dos Santos Laus, recebeu o conselheiro político da embaixada dos EUA, Willard Tenney Smith, que é um agente de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA.      

O que tem a ver um diplomata estrangeiro com um Tribunal de Justiça do Brasil? A evidência é tão grande que só serve para mostrar que não há mais pudores, como no AI5 foram jogados às favas.

É a história se repetindo. Vamos lembrar.

Juracy Magalhães, foi embaixador brasileiro nos EUA e ministro das relações exteriores da ditadura militar e é dele a frase: O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

Lincoln Gordon serviu como embaixador dos Estados Unidos no Brasil, de 1961 a 1966, período que articulou com os militares brasileiros o golpe.  O presidente Kennedy e ele estimaram 80 milhões de dólares (valores atualizados), o gasto para interferir nas eleições e preparar o terreno para um golpe militar contra o presidente João Goulart, para expulsá-lo, se necessário, disse Gordon a Kennedy.

De acordo com documentos revelados por historiados e pela CNV, em 27 de março de 1964, 4 dias antes do golpe, ele escreveu um telegrama ultrassecreto para o governo dos Estados Unidos pedindo apoio para o general Castelo Branco e “envio clandestino de armas e remessas de gás e combustível, a serem posteriormente complementadas por operações secretas da CIA”. 

O coronel Vernon Walters, militar e diplomata dos EUA, vice-diretor da CIA, de 1972 a 1976, e adido militar no Brasil, de 1962 a 1967, mantinha diálogo com os militares brasileiros influenciando-os com o apoio norte-americano ao golpe e à ditadura que se seguiu. 

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Trago a colação nessas lembranças a participação do dono da Globo, Roberto Marinho, que persuadiu Castelo Branco a que não restaurasse as eleições diretas para a sua sucessão, porque os políticos com mais chances de vitória seriam os da oposição. 

Não são meras semelhantes, é o mesmo modelo descaradamente repetido e adaptado.

“Eu sou favorável à ditadura, tu sabe disso” (1991). “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente FHC” (1999). “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (2016). Declarações do energúmeno Bolsonaro na TV.

Por que parte da esquerda se espanta e se choca com as barbaridades do capitalismo, se a história das sociedades divididas em classes é a história das crueldades?  Por que companheiros se espantam e se chocam com as políticas do governo bolsonarista, se reconhecemos que estamos sob a égide de um Estado Policial de natureza nazifascista? 

Atinge à nossa humanidade, nos indigna, mas não deveria causar espanto à nossa racionalidade. Afinal, o capitalismo é um desastre em todo o mundo. Sua eficiência consiste em produzir concentração de renda, fome e guerras

É necessário despir de ilusões, é imperativo pregar a revolução social, cujo objetivo é ser antítese ao sistema atual; é esta narrativa que temos que levar a todos os cantos deste Brasil. 

Os diagnósticos são uteis, mas neste momento conjuntural a pregação e recomendação dos remédios políticos-ideológicos são urgentes. 

Muitos intelectuais da esquerda, por conta do academicismo, estão apegados a fazer diagnósticos e não a pregar a revolução social.  

As vísceras expostas do bolsonarismo, se acarreta as piores tragédias ao povo, também oportuniza pregar o seu contrário:   a democracia política, econômica e social.  

Aliado ao mesmo fenômeno, o governo Trump pelo mundo, nos enseja a contrapor a essa situação beligerante e de miséria crescente internacional um projeto socialista. A socialdemocracia está periclitante na Europa. No Brasil não há uma burguesia que assuma como projeto o Estado de bem-estar social.   A opção é o socialismo democrático, com as características nacionais de cada país. 

Nos EUA sob Trump, socialismo enquanto ideia tem avançado.

A aprovação de republicanos e democratas caiu, a de socialistas cresceu em popularidade, sobretudo entre jovens eleitores.

As organizações socialistas, outrora relegadas, estão experimentando atenção considerável desde a chegada de Trump à Casa Branca.

Fundada em 1982, a Socialistas Democráticos da América (DSA), em especial teve um salto no seu número de filiados.

“Depois da eleição de Trump, explodimos em tamanho”, afirma a diretora, Maria Svart. Ela atribui o crescente interesse pela DSA não apenas à reação adversa a Trump como também ao fracasso do Partido Democrata em oferecer uma oposição ao presidente republicano.

Os filósofos Cornel West e Noam Chomsky e a escritora Barbara Ehrenreich são algumas das personalidades que fazem parte da DAS, que se considera uma organização socialista de espectro amplo; seus membros incluem desde social-democratas até leninistas.

Lula é devedor de gratidão a muitas personalidades internacionais, tanto as que o visitaram em Curitiba, como as que manifestaram solidariedade e articularam por sua liberdade. Do Papa a Mujica, de Esquivel a Noam Chomsky, do Chico Buarque ao senador estadunidense Bernie Sanders.

O Papa Francisco incentivou os jovens brasileiros, quando veio ao Brasil, a  serem revolucionários, o senador Bernie se autodeclara socialista, Mujica, com seu passado de guerrilheiro, ex-presidente do Uruguai  e atual senador, afirma que é necessário formar cidadãos e não apenas consumidores, e Lula que declarou recentemente que se soubesse história como sabe hoje há 50 anos ele seria um revolucionário e não um democrata com lado, tecem objetivamente a teia para a luta pela revolução social.

Pregar a revolução é reerguer as bandeiras contra o capitalismo, contra o imperialismo norte-americano, contra o Estado Policial bolsonarista. 

Trump e Bolsonaro são inimigos da paz, da democracia e da humanidade. 

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Lula reúne as condições plenas para articular uma frente internacional contra o capitalismo predatório, contra o imperialismo intervencionista, contra as tiranias, e em favor da democracia e da paz, que somente serão alcançadas com um sistema socialista.

O povo brasileiro necessita do Lula livre, como Lula necessita do povo organizado, e todos os povos necessitam do socialismo democrático. 

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

 

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