Bolsa respiro ou a estagnação da miséria, por André Motta Araújo

Com todas as lições da História, é inacreditável que ainda existam mentes no Brasil que se iludem com a quimera do "investidor" resgatando o País da crise

Por André Motta Araújo

Quando Franklin Roosevelt assumiu a Presidência dos Estados Unidos em março de 1933, encontrou a economia em ruínas, com uma taxa de desemprego superior a 25%, milhares de bancos fechados, fábricas paralisadas, não havia nenhuma perspectiva de saída da então considerada a Grande Depressão, causada não apenas pela queda da Bolsa de Nova York em outubro de 1929, mas mais ainda pelas políticas ortodoxas, de corte de gastos públicos, do seu antecessor Herbert Hoover, um Republicano que achava não haver outro caminho que não fosse o “ajuste fiscal” para compensar a queda de
arrecadação e nada mais havia a fazer.

A Depressão acabaria em algum momento do futuro por ação divina, isso o que pensavam os conservadores empedernidos, era esperar que o sacrossanto “mercado” resolvesse sozinho a crise. Roosevelt, aconselhado por Keynes, tinha outra proposta. Os conselhos de Keynes vieram por uma carta aberta publicada no jornal The New York Times de 31 de maio de 1933 mas Keynes já se correspondia antes com Roosevelt.

Roosevelt lançou um plano de grandes investimentos públicos, o NEW DEAL, para criar empregos mas sabia que esses gastos levariam tempo para ser implementados, era preciso algo mais imediato e de efeitos rápidos para gerar renda e demanda para fazer andar a roda da economia.

Criou então o CIVILIAN CONSERVATION CORPS, o Serviço Civil de Conservação, para limpeza e reparos em parques e rodovias, recrutando todos os jovens de 18 a 25 anos que se apresentassem, depois alargou para 17 a 28 anos, TODOS seriam contratados com um salário de 30 dólares ao mês, hoje equivalente a 580 dólares, mais alojamento, comida e saúde garantidos. Passaram pelo programa 3 milhões de jovens, gerando renda e demanda que foi o começo da recuperação econômica. Esse foi apenas um dos programas do NEW DEAL, outro foi a COMPANHIA FINANCEIRA DE RECONSTRUÇÃO ( Reconstruction Finance Corp.) para resgatar 8.000 bancos falidos e milhares de fábricas
fechadas, FOI UM RESGATE DA ECONOMIA PELO ESTADO, para horror dos “conservadores” liderados por Hoover e seu secretário do Tesouro, Andre Mellon, bilionário banqueiro de Pittsburgh, que achavam que as medidas de Roosevelt eram aparentado com o “comunismo soviético”.

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A Suprema Corte, quase toda nomeada pelos Republicanos, tentou barrar o New Deal. Roosevelt ameaçou aumentar o número de juízes e 9 para 17, foi impressionante a força de Roosevelt para enfrentar os conservadores e resgatar a economia CONTRA a vontade deles, que não se sensibilizavam com a miséria dos desempregados que dormiam nas ruas, um drama que foi magistralmente tratado pela DRAMATURGIA SOCIAL AMERICANA, por escritores como Arthur Miller, Theodore Dreiser, William Faulkner, Eugene O’Neill, Clifford Odetts, Ernest Hemingway, mostrando uma crise social que depois foi esquecida pelos neoliberais dos anos 70 e mais ainda pelos neoliberais brasileiros.

Para poder implementar o New Deal era fundamental operar uma POLITICA MONETÁRIA EXPANSIONISTA, imprimindo dólares, o que só seria possível trocando o comando do banco central, o Federal Reserve System, cujo Chairman, Eugene Meyer foi demitido por Roosevelt logo no início de seu governo.

Apesar da grande expansão monetária para financiar o New Deal, não houve inflação porque havia capacidade ociosa na economia, como há hoje no Brasil.

Aos tolos que propõe a independência do nosso Banco Central, lembrem-se que nos EUA a independência do FED é mais teórica do que real. Roosevelt demitiu Eugene Meyer e Truman demitiu Thomas MC Cabe, sem nenhum problema, Trump ameaça demitir Jerome Powell, que ele mesmo nomeou.

UMA BOLSA RESPIRO

Programas sociais de rápido efeito são possíveis no Brasil, o Bolsa Família é apenas um deles, mas é possível criar outros com novos critérios, a exemplo do Civilian Conservation Corps. O economista MILTON FRIEDMAN, guru de tanta coisa para os neoliberais, tinha perfeita noção da importância de programas sociais. Ele propôs a criação de um mecanismo que é a ideia-base do BOLSA FAMÍLIA, para aqueles que NÃO TÊM COMO COMPETIR NO MERCADO, por insuficiência de aptidões de origem familiar e educacional.

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Friedman tinha consciência que o SISTEMA DE MERCADO só funciona com agentes aptos a operar no mercado por aptidões presentes em suas capacidades pessoais. Ele era um intelectual civilizado e humano e tinha perfeita consciência que o sistema de mercado era o melhor MAS não era perfeito. Esse lado intelectual de Friedman é desprezado pelos neoliberais, inclusive a aptidão de Friedman de rever muitos de seus dogmas, o que fez no fim da vida em longas conversas com seu adversário doutrinário, Alan Greenspan.

Traço um longo perfil de Friedman em meu livro de 2005, MOEDA E PROSPERIDADE (Top Books), pelo qual se vê que os neoliberais brasileiros usam uma pequena parte do instrumental do guru de Chicago, só a parte que lhes interessa e não o conjunto do sistema que pouco compreenderam.

Os saques antecipados do FGTS são um mecanismo da categoria de BOLSA RESPIRO para mover a demanda MAS é possível fazer muito mais, com resultados rápidos para o início de um ciclo de crescimento que JAMAIS se dará exclusivamente pelos pretendidos investimentos em concessões e privatizações que mesmo que existam, o que é ainda duvidoso, NÃO terão a força para gerar empregos, demanda e mover a roda da economia para o crescimento.

A economia brasileira jamais sairá da recessão sem a ação do Estado, toda a História Econômica dos últimos 200 anos mostram que só o Estado tem os instrumentos MACRO para resolver crises econômicas, a última prova foi em 2008 na economia liberal dos EUA, salva pelo Tesouro.

Com todas as lições da História, é inacreditável que ainda existam mentes no Brasil que se iludem com a quimera do “investidor” resgatando o País da crise.

12 comentários

  1. Guerreiro citando Guerreiro em um texto anacrônico chatíssimo. Se a esquerda quer vencer a guerra semiótica, tem que largar a mão de ser tão pedante.

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  2. Roosevelt talvez tenha sido o último a salvar uma crise financeira com investimento na economia real (e não na ridícula economia contábil de cortar as pernas de um corredor com sobrepeso para aliviá-lo).
    Sim até mesmo Eisenhower, apesar do boom de pós guerra, percebeu o nefasto poder da banca, que só produz crises ou concentração de riquezas, ganhando dinheiro com dinheiro.
    A solução da crise de 2008 não teve 1 miliwatt de investimento em economia real, apenas salvar os próprios criadores da crise com o “quantitative easing” (metáfora para imprimir e entregar dinheiro público a eles), pois hoje o domínio financeiro é tal que ninguém teve coragem de deixar quebrar os que “não podiam”.
    Crise por crise, a quebradeira talvez fosse até pior, mas teria o sentido de que é melhor ficar roxo uma vez do que amarelo o tempo todo. Ou vomitar o veneno, do que ficar tomando remédios paliativos a vida toda.
    No Brasil, ainda pior, não temos sequer investidores para a economia real (indústrias, tecnologia, serviços avançados, etc.). O negócio é ganhar com juros, câmbio e mutretas relacionadas. Indústria arrasada, e o que resta é de fora. Até nossos ruralistas advém de concessões de terras do império ou grilagens de ricas florestas, para uma economia de “alto rendimento” (para eles), que não gera empregos (a menos de capangas), tem incentivos internos e para exportar, gerando uma riqueza concentrada através de exportação (madeira, soja e carne) que seque nos serve localmente. Tudo subsidiado. Cada vez mais tudo é estrangeiro, inclusive nossas estatais.
    Para não ser injusto, há 2 segmentos bem nacionais que prosperam em terra brasilis:
    Segurança privada: geralmente de empreendedores expulsos de forças policiais e/ou militares. Há uma vertente que chamam de “milícias”, e até ajudaram (no mínimo) a eleger um presidente.
    Religião: um negócio bilionário, cujo lucro não presta contas e sequer paga impostos, com a vantagem de influenciar corações e mentes com as promessas de curas públicas em 3 minutos e passaportes para o paraíso, pagos em suaves prestações mensais dizimais (será que a raiz é a mesma de dizimar?).
    Ou seja, como aqueles insetos em que a vespa os anestesia com seu veneno e põe seus ovos, estamos sendo devorados vivos como zumbis.
    O que resta sempre são carcaças…
    E novas vespas.

  3. Roosevelt talvez tenha sido o último a salvar uma crise financeira com investimento na economia real (e não na ridícula economia contábil de cortar as pernas de um corredor com sobrepeso para aliviá-lo).
    Sim até mesmo Eisenhower, apesar do boom de pós guerra, percebeu o nefasto poder da banca, que só produz crises ou concentração de riquezas, ganhando dinheiro com dinheiro.
    A solução da crise de 2008 não teve 1 miliwatt de investimento em economia real, apenas salvar os próprios criadores da crise com o “quantitative easing” (metáfora para imprimir e entregar dinheiro público a eles), pois hoje o domínio financeiro é tal que ninguém teve coragem de deixar quebrar os que “não podiam”.
    Crise por crise, a quebradeira talvez fosse até pior, mas teria o sentido de que é melhor ficar roxo uma vez do que amarelo o tempo todo. Ou vomitar o veneno, do que ficar tomando remédios paliativos a vida toda.
    No Brasil, ainda pior, não temos sequer investidores para a economia real (indústrias, tecnologia, serviços avançados, etc.). O negócio é ganhar com juros, câmbio e mutretas relacionadas. Indústria arrasada, e o que resta é de fora. Até nossos ruralistas advém de concessões de terras do império ou grilagens de ricas florestas, para uma economia de “alto rendimento” (para eles), que não gera empregos (a menos de capangas), tem incentivos internos e para exportar, gerando uma riqueza concentrada através de exportação (madeira, soja e carne) que seque nos serve localmente. Tudo subsidiado. Cada vez mais tudo é estrangeiro, inclusive nossas estatais.
    Para não ser injusto, há 2 segmentos bem nacionais que prosperam em terra brasilis:
    Segurança privada: geralmente de empreendedores expulsos de forças policiais e/ou militares. Há uma vertente que chamam de “milícias”, e até ajudaram (no mínimo) a eleger um presidente.
    Religião: um negócio bilionário, cujo lucro não presta contas e sequer paga impostos, com a vantagem de influenciar corações e mentes com as promessas de curas públicas em 3 minutos e passaportes para o paraíso, pagos em suaves prestações mensais dizimais (será que a raiz é a mesma de dizimar?).
    Ou seja, como aqueles insetos em que a vespa os anestesia com seu veneno e põe seus ovos, estamos sendo devorados vivos como zumbis.
    O que resta sempre são carcaças…
    E novas vespas.

  4. Hoje no Brasil existem 14.000 obras publicas paradas

    se reativadas, quantos milhões seriam empregados imediatamente ?

  5. Para muitos, é bolsa suspiro…
    Com essas ofertas de retiradas desde Temer, o que acontece é que a pouca poupança (objetivo original do FGTS para a velhice, a demissão ou a aquisição de moradia), o que estão fazendo é média enquanto criam uma população que nada mais terá a recorrer além de viver na miséria ou escravidão.
    Nossa “elite” não entende que a maior riqueza de uma nação é sua gente.
    Com sua mediocridade, ignorância, despreparo e ganância, nunca entenderão

  6. Este artigo deveria ser a luz do farol da oposição contra Bolsonaro, este governo q AMA TANTO OS EUA e taí um grande exemplo,Bolsonaro dá sorte q esta informação RELEVANTE/ESTRATÉGICA/PRINCIPAL/DEMOLIDORA e etc… não chega ao povão e se chegar,deve ser muito bem trabalhada insistentemente!
    Obs:Ama não sei pq mas este artigo em um Primeiro momento não me pareceu atraente e condizente com o conteúdo estupendo e demolidor q se encaixa como uma luva contra o governo antiemprego Bolsonaro,me parece algo psicológico,subconsciente da minha parte e q com certeza não atinge somente a mim e tem um motivo bem plausível por trás, não sei se é o título,sei lá AMAAAAAAAAA !!!(André Motta Araújo)

  7. + comentários

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