Basta de linchamento virtual! Por Dora Incontri

O que me preocupa é que não é só a direita que depreda a reputação de alguém. A esquerda tem feito o mesmo.

Basta de linchamento virtual! Por Dora Incontri

Já falei aqui sobre o tema, mas ando tão inconformada com as notícias que tenho lido a respeito, que penso não ser demais trazer outras ponderações neste blog. Falo do linchamento virtual, do cancelamento – ou melhor dizendo – da morte simbólica de uma pessoa na rede. Na verdade, trata-se de uma morte infamante, em que as pessoas têm de apagar suas contas, perdem empregos, não podem mais dar as caras na sociedade. Será que alguém realmente merece isso?

Os casos podem ser supostamente “justos” ou claramente “injustos”, porque equivocados quanto à ação da pessoa cancelada. Entre esses últimos, li na semana passada o caso de um norte-americano Emmanuel Cafferty, que estava voltando do trabalho e estalou os dedos dentro do carro, fazendo supostamente um sinal (de OK), que agora foi apropriado pelos suprematistas brancos – ele não sabia, nem eu! E ele nem estava fazendo sinal nenhum. Alguém fotografou, colocou nas redes, em menos de duas horas, Cafferty estava com a vida destruída. Acabo de assinar um abaixo-assinado para devolverem o emprego a esse homem, pai e avô, que aliás, é filho de imigrantes mexicanos.

No Brasil, houve recentemente aquele caso no Leblon, em que um casal desacatou o fiscal sanitário e a mulher foi arrogante e grosseira. Passível de críticas, sim. Mas não de terem ambos suas vidas profissionais destruídas e sofrerem humilhações públicas e uma avalanche de apedrejamento virtual. Não é um tanto desproporcional?

Um dos aspectos que nos separam da barbárie é o império da lei, com a garantia de que todo e qualquer cidadão, em caso de acusação e suspeito de ter cometido um ato ilícito, ainda que suspeito de ter cometido o pior crime, tem o direito à defesa, a contar a sua narrativa dos fatos e ser julgado por uma instância imparcial. Mas o linchamento, seja físico, seja virtual, é uma avalanche de ódio despejada sobre uma pessoa silenciada à força. Mesmo se ela for culpada de algo, como racismo, homofobia, discurso de ódio, ou mera arrogância de classe (que é lamentável, mas não é crime), o linchamento é desproporcional ao ato. Por uma frase infeliz, por uma mentalidade elitista, racista ou o que for, tem a vida inteira destruída. Lembrando que alguém, cujo nome me recuso a escrever, que está ocupando o cargo de presidente no Brasil, fala o tempo inteiro tudo o que pode ser considerado crime e está lá tranquilo.

Falo do império da lei, com todas as restrições e críticas que temos em relação ao campo jurídico no Brasil, em que os privilégios de cor, de classe e de gênero comprometem a necessária equidade de tratamento diante da Lei. Imagine-se então se nos afastarmos de um mínimo que seja de legalidade para voltarmos ao circo romano, com a multidão pedindo a morte do pobre coitado na arena!

O que me preocupa é que não é só a direita que depreda a reputação de alguém. A esquerda tem feito o mesmo.

Quando abandonamos a possibilidade de diálogo, quando deixamos nos contaminar por uma fúria cega diante de qualquer palavra, de qualquer manifestação errada, equivocada, criminosa que seja – sem averiguarmos, sem conversarmos, sem nos inteirarmos – assumimos a posição de inquisidores cruéis. E sempre seremos injustos.

Ademais, em todas as causas que consideramos justas – na defesa dos direitos humanos, no combate às discriminações e opressões, de gênero, de classe, de etnias, compete-nos educar, conscientizar, convencer, contagiar as pessoas, para que abram os olhos, o coração, a mente e aprendam formas de convivência civilizatória, inclusiva e igualitária. Mas se usarmos métodos odiosos, vexatórios, bárbaros para combater o que consideramos barbárie, estaremos apenas aprofundando as feridas e reproduzindo indefinidamente o ciclo de violência e desumanidade e ainda nos tornando iguais ou piores do que aqueles com os quais não temos misericórdia.

Um bom exemplo de uma prática saudável recente nesse sentido foi o que se deu com o grupo humorístico Porta dos Fundos, que fez um quadro com Fabio de Luca, considerado gordofóbico. A produtora de conteúdos Bianca Barroca veio a público, com um vídeo educado e esclarecedor, alertando que o vídeo produzido pelo Porta estava praticando gordofobia. Porchat a chamou para uma live, eles conversaram sobre o tema. O Porta dos Fundos retirou o quadro e o gravou numa nova versão, com o ator Rafael Portugal.

Todos dialogaram, todos aprenderam e o público teve a oportunidade de entender como se dá a gordofobia na sociedade.

Estamos aqui para isso mesmo! Todos temos preconceitos, conceitos distorcidos, analfabetismos políticos… precisamos estar dispostos a ensinar e a aprender, a falar de forma não violenta e a ouvir de forma acolhedora. Chega de sermos aqueles que queimam bruxas na fogueira. Amanhã, podemos também nós, sermos acusados de bruxaria. Lembremos das palavras de Jesus: aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra!

 

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