
Enviado por Gilberto Cruvinel
Entre as reações absolutamente destemperadas ao Acordo Ortográfico em Portugal, cuja vigência começou esta semana, o Jornal Público é um dos órgãos que declarou que não seguirá a nova norma. Os argumentos de José Pacheco Pereira chegam ao extremo de falar em perda da conexão do português com o latim, com o mundo romano, com o mundo grego. E que as palavras não têm apenas som, mas também imagem e, refinamento da destemperança, é esta imagem que mantém os portugueses atados ao mundo clássico. Em que mundo vive este senhor?
do Público.pt
Os apátridas da língua que nos governam
José Pacheco Pereira
OPINIÃO
Uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.
À memória do Vasco Graça Moura
Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.
Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.
Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.
É um problema da nossa identidade como portugueses que está em causa, na forma como nos reconhecemos na nossa língua, na sua vida, na sua história e na sua proximidade das fontes vivas de onde nasceu: o latim. Não é irrelevante para o português e a sua pujança, a sua capacidade de manter laços com a sua origem no latim e assim comunicar com toda a riqueza do mundo romano e, por essa via, com o grego, ou seja, o mundo clássico onde nasceu a nossa cultura ocidental. Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.
O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável. Chegado aqui recordo-me sempre do “jovem” do Impulso Jovem aos saltos em cima do palco a dizer “ó meu isso não serve para nada”, sendo que o “isso” era a história. Esta é a gente do AO, e, como de costume, encontram sempre sábios professores ao seu lado, os mesmos que vêem as suas universidades a serem cortadas, em nome da “empregabilidade”, da investigação nas humanidades e em sectores como a física teórica e a matemática pura, teorias sem interesse para os negócios. “Ó meu, isso não interessa para nada!”.
Urariano Mota
16 de maio de 2015 10:07 pmAntônio Houaiss explica
Em http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/458/entrevistados/antonio_houaiss_1990.htm
Antonio Houaiss: Ninguém tem a loucura de unificar a língua portuguesa ou qualquer outra língua. A língua francesa, que é talvez das mais policiadas do mundo, como a inglesa, em certo modo, é uma língua que não cogita de unificar-se. Os franceses reconhecem que o québécois, o francês de Québec, é bem distinto do francês da França e nem por isso deixam de prestigiar o québécois. Seria uma ingenuidade política. O québécois tem a sua norma lingüística, tem os seus padrões e tem a sua diversidade como língua de cultura que é. O francês, até dois séculos atrás, era falado por um sexto da população francesa já então existente, porque havia 84 dialetos, alguns gráficos e outros ágrafos, competindo com a língua francesa. Ela prestigiou-se a partir do século 18 para cá. O fato que nós devemos ter em vista é que certos exemplos históricos não são necessários. O fato de que o latim popular, ágrafo, degenerou em duzentos dialetos românicos dos quais, depois, por reunificação, ficaram mais dez ou 12 línguas, esse fato não implica que necessariamente qualquer língua que se expandir venha a ter um estatuto ágrafo de novo. O Brasil está em crise, porque está tendendo a ter um estatuto ágrafo que não é o caso de Portugal, que é o caso dos países que adotaram o português como língua oficial. Então a crise nossa deriva disso. Não há nenhum imperativo para que nós sejamos ágrafos no Brasil. Muito pelo contrário! Todas as razões militam para que nós aprendamos a língua e não a adquiramos como seres mais ou menos animais, soltos à aventura de sobreviver. Então, nesse sentido, a sua perspectiva me parece que deve ser mudada e aí entra a questão: o revestimento gráfico de uma língua é uma mera convenção. É uma convenção. Qualquer grafia existente no mundo de qualquer língua pode ser modificada, tem essa potencialidade. O francês está farto de saber disso. Bernard Shaw [(1856-1950) escritor, jornalista e dramaturgo irlandês] deixou a sua herança para que a língua inglesa viesse a ser simplificada. Ela está sendo um fundo para esses estudos. Quer dizer, há então duas hipóteses. No caso concreto do Brasil, a única questão que me motiva é a inconveniência de haver duas normas gráficas oficiais. Basta uma! Porque, com esta, nós podemos ter livros de ciência, livros de arte, instrumentos internacionais de comunicação para os órgãos internacionais, que cada vez mais crescem, com uma só ortografia. O português não tem um estatuto internacional melhor porque logo em seguida se propõe esta pergunta: “Em que grafia nós iremos publicar os textos oficiais? Em português? Do Brasil? Na ortografia do Brasil ou de Portugal?” Então a unidade ortográfica não visa [ser] camisa-de-força de ninguém, inclusive porque, se ela for atingida, só será praticada por quem o quiser, vale dizer, os órgãos oficiais do Brasil e de Portugal, porque é uma disposição pactuada. Mas se um jovem, através de um jornal, creio que do senhor ou de alguém aqui presente… Alguém disse que o acordo era sinistro. Sinistro acordo. “Eu jamais me subordinarei a isso!” Ele se considera um extremo criador e, por conseguinte, não quer que ninguém entre na sua seara privativa, que é a sua língua. Então, muito bem: que ele escreva mesa com três emes, quatro ês, cinco zês e vinte e sete ás. O problema será entre ele, o editor e os leitores. Ele não é compelido a isso. Ninguém nunca no mundo foi preso por ter desobedecido ao sistema ortográfico da sua língua.
Gilberto Cruvinel
16 de maio de 2015 10:40 pmObrigado Uraniano, por trazer
Obrigado Uraniano, por trazer a palavra precisa de Antonio Houaiss, um dos artífices do acordo no seu início. Eu já não me lembrava que havia essa entrevista ao Roda Viva, muitos anos atrás, absolutamente esclarecedora sobre o Acordo.
Urariano Mota
17 de maio de 2015 12:31 amSalve, Gilberto
Sou eu que agradeço o seu post. Abraço deste Urariano (nome mais estranho que Uraniano) .
Francisco Fonseca
11 de maio de 2016 9:20 pmortografia
Houaiss, autor de um dicionário de referência, falou da “inconveniência de haver duas normas gráficas oficiais”. Pois bem, agora (se estivesse entre nós) teria mais: o português do Brasil que segue esse acordo; e o que o não segue; os que, em Portugal, o seguem ou não; os que, em Angola e em Moçambique, não o seguem, pois até os seus Estados o recusam; etc. Na prática e resumindo, onde havia duas ortografias oficiais (sem problema, pois não é isso que pode unificar o português brasileiro com os restantes, e cada país pode ter diferentes pontos de vista sobre o assunto) existe agora uma pluralidade confusa. Isso foi mau para o ensino da língua e não assegurou maior circulação do livro ou da imprensa entre todos esses espaços. Basta ver que os autores brasileiros são “revistos” em edições portuguesas e reciprocamente autores portugueses (salvo os que o rejeitam contratualmente, e são vários) são “adaptados” no Brasil. Mesmo com esse “acordo”, outra coisa que nem todos sabem é que existem duas versões do mesmo: uma para o Brasil, outra para Portugal e mais alguns países e territórios. Impossível saber o que Antônio Houaiss ia pensar sobre isso.
T
16 de maio de 2015 10:19 pmOs portugueses têm toda a
Os portugueses têm toda a razão. O fato de o Sr. Cruvinel desconhecer as razões e preocupações dos portugueses só confirma nosso atraso cultural. Em seus comentários, ele manifesta a estranheza em relação às argumentações dos portugueses de quem nunca foi apresentado ao verdadeiro significado, o cultural, da língua. É o retrato da indigência cultural que predomina no Brasil. O artigo português, corretamente, assinala que um acordo ortográfico ” não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico”. Infelizmente o mal trato da língua e a incompreensão do seu valor cultural e do seu sentido de identidade é uma chaga no Brasil, inclusive entre aqueles que deveriam cuidar de sua identidade. É uma marca do subdesenvolvimento de um país que é superficial em tudo, consumista, iletrado, submisso culturalmente e que ignora o sentido maior de cultura.
Talvez uma boa argumentação para defender a língua destes pretensos modernos seja observar que no inglês e no francês (entre muitas outras) estas desastrosas reformas ortográficas nunca são feitas, preservando a escrita destas línguas de se tornarem um amontoado de letras sem significado cultural ou histórico. Ainda bem para todos nós que precisamos lê-las. Talvez estes “modernos” sejam melhor convencidos se souberem que para um estrangeiro é melhor escrever e ler em português acção que ação, óptimo que ótimo, pharmácia que farmácia, ou seja, mais próximo das origens latinas e gregas, as origens que outras línguas procuram preservar; e se é melhor para quem não é lusófono de origem deve ser melhor para os de países lusófonos.
Athos
18 de maio de 2015 3:21 pmO problema é que é matéria
O problema é que é matéria científica de linguistas. …
Roberto L.
16 de maio de 2015 10:57 pmGilberto, parabéns por ter
Gilberto, parabéns por ter trazido esse tratado de estupidez e xenofobismo dos nossos “irmãos” portugas. Noutro post tinha brasileiro (suponho que seja) mal informado fazendo ode ao xenofobismo dos portugueses.
A razão pra histeria deles não é pelo acordo em si, os argumentos contra são pífios e ridículos, beiram à ignorância mesmo e um apelo fascista de que a “pátria está sendo invadida pelos bárbaros brasileiros”, a fúria desses fascistas de Portugal manipulando a massa ignorante de lá (que não é pequena) é porque o orgulho colonial deles está sendo ferido. Eles cultivam a ideia ridícula de que estão acima do Brasil até hoje mesmo todo mundo sabendo que o mundo só lembra que Portugal existe graças ao Brasil. Se os xenfóbos de Portugal querem tanto ouvir ou ler verdades, então vão receber.
O acordo só mexe com a ortografia e não com a forma de pronunciar as palavras, que podem ser escritas de qualquer forma dentro de um sistema ortográfico porque é uma convenção. Então a desculpa de que vão “alterar” o idioma não passa de mentira ao extremo ou ignorância levada as últimas consequências pra justificar o orgulho cretino e racista português.
Já recebi vários ataques de portugueses no FB só por comentar em páginas de jornal de lá, apenas por ser brasileiro. A mim, não altera em nada o ataque pois não vivo naquele país e nem faria questão, mas preocupa saber que brasileiros lá sofrem preconceito constantemente e não entram em contato com o governo brasileiro pra tomar providências sobre. Portugal não se atreva a criar uma briga diplomática pelo ranço racista daquele país, que só faz reforçar as caricaturas que recebem.
Esse jornal português como quase todos lá fazem questão de nos atacar, seja em matérias ridículas ou atacando o governo repetindo matéria do PIG, fora que a Globo parece que é dona de parte da SIC. O Brasl não deveria fazer acordo com Portugal e sim impor mudança gramatical e ortográfica ou dialogar com os demais países de língua portuguesa e isolar Portugal, que sempre atrapalhou a integração desses países com o Brasil.
Roberto L.
16 de maio de 2015 11:03 pmE lamento por não ter o
E lamento por não ter o comentário publicado noutro post com a mesma questão sem motivo aparente, provavelmente por discordância da opinião porque critiquei pesado Portugal como critico sempre fascistas. Por garantia eu passei a salvar os comentários caso não publiquem já que não emiti opinião que possa ser enquadrada em crime algum.
No dia que alguém receber ataque xenofóbico passa a entender bem rápido o porquê de certas posições. É um excesso de respeito com fascistas de outros países atacando brasileiros e o Brasil.
andrei barros correia
17 de maio de 2015 10:12 amO acordo é uma tolice, um não
O acordo é uma tolice, um não assunto. Só interessa à indústria da obsolescência de gramáticas e livros didáticos.
Qual o problema em ser contra ele? Nenhum. Fazem escândalo de nada.
Athos
18 de maio de 2015 3:19 pmMas é divertido ver
Mas é divertido ver portugueses se descabelando.
Deste assunto saem ótimas pérolas como por exemplo “o AO é um ato contra a humanidade”.
Vale uma boas risadas.
No Wikipedia, na parte interna dá burocracia, é mais engraçado ainda.
T
19 de maio de 2015 11:27 pmAinda tenho a esperança de
Ainda tenho a esperança de que os portugueses vão abandonar estes “acordos ortográficos” que são propostos pelo Brasil de tempos em tempos.
Quanto tempo ainda vai demorar para que os burocratas, os lobistas, os comerciantes de horizonte curto e outros elementos superficiais proponham retirar o “h” do início de palavras como hotel, hóspede? Já há boicote às consoantes mudas, parece que incomodam muito. Algum desavisado pensaria que é para simplificar guardando a fonética. Mas não, com o interesse de simplesmente mudar e atacar as origens da língua, chegam a propor nova fonética e novas palavras que são estranhas ao uso como “adevogado”, que pode ser encontrada no dicionário. Na Globo já se fala “picicologia”. Aproveitaram as regras de hífen e criaram palavras novas (!), como paralímpico, imediatamente adotado pela grande mídia, Globo em especial.
As letras k e y foram estranhamente retiradas e resolveram voltar com elas, depois do estrago irreparável que fizeram. O que falta mais para bagunçar a língua?
A falta até mesmo de bom senso, já que amor à identidade cultural é pedir muito, me faz acreditar que o que predomina nestes acordos que são sempre propostos pelo Brasil é a vaidade, o gosto pelo poder, a vontade de dissociar o Brasil e o mundo lusófono de alguma identidade sólida, especialmente a greco-latina, e os interesses comerciais imediatos.