As lições da eleição de Zohran Mamdani
por Tarson Núñez
Os resultados da eleição de 4 de novembro em Nova York têm um significado muito mais profundo do que os de uma simples eleição municipal. A vitória de Zohran Mamdani representa um verdadeiro terremoto político, com consequências que vão muito além de um novo prefeito na maior cidade do país. Sua eleição é um marco, na medida em que representa a maior derrota sofrida por Donald Trump e a extrema direita que se apossou do poder nos Estados Unidos. Até agora essa facção extremista vinha conseguindo impor a sua agenda ao país e resistindo mesmo a um grande número de protestos de rua. A derrota do início de novembro começa a alterar esta dinâmica política. Mas os resultados em Nova York vão além desta disputa, tendo um impacto sobre o conjunto do sistema político norte-americano. Isto porque a eleição de um socialista na cidade mais importante dos Estados Unidos aconteceu através de um processo que tende a alterar os próprios fundamentos do sistema.
Mamdani enfrentou uma coalizão que ia muito além do partido Republicano. Uma parte majoritária das estruturas do próprio partido democrata lutou abertamente contra o candidato socialista. Grande parte das lideranças tradicionais do partido, em nível nacional e local se recusou a apoiar Mandani, mesmo depois de ele ter vencido as primárias democratas. Este boicote chegou ao ponto do candidato derrotado nas primárias, o exgovernador democrata Andrew Cuomo, ser lançado como candidato independente para tentar barrar a vitória da esquerda. E Cuomo obteve até mesmo o apoio de Trump, que abandonou o candidato republicano que disputou as eleições em troca do ex-governador.
O esforço para impedir a vitória de Mamdani não se limitou à esfera da política. Segundo a revista Fortune, um grupo de bilionários, entre eles o magnata da mídia Michael Bloomberg, o lobista pró-Israel Bill Ackman, o fundador do Air BnB, Joe Gebia e membros da família Lauder, da empresa de cosméticos Esteé Lauder, chegou a gastar mais de 22 milhões de dólares na campanha. E a mídia corporativa, especialmente os tabloides sensacionalistas e as redes como a Fox News realizaram uma verdadeira campanha de guerra contra Mamdani, acusando-o de ser antissemita, de ter ligação com grupos terroristas e de ser um perigoso comunista, uma ameaça para a cidade e o país. Chegou a se falar em um êxodo de mais de um milhão de nova-iorquinos por conta da eleição de Mamdani.
Todo o esforço desta frente de políticos de direita, de bilionários, das big techs e da mídia corporativa foi derrotado, o que por si só é já uma façanha enorme. Mas para além deste significado local e conjuntural, a eleição de Nova York apresenta lições importantes que podem ser aprendidas por todos aqueles que, no mundo inteiro, buscam enfrentar a extrema direita, defender a democracia e a justiça social. O sucesso de Mamdani aponta caminhos importantes para os defensores da democracia no mundo inteiro. Refletir sobre estas lições pode nos ajudar a redefinir as estratégias políticas das forças progressistas em todos os lugares.
A primeira lição diz respeito ao conteúdo da campanha de Mamdani. De modo geral quando se tem discutido a necessidade de enfrentar a extrema direita, o paradigma convencional aponta para a necessidade de um deslocamento da esquerda para o centro.
A estratégia correta, segundo este ponto de vista, seria a de moderar o discurso e as propostas, como uma maneira de atrair os eleitores do centro político e isolar a direita. Esta tem sido a estratégia convencional do marketing político das forças progressistas nos últimos anos. Uma estratégia que, pelos resultados obtidos na maioria dos processos, não vem sendo bem-sucedida, a não ser em certos casos pontuais.
Pois Mamdani venceu com um discurso explicitamente de esquerda, abertamente socialista. Mais do que isto, venceu com propostas que desafiam abertamente os ditames do mercado. Sua plataforma foi na direção contrária de todos os manuais dos marqueteiros políticos convencionais. O candidato vitorioso desde o início de sua campanha defendeu intervenções no mercado, com o congelamento dos aluguéis, com a criação de mercados públicos vendendo comida a preços razoáveis, com tarifa zero nos transportes públicos, creches para todos e um sistema público e gratuito de saúde. E o financiamento destas políticas se dará através do aumento dos impostos sobre os milionários da cidade. Suas propostas, portanto, foram ousadas e corajosas. Mas foram também, é importante destacar, consistentes e bem fundamentadas do ponto de vista técnico.
Além disso Mamdani não se furtou de enfrentar todas as questões problemáticas e controvertidas. Assumiu corajosamente a solidariedade à Palestina, numa cidade que tem o maior contingente de judeus dos Estados Unidos. Chegou mesmo a afirmar que mandaria prender Netaniahu por crimes de guerra se o líder sionista fosse a Nova York. Abraçou a solidariedade aos imigrantes, legais e ilegais, batendo de frente com o senso comum num tema muito sensível em todo o norte global. Dialogou aberta e explicitamente com a comunidade LGBT, desafiando os medos de que este tema fosse espantar o eleitorado mais conservador. Por fim, seu compromisso com a equidade se materializou nas primeiras medidas tomadas após a vitória. As cinco pessoas indicadas para formar a equipe de transição são todas mulheres.
Portanto a primeira lição da eleição de Mamdani é a de que não se enfrenta a extrema direita com moderação do discurso, com o rebaixamento do programa e com uma rendição ao senso comum. Pelo contrário, foi através de propostas ousadas e radicais que o candidato foi capaz de realizar uma mobilização sem precedentes nos processos eleitorais dos Estados Unidos. No auge do processo eleitoral, a campanha contava com mais de 90 mil voluntários, gente de todas as idades e de todos os setores sociais. Toda esta mobilização ocorreu por conta da capacidade de incorporar na campanha todas as demandas do povo trabalhador de Nova York.
A campanha de Mamdani mostrou também o quanto são falsas as contraposições tão em voga na esquerda brasileira entre as pautas tradicionais de classe e as chamadas políticas identitárias. O candidato socialista venceu com uma plataforma explicitamente focada nas pautas da classe trabalhadora (o custo de vida, o transporte urbano, o preço do aluguel) mas que ao mesmo tempo incorporava também, e de forma bem explícita, temas associados a pautas identitárias. Assumindo abertamente sua condição de muçulmano, ele bateu de frente com a xenofobia da ultra-direita. Enfrentou o racismo e a discriminação, tratou dos temas da imigração e defendeu o multiculturalismo da cidade. Dialogou com o público LGBT e defendeu a igualdade entre os homens e as mulheres, garantindo um efetivo protagonismo feminino em sua campanha. Isso nos leva à segunda lição da eleição da eleição de Nova York, a mudança da forma de organização das campanhas.
Uma das principais características da política contemporânea nas democracias liberais é a da redução do cidadão à condição passiva de mero eleitor. Participação política se resume a, de tempos em tempos, eleger alguém para governar. E estes processos eleitorais tendem a ser altamente profissionalizados, baseados fundamentalmente em campanhas de TV orientadas por técnicas de marketing eleitoral. O espaço para o cidadão se reduz, e o principal instrumento das campanhas é o dinheiro, que financia os programas de TV, a produção de materiais e até mesmo o trabalho de convencimento dos eleitores.
A campanha de Mamdani rompeu explicitamente com este padrão. Foi uma campanha que, desde o seu início, se baseou na organização de uma base ativa de militância. Segundo um membro da sua equipe “nós vencemos porque insistimos que a política não vai ser mais uma coisa feita para a gente. Agora a política é uma coisa que a gente faz”. A campanha foi capaz de sensibilizar, motivar, mobilizar e organizar dezenas de milhares de pessoas. Pessoas que batiam de porta em porta, conversando com os cidadãos, dialogando e convencendo as pessoas não apenas a votar, mas também a se engajar ativamente na campanha. Sua estrutura de campanha foi focada em abrir espaços para incluir mais e mais pessoas, treinando e capacitando os voluntários, discutindo política e transformando os eleitores em apoiadores e os apoiadores em militantes.
A segunda lição, portanto, é de que é possível, e mais do que isso, é necessário romper com as formas tradicionais de campanha eleitoral. A forma de combater o poder do dinheiro na política é construir uma base orgânica, formada por gente consciente e motivada, capaz de convencer os demais eleitores. E isto se refletiu até mesmo em dinheiro, uma vez que a campanha de Mamdani conseguiu arrecadar quase 4 milhões de dólares de dezenas de milhares de doadores, em média de 125 dólares por pessoa. Mamdani mostra, portanto, que motivar e mobilizar uma base consistente de pessoas, contar com a participação direta dos cidadãos, é o caminho para a vitória.
Esta postura de construção de um movimento político de sustentação da campanha não tinha por horizonte apenas a disputa eleitoral. Mamdani e seus apoiadores pensaram a sua campanha como um instrumento para construção de um poder cidadão, não apenas como um instrumento para chegar à prefeitura. A campanha não era um fim em si, mas um instrumento de construção de uma base social consistente para dar sustentação a um projeto político inovador.
Por fim, a terceira lição diz respeito ao discurso inovador, criativo e consistente do candidato. E por discurso não me refiro apenas às falas do candidato, ainda que Mamdani seja um orador poderoso, bem articulado e consistente. O conjunto das ações públicas do candidato, a forma com que ele se expressava, a maneira como ele aparecia nos materiais, os interlocutores que ele escolhia, a forma com que ele abordava os temas em debate, foram sempre muito criativas e inovadoras. Não se tratou apenas de um bom uso das redes sociais, como um olhar mais superficial resumiria. Sim, de fato seus materiais no Tik tok, no Instagram e no Facebook foram sempre de muita qualidade, mas estes materiais seriam apenas uma casca vazia se não fossem preenchidos com uma mensagem de qualidade.
Em suas intervenções públicas e em seus materiais nas redes, Mamdani sempre privilegiou uma lógica de construção coletiva. Suas postagens quase sempre mostravam a sua interação com os eleitores, tratando todos com empatia, de igual para igual. A campanha não era focada apenas no candidato, se apresentava explicitamente como uma construção coletiva na qual cada cidadão comum podia ser um protagonista. Sua mensagem ao povo trabalhador, se materializava nas suas conversas com o povo nas ruas. Seu discurso enfatizava sempre mais o “nós” do que o “eu”. Seu tratamento das questões tinha como centro uma visão de um projeto coletivo, construído por todos os nova-iorquinos que desejam uma cidade mais barata, acessível e solidária. A campanha de Mamdani buscava dar voz aos cidadãos ao invés de discursar para os eleitores.
Outro elemento importante era a ênfase no otimismo, na alegria. Sem abrir mão da denúncia dos problemas sociais, a campanha de Mamdani apontava para o futuro. Sua ênfase na crítica às mazelas de uma cidade que se tornou cara demais para os seus cidadãos não se esgotava em si mesma, era sempre associada à apresentação de soluções. Rompendo com a lógica negativa das campanhas tradicionais da esquerda, que privilegiam a denúncia e a crítica, a campanha de Mamdani foi vitoriosa, entre outras coisas, porque se apresentava como um esforço por construir um futuro melhor. A combinação de propostas concretas e factíveis, conectadas de forma muito direta com as necessidades dos cidadãos comuns, com uma abordagem otimista e construtiva se revelou muito eficiente, transformando Mamdani em um catalisador da energia e das expectativas dos eleitores.
Por fim, também neste terreno do discurso inovador, Mamdani teve sempre uma postura muito aberta de diálogo pluralista e honesto. Mesmo nos momentos mais duros de debates eleitorais sempre privilegiava os argumentos sobre os adjetivos. Além disso, o candidato socialista se mostrava sempre aberto para ouvir as mais diferentes opiniões e debater de forma muito objetiva e construtiva os diversos temas da campanha. Esta postura foi um dos elementos centrais que levou ao resultado final, pela primeira vez desde 1969 um candidato a prefeito de Nova York fez mais de um milhão de votos.
Portanto, para todos aqueles que hoje se preocupam em conter o avanço da extrema direita a campanha de Mamdani inspira e ensina: 1) Não é a moderação, mas sim uma mudança radical o que os eleitores esperam. Mas uma mudança radical baseada em propostas concretas, consistentes e factíveis; 2) As eleições se vencem com mobilização e organização, com uma campanha construída de baixo para cima, baseada em uma ativa participação dos cidadãos; 3) O discurso da esquerda não precisa ser mau-humorado, pessimista e denuncista. É fundamental ser capaz de apontar uma perspectiva de futuro, de otimismo. Não é se acomodando às regras do jogo, mas sim desafiando os consensos convencionais é que se pode mudar a política. Menos marketing eleitoral e mais organização popular, este é o caminho do futuro. É com alegria que se derrota o fascismo.
Tarson Núñez – Doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador associado do Observatório das Metrópoles
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