As Índias Galantes
por Solange Peirão
Documentário e Espetáculo
As Índias Galantes é um documentário de Philippe Béziat que registra o processo de criação do espetáculo adaptado da obra Les Indes Galantes, uma ópera-balé de Jean-Philippe Rameau, com libreto de Louis Fuzelier , e que estreou em Paris em 1735.
Essa nova montagem foi revolucionária. Como esclarece o diretor Clément Cogitore, se o texto original trata dos embates entre colonizadores europeus e os povos originários de todos os cantos do mundo, a proposta da nova versão foi fazer, da cidade, o mundo, e das diversas culturas urbanas que nela convivem, a sua matéria.
O espetáculo esteve em cartaz no braço da Ópera Nacional de Paris, situado na Place de la Bastille, entre setembro e outubro de 2019.
O documentário, por sua vez, esteve disponível para o público brasileiro durante o My French Film Festival de 2022.
Agora é a vez do espetáculo, ele mesmo, e com as devidas adaptações, integrar a temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo, com apresentações entre 26 de novembro e 04 de dezembro. Trata-se de uma parceria com o Instituto Francês, integrante do Ministério dos Negócios Estrangeiros, para celebrar o Ano França-Brasil.
A Ópera
Em síntese, pode ser expressa pelas peripécias, de toda ordem, que envolvem colonizadores europeus e os povos de além-mar, tanto à ocidente como à oriente, aqueles que genericamente foram classificados como as Índias.
Mares desconhecidos e tenebrosos, natureza “exótica”, palpitante, em estreita harmonia com os povos que a habitam e conhecem seus segredos. Idílios e disputas amorosas, entre os forasteiros e os da terra, provocando sentimentos ambíguos de atração, repulsa e culpa. Tudo isso é tema que a bela música de Rameau embala.
A tônica principal é a passagem do clichê do selvagem sanguinário para o bom selvagem, ideia que Rousseau introduziu, para tratar do indígena como população pura, não contaminada pela civilização. Evidentemente, a História se encarregou de desmascarar os verdadeiros interesses de dominação dos colonizadores, por trás dessa visão idílica.
A Nova Leitura da Ópera
Se as Índias agora se cruzam no espaço geográfico da cidade, e se estamos a falar do nosso tempo, é natural que as expressões culturais urbanas deem o tom. É nessa direção que vai o roteiro do espetáculo, ou seja, tratar da juventude e dos frequentadores habituais das ruas, suas trajetórias de vida pessoal e de suas comunidades de origem, seus sonhos, frustações e ameaças. Esses atores da vida real serão os novos personagens da história que Clément Cogitore irá contar, e que a coreógrafa Bintou Dembélé colocará em cena, por meio de uma linguagem corporal diversa: hip hop, krump, voguimg, popping, jumpstyle. Esse cadinho de “dancers” é originário de diversos países, literalmente de todos os continentes. Dá pra sentir com isso, inclusive, o alcance real dos movimentos migratórios das últimas décadas, sendo Paris um dos polos de atração.
A Estética do Documentário
Como não se encantar com a câmera estática, focalizando rostos e corpos que falam. Não só dos dançarinos, mas da orquestra e do coro, conduzidos, com competência, pelo maestro Leonardo García Alarcón. Magnífica a interação de todos esses atores, descobrindo entre si uma outra potência artística, até então mal conhecida.
A câmera passeia para dar conta das cenas de interpretação da peça propriamente dita, ou para mostrar a grandiosa montagem que assimila, com beleza, a tecnologia, e que contrapõe belos figurinos em uma mescla do antigo e do moderno.
No destaque para a música, temos razão para uma emoção especial. O ápice do espetáculo é a cena final, com o libreto mais conhecido e bonito, o Forêts paisibles (Florestas tranquilas). Há gravação, disponível na internet, sobre uma apresentação bem-humorada da Philharmonie de Paris.
O documentário termina com a cena da bela Praça da Bastilha, com seu monumento à frente da Opéra, evocativo da Revolução de 1830, que pôs fim ao período da Restauração, na França. A Coluna de Julho, encimada pelo Gênio da Liberdade, é oportuna para relembrarmos as palavras do diretor do espetáculo, quando afirmou que gostaria que a juventude tomasse a Bastilha. Ele provavelmente se referia ao prédio da Ópera Bastille, e não ao poder, como está presente, em nosso imaginário, quando pensamos na tomada primeira da Bastilha, durante a Revolução Francesa. Ou será que não?
O espetáculo que o Theatro Municipal de São Paulo apresenta, fechando sua temporada de 2025, certamente vem com as devidas adaptações, no tocante à orquestra, coro e corpo de bailarinos. Mas, tomando por base a produção original que o documentário nos apresentou, promete também ser encantador. A conferir.
Solange Peirão – Historiadora e Diretora da Solar Pesquisas de História
São Paulo, 29 de novembro de 2025
Clique para a apresentação da Philharmonie
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