Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU e a reverência à política externa de Trump, por Roberto Goulart Menezes

Para reverenciar a política externa de Trump, o presidente brasileiro voltou a atacar a China, embora sem citar o gigante asiático diretamente.

Bolsonaro, em mensagem pré-gravada, transmitida na abertura da 75a AGONU, em NY, em 22 set. 2020 (Crédito: ONU)

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU e a reverência à política externa de Trump

por Roberto Goulart Menezes

curto discurso de Jair Bolsonaro na abertura da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas serviu para reafirmar seu alinhamento incondicional aos Estados Unidos de Donald Trump. A reverência à política externa de Washington teve como pano de fundo a defesa do mundo livre e dos valores do Ocidente em um roteiro conhecido de todos e que parece ecoar certos aspectos da Guerra Fria.

A crise sanitária global provocada pela covid-19, e que praticamente paralisou a economia mundial e ceifou um milhão de vidas, foi mencionada de passagem pelo presidente Bolsonaro. Ele listou algumas medidas que seu governo teria adotado no enfrentamento desta pandemia, expondo a distância entre o discurso na ONU e seu reiterado comportamento negacionista sobre a conjuntura atual.

Indiretas para China e acusações à Venezuela

Para reverenciar a política externa de Trump, o presidente brasileiro voltou a atacar a China, embora sem citar o gigante asiático diretamente. Ao mencionar a Internet 5G, setor liderado pela empresa chinesa Huawei e um dos alvos da política protecionista de Trump, o presidente descreveu as condições para se ter acesso ao mercado brasileiro: “com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados”. Uma agressão gratuita ao maior parceiro comercial do Brasil e que tem como objetivo demonstrar o alinhamento aos Estados Unidos. Talvez o presidente pudesse discorrer sobre alguns aspectos da ordem internacional contemporânea e destacar a importância do Brics, da presidência brasileira no Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), sediado em Xangai, ou falar da governança global.

Também de forma indireta, a China apareceu no discurso de Bolsonaro quando o presidente fez menção à necessidade de se reformar a Organização Mundial do Comércio (OMC): “reafirmo nosso apoio à reforma da Organização Mundial do Comércio que deve prover disciplinas adaptadas às novas realidades internacionais”. Fica-se sem saber ao que, de fato, ele se refere com “reformar” a OMC, pois o presidente Trump trabalhou para inviabilizar o órgão de solução de controvérsias da entidade em dezembro de 2019. Nem mesmo a saída antecipada do diretor-geral da OMC, o diplomata brasileiro Roberto Azevêdo, mereceu uma nota em sua fala.

Outro ponto exaltado no discurso foram os recentes acordos mediados pelos EUA no Oriente Médio. Vale lembrar que Trump sempre se colocou ao lado de Israel no conflito com os palestinos, transferiu a embaixada norte-americana para Jerusalém e segue ameaçando o Irã. No Brasil, tanto o presidente como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, são entusiastas de que o país também faça de Jerusalém a sede de sua embaixada. Até o momento, o receio do agronegócio em ter suas exportações ameaçadas nos mercados do Oriente Médio tem sido um dos obstáculos para o adiamento do plano do governo.

Dias antes do discurso na AGONU, a diplomacia de Bolsonaro protagonizou um dos maiores vexames da política externa brasileira. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, também um dos cabos eleitorais de Donald Trump, foi recebido por Araújo na capital de Roraima para discutir o futuro da Venezuela.

O norte-americano parecia muito à vontade ao lado de Araújo e declarou “vamos tirar Maduro de lá”, com o sorriso complacente do ministro Araújo. A declaração de Pompeo soou como uma declaração de guerra contra a Venezuela, despertou protestos de parlamentares, do presidente da Câmara dos Deputados e resultou em um convite (era para ser uma convocação) do chanceler para explicar aos senadores o significado real da visita.

Ainda em seu discurso na Assembleia Geral, o presidente brasileiro fez graves acusações contra a Venezuela e, apoiado na retórica da defesa dos valores do Ocidente, do mundo livre e da democracia, endossou o cerco ao país vizinho, vocalizado por Pompeo apenas quatro dias antes. Um dos pontos mais graves foi quando acusou a Venezuela do derramamento de petróleo no litoral brasileiro, uma das maiores tragédias ambientais do país, sem que as investigações tenham sido conclusivas a esse respeito.

Realidade paralela

Ao orientar seu discurso pelo alinhamento com os EUA de Trump, Bolsonaro apequena o Brasil e usa esse importante espaço para fazer a defesa de seu governo naquilo que ele é mais indefensável: a política ambiental. A ruptura promovida por Bolsonaro e por seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na política ambiental empurrou o Brasil para a condição de pária internacional. E, novamente, os ataques aos povos indígenas surgiram no discurso para encobrir os criminosos que destroem a floresta Amazônia. Na narrativa bolsonarista construída para a abertura da AGONU, são os “indígenas” e demais povos tradicionais (“caboclos”) os responsáveis pelo desmatamento e pela incineração da floresta. Na geopolítica ambiental, Bolsonaro se apoiou no velho discurso da internacionalização da Amazônia e, a despeito de todas as evidências em contrário, garantiu:” mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental”.

O mundo descrito em seu discurso foi o de uma realidade paralela. Nele, não existe destruição ambiental no Brasil, a democracia está fortalecida, e a sociedade civil é ouvida. A novidade desse discurso é que ele se assume abertamente de extrema direita e faz a defesa da religião nas relações internacionais, defendendo o combate à “cristofobia”. Na narrativa do presidente, o Brasil é um país conservador, cristão e onde devem imperar os valores da família.

Para um país que se tornou um pária internacional, a imagem e o discurso de Bolsonaro hoje nas Nações Unidas contribuíram para confirmar o que se constata diariamente: que a democracia no país está sob forte ataque, e as fake news guiam esse governo. Seu discurso foi um dos mais vazios já pronunciados na AGONU e mostrou, em si, o desprezo do interlocutor por essa mesma organização onde foi professado.

* Roberto Goulart Menezes é pesquisador do INCT-INEU e professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

** Recebido em 23 set. 2020. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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