13 de julho de 2026

É hora de pensar a reconstrução do país, por Luís Nassif

O problema contemporâneo é a ausência de mecanismos pelos quais a própria sociedade possa controlar aqueles que exercem o poder.
Reprodução

Marcos Nobre destaca que a polarização no Brasil gira em torno dos instrumentos de distribuição de renda da Constituição de 1988.
A Constituição criou mecanismos de participação social e controle do Estado, como conselhos em saúde, assistência e educação.
Com o tempo, esses mecanismos perderam força, enquanto cresceu o controle corporativo, enfraquecendo a democracia participativa.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O cientista político Marcos Nobre fez a melhor distinção para explicar a polarização política no país: é entre aqueles contra e a favor dos instrumentos de distribuição de renda nascidos com a Constituição de 1988.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O país exibe, ainda, alguns dos maiores indicadores de concentração de renda do mundo. O que chama a atenção de observadores de fora é o fato de jamais ter eclodido uma rebelião popular. E o motivo foram os amortecedores criados pela Constituição de 1988: o SUS (Sistema Único de Saúde), o BPC (Benefício de Prestação Continuada), o ensino público gratuito em todos os níveis, mais recentemente as cotas sociais.

De um lado, houve a criação de um colchão social. De outro, permitiu-se empurrar com a barriga reformas relevantes. Agora, está-se chegando a um impasse. Há um desânimo claro em toda a população e, as amarras da política monetária/fiscal em breve tirará até os recursos destinados às políticas sociais. 

É hora de se contentar apenas em impedir a volta da ultradireita e começar a se pensar em um projeto de reconstrução nacional. E, nele, as recuperar as políticas participativas da Constituinte.

Anos atrás, o Roosevelt Institute promoveu uma discussão sobre como salvar a democracia contemporânea. A conclusão surpreendeu: não bastava proteger as instituições existentes; era necessário aprofundar a democracia. Seus pesquisadores saíram em busca de experiências bem-sucedidas no mundo ocidental e encontraram poucas referências relevantes. O exemplo mais avançado acabou surgindo em um país que eles sequer costumavam incluir no chamado mundo ocidental: o Brasil.

A referência eram as Conferências Nacionais, mecanismos que permitiam a participação direta da sociedade na formulação de políticas públicas. Elas eram fruto de uma concepção mais ampla inscrita na Constituição de 1988, que criou uma das arquiteturas de participação social mais ambiciosas do planeta.

A Constituição não se limitou a restabelecer eleições livres após a ditadura. Ela procurou construir mecanismos permanentes de controle da sociedade sobre o Estado. Em diversos capítulos, constitucionalizou o princípio da participação popular como diretriz obrigatória das políticas públicas e remeteu à legislação complementar a criação de conselhos responsáveis pela fiscalização, formulação e acompanhamento dessas políticas.

Os exemplos mais relevantes estão espalhados por toda a Carta.

Na seguridade social (artigo 194), instituiu-se um modelo de gestão quadripartite, com participação de trabalhadores, empregadores, aposentados e governo. Era talvez o desenho mais ambicioso da Constituição, concebendo a administração da seguridade como um espaço compartilhado de decisão.

Na saúde (artigo 198), a participação da comunidade foi definida como uma das diretrizes estruturantes do Sistema Único de Saúde. A Lei 8.142, de 1990, regulamentou o dispositivo por meio dos Conselhos de Saúde, deliberativos e paritários.

Na assistência social (artigo 204), a Constituição determinou a participação da população, por meio de organizações representativas, tanto na formulação quanto no controle das ações governamentais. A Lei Orgânica da Assistência Social, de 1993, deu origem ao Conselho Nacional de Assistência Social e a seus correspondentes estaduais e municipais.

Na política para crianças e adolescentes, a Constituição inspirou a criação dos Conselhos dos Direitos e dos Conselhos Tutelares, posteriormente regulamentados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Na educação, os princípios da gestão democrática do ensino público e do planejamento nacional fundamentaram os diversos conselhos educacionais e os mecanismos de controle dos fundos públicos do setor.

A lógica era comum a todos eles: criar formas institucionalizadas de controle social. A democracia não terminaria no voto. A sociedade participaria permanentemente da formulação, fiscalização e avaliação das políticas públicas. Tratava-se de um contrapoder institucionalizado, concebido para equilibrar o peso das burocracias estatais e dos interesses privados.

As Conferências Nacionais representaram o ponto mais avançado dessa experiência. Reuniam representantes da sociedade civil, especialistas, gestores e movimentos sociais para discutir diretrizes de políticas públicas em escala nacional. Em diversos momentos, suas resoluções influenciaram diretamente programas governamentais e legislações setoriais. Foram elas que chamaram a atenção dos pesquisadores estrangeiros ao demonstrar que era possível ampliar a democracia para além dos mecanismos representativos tradicionais.

Mas essa arquitetura nasceu com uma fragilidade estrutural.

Os conselhos deliberavam sobre políticas e fundos públicos, mas não controlavam efetivamente as fontes de financiamento desses fundos. Sua capacidade de intervenção dependia da preservação dos recursos destinados às áreas sob sua supervisão.

A primeira grande fissura surgiu em 1994, com a criação do Fundo Social de Emergência, posteriormente transformado em Fundo de Estabilização Fiscal e depois em Desvinculação das Receitas da União (DRU). O mecanismo permitiu ao governo federal utilizar recursos originalmente vinculados à seguridade social para outras finalidades orçamentárias.

A partir dali, os conselhos passaram a discutir políticas cujos recursos poderiam ser deslocados por decisões tomadas fora de sua esfera de influência.

O caso do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) tornou-se emblemático dessa vulnerabilidade institucional.

Criado em 1993 no governo Itamar Franco, sob forte influência da mobilização liderada por Betinho, o CONSEA incorporava integralmente o espírito da Constituição de 1988. Vinculado diretamente à Presidência da República, possuía uma composição singular: apenas um terço de representantes governamentais e dois terços de representantes da sociedade civil organizada. Sua presidência era exercida por um representante da própria sociedade.

Era uma experiência inédita de compartilhamento de poder entre Estado e sociedade.

Dois anos depois, o conselho foi extinto e substituído pelo programa Comunidade Solidária, coordenado pela primeira-dama Ruth Cardoso e estruturado em torno de parcerias e programas específicos. O episódio revelou uma verdade elementar: instituições criadas por decreto presidencial vivem e morrem por decreto presidencial.

Ao longo dos anos, os mecanismos participativos seguiram trajetórias semelhantes.

Alguns foram progressivamente esvaziados, como ocorreu em diversas áreas da saúde. Outros jamais desempenharam o papel previsto originalmente, como o Conselho de Comunicação Social. Alguns acabaram capturados pelos próprios setores que deveriam fiscalizar, fenômeno semelhante ao observado em diversas agências reguladoras. Outros simplesmente não saíram do papel ou permaneceram marginais ao processo decisório.

Enquanto isso, uma modalidade diferente de controle institucional ganhava força.

A Emenda Constitucional nº 45, da Reforma do Judiciário de 2004, criou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Ambos surgiram com a missão de fiscalizar corporações historicamente refratárias ao controle externo.

Mas existe uma diferença fundamental entre esses órgãos e os mecanismos previstos pela Constituição de 1988.

Os conselhos concebidos pela Constituinte expressavam o controle social da sociedade sobre o Estado. O CNJ e o CNMP representam formas de supervisão institucional exercidas dentro do próprio aparato estatal. São mecanismos relevantes, mas pertencem a uma lógica distinta.

O paradoxo é que os instrumentos de participação popular previstos pela Constituição perderam força ao longo do tempo, enquanto se fortaleceram mecanismos corporativos de autocontrole ou de controle entre corporações, com pouquíssima vontade de regular seus pares. E mesmo esses mecanismos passaram recentemente a sofrer pressões crescentes, especialmente por parte do Congresso Nacional.

A trajetória dos conselhos revela, assim, uma das contradições centrais da Nova República. A Constituição de 1988 procurou criar mecanismos permanentes para ampliar a influência da sociedade sobre o Estado. No entanto, tais mecanismos foram concebidos sem autonomia financeira e sem proteção institucional suficiente para resistir às mudanças de governo, às disputas orçamentárias e ao avanço do corporativismo.

O resultado foi um processo gradual de desconstituição da democracia participativa.

Hoje, o debate sobre o fortalecimento da democracia brasileira não deveria se limitar à defesa das instituições existentes. O desafio é recuperar a ideia original da Constituinte: criar formas efetivas de controle social capazes de equilibrar o poder crescente das corporações públicas e privadas. E, urgentemente, criar um Conselho Nacional de Segurança Pública e um Conselho Nacional de Defesa.

Afinal, o problema contemporâneo não é a ausência de mecanismos de controle. É a ausência de mecanismos pelos quais a própria sociedade possa controlar aqueles que exercem o poder.

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

9 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Guilherme Souto

    23 de junho de 2026 9:24 am

    É, Nassif, ainda suspiro, acredita?, quando lembro que nossos donos não querem nação, faça ideia um mero país?! Mas concordo com a suas ponderações. A propósito, estive na sua terra, como Poços é joia! Queria comprar a biografia do Moreira Sales no torrão, cheguei no Instituto e perguntei, nada! Pô, penso que deveria ter! O atendente disse que vez outra perguntam sobre, quem sabe na próxima, né?

  2. fabricio coyote

    23 de junho de 2026 9:31 am

    Maria Conceição Tavares já alertara sobre as conquistas da Carta de 88, assim como Milton Santos, de que a elite avançaria sobre os direitos garantidos. A ironia é que o PT é o principal vetor das mudanças via PEC’s que beneficiaram o sistema financeiro, assim a derrogação do art. 192. Depois de Lula será o caos exponenciado.

    https://youtu.be/J9hZ70SCwyg?is=iOUBmBDJkm3pzm-l

  3. Josezezinho.marcelo

    23 de junho de 2026 9:40 am

    É só tirar o congresso 80 por cento bolsonarista q sangram o dinheiro público em “obtas”superfaturadas,políticos do tipo q sobem em carros de som em avenida superlotada de pessoas manipulafas q defendem ilícitos contra o Estafo e vão contta decisões juridicas da alta instânciaaiseremos felizes para sempre e o Nassif tera um bom emprego novamente em alguma empresa da elite é só não bater de frente muito no sistema financeiro neolibetal improdutivo !!!

  4. Pedro Rocha

    23 de junho de 2026 11:29 am

    Tenho duas pontuações. Primeira: não tem como manter uma pocilga limpa melhorando os métodos de limpeza. É como aumentar a eficiência do enxugamento do gelo. Qual a opção: substituir os porcos por animais com outros padrões de higiene. A melhor, mas infelizmente uma das pouquíssimas pessoas que salientam tal aspecto, trata-se do Professor Aldo. É a versão que joga luz sobre a ética, a conduta, as boas práticas. Com mais um patamar de ação, qual seja, não tem vencer sem meios de comunicação e informação. Assim: “o passado controla o presente e quem controla o presente e quem controla o presente determina o passado”. É uma alternativa subjetiva e incremental. Segunda: substituir os porcos por animais com outros padrões de higiene. Neste caso, só com a aprovação de leis para remodelar o contexto, sobretudo no que diz respeito à reposição de novas lideranças. Significa alterar as regras eleitorais, como a diminuição de partidos políticos e, principalmente, o sistema de voto em listas fechadas. Ou seja, mais do que nunca, reduzir a influência dos barões, duques e condes do nosso neo-feudalismo escravagista.

    1. Guilherme Souto

      23 de junho de 2026 7:17 pm

      Amigo, uma pergunta, você se refere ao Aldo Rebelo?

  5. Naldo Gomes

    23 de junho de 2026 9:31 pm

    Nassif, vc sempre fala isso, como se fosse fácil. Pessoas bem intencionadas , na marra , não faz. Não há possibilidade de o sistema político chinês ser implementado. Até porque, cada povo tem uma cultura.
    Fazer com estes políticos sendo eleitos não dá. O PRÓPRIO POVO NAO ESCOLHE CORRETAMENTE
    O POVO A CADA 4 ANOS VAI DA ESQUERDA PRA DIREITA SEM MEDIR A NECESSIDADE DE RECONSTRUIR O PAÍS.

  6. Sergio Navas

    24 de junho de 2026 10:07 am

    Imperativo abrir discussão sobre a nocividade que é a terceirizacao dos serviços que deveriam ser executados pelos órgãos públicos das três esferas de governo.
    A terceirizacao é o atalho da corrupção.

  7. Veritas

    24 de junho de 2026 3:57 pm

    O Brasil nos últimos anos ganhou mais associações civis que se dedicam a causas públicas, como Transparência Brasil, Todos Pela Educação, dentre outros. Ganhou também institutos especializados em políticas públicas, como IEPS, UMANE, ( Saúde pública),ABES ( Saneamento Básico), dentre outros. Ganhou ainda veículos de imprensa alternativa de qualidade, GGN, ICL Brasil e outros, que também fortalecem a cidadania. Os órgãos de controle social deveriam ter cotas para representantes destas associações e dos institutos especializados. Os conselhos de participação social, nos diferentes setores da administração pública das diferentes esferas de governos, deveriam ter os seguintes poderes: consultivo, deliberativo sobre prioridade de ações no setor, de monitoramento e fiscalização e de proposição normativa e orçamentária.

  8. Marcos Vinicius

    28 de junho de 2026 3:53 pm

    A Constituição Federal se refere como a sociedade interna se organiza, direitos, deveres e princípios que norteiam o país. É uma grande e ótima Constituição – se você souber os princípios que a regem e os objetivos a serem alcançados. Agora temos que ter um instrumento de lei para o Estado Brasileiro agir conjuntamente – obrigando os três poderes [Executivo, Legislativo [oposição e situação] e Judiciário] a agirem de maneira única com diretrizes de uma agenda nacional com amplo alcance – definida para três áreas estratégicas [Economia, Segurança & Defesa Nacional e Relações Exteriores] – focando em temas que jamais permitiriam pelo que estamos passando como chantagem institucional, traição clara aos interesses nacionais por alguns grupos políticos, imigração sem controle efetivo, espionagem industrial estrangeira sem resposta institucional, juiz e promotor [lembram do paranaense?] destruindo empresas estratégicas – enfim. Uma legislação que seja de controle e implementada obrigando todos os três poderes a serem convergentes – daí não tem jeito – assuntos internos [podem divergir e se pegarem no tapa] o que temos na legislação interna pode dar conta, mas em questão de país precisamos de uma legislação que instrumentalize os três poderes a agirem de maneira conjunta em assuntos definidos como Interesse Nacional, só assim podemos despolitizar e financiar pesquisa cientifica, reforçar as Universidades Públicas, costurar contratos para compras de equipamentos militares com empresas nacionais, criar centros de pesquisas para doenças negligenciadas, levantar dados e critérios para saúde, educação e políticas públicas sem interferência política direta. O país está em ataque por nações que estão bem coesos internamente. Não vejo como fortalecer o país se não for através de uma agenda comum. Enquanto houver desacordo entre os três poderes para assuntos estratégicos, haverá sempre brechas para aqueles que querem tumultuar a democracia brasileira.

Recomendados para você

Recomendados