Brasil e Argentina: tragédias neoliberais, por André Motta Araújo

Dois resultados catastróficos, pobreza crescente, desemprego, fechamento de fábricas, concentração de renda, um pequeno núcleo rentista bem de vida, uma massa sem esperança.

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Brasil e Argentina: tragédias neoliberais

por André Motta Araújo

Dois países muito diferentes, mas com política econômica seguindo a mesma escola de pensamento. Dois resultados catastróficos, pobreza crescente, desemprego, fechamento de fábricas, concentração de renda, um pequeno núcleo rentista bem de vida, uma massa sem esperança.

Ah, dirão os ignorantes, então você quer uma nova Venezuela? Pensam eles que só existem, no mundo, dois caminhos: ou é Maduro ou é a Escola de Chicago.

POLÍTICA ECONÔMICA É UMA MESCLA DE INSTRUMENTOS

Comandar a política econômica de um grande país exige CÉREBRO BRILHANTE, liderança para convencer, uso de ferramentas variadas a cada dia.

Não é para qualquer um, entre 100 bons economistas não se encontrará um Ministro, mas ser economista NUNCA foi a regra para comandar a economia de qualquer País, nem no Brasil, nem nos EUA. No Brasil, entre 97 Ministros da Fazenda da República, apenas 11 foram economistas, nos EUA no Século XX dois Secretários do Tesouro foram economistas. O perfil necessário é LIDERANÇA.

No Brasil, o mais versátil e mais criativo Ministro da Fazenda em períodos completamente diferentes e em circunstâncias dificílimas foi Oswaldo Aranha, que era tudo menos economista. Já Delfim Neto combinou espetacularmente o perfil de professor de economia com capacidade de liderança e convencimento, assim como Roberto Lavagna na Argentina, Donald Regan e James Baker nos EUA. Estes últimos, ambos advogados, tiveram outros cargos políticos, Regan foi Chefe da Casa Civil do Presidente Reagan (85-87) depois de ter sido um excelente Secretário do Tesouro (81-85), Baker foi Secretário de Estado de Bush pai (89-92) depois de ter sido Secretário do Tesouro de Reagan (85-88). Quer dizer, eram líderes ecléticos, para a articulação, para a diplomacia mundial, não eram limitados à economia, eram operadores de política.

POLÍTICA ECONÔMICA NOS GOVERNOS DILMA E CRISTINA KIRCHNER

Foram em ambos os governos RUINS por falta de liderança e capacidade nos comandos da política econômica. O Ministro Guido Mantega era um bom professor de economia, mas não um brilhante comandante da economia. No governo de Cristina Kirchner foram cinco maus Ministros, alguns desconhecidos como portadores de qualquer tipo de capacidade técnica ou política e muito menos prestígio internacional, escolhas péssimas.

Países emergentes requerem um OPERADOR TIPO MAESTRO com comando micro e macro, não basta ser formulador, é preciso capacidade política para comandar. Delfim tinha essa capacidade técnica e política e sabia comandar, assim como Oswaldo Aranha. Não é coisa fácil, não se consegue sempre, às vezes falha, mas é um perfil raro e necessário e é o que define o sucesso ou fracasso da política econômica e não seguir uma “escola”, que pouco vale.

JK teve um político clássico, Jose Maria Alkmin. Políticos são geralmente ótimos Ministros da Fazenda porque sabem liderar e comandar.

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A RECEITA NEOLIBERAL PARA PAÍSES EMERGENTES

A impropriamente chamada “escola neoliberal” como política econômica foi tentada em alguns países emergentes de governos medíocres. Não se aplica esse tipo de fórmula em países avançados, onde a política monetária é usada como um fole ou uma sanfona, se expande e se contrai para garantir o emprego e o crescimento, sem seguir “mandamentos” como os estratificados neoliberais que comandam esse “bunker da burrice”, o Banco Central do Brasil, instituição que, desde 1994, é incapaz de apresentar alguma ferramenta operacional no caminho do emprego e do crescimento e algo novo na sua política monetária. Porque não expandir a emissão de moeda, congelada há vinte anos, invés de emitir dívida pública, que é moeda com juros?

Dentro de certos limites, em uma economia estagnada há cinco anos, há espaço para expandir moeda e crédito SEM INFLAÇÃO em boa escala, criando renda e demanda e assim fazendo crescer a economia e a arrecadação, QUE ESTÁ CAINDO MÊS A MÊS.  Para executar uma política dessas é preciso um piloto exímio, calibrando o fole todo dia, expande um pouco, vê o efeito sobre a inflação, se nada acontece expande mais, é uma calibragem dia a dia, não é um plano de “escola”, é uma operação a quente, hora a hora. Dá para fazer uma grande expansão monetária sem inflação dada a ociosidade na economia, a expansão aplicada em obras paradas, em novas obras de saneamento, em moradia popular, puxando o emprego, renda e crescimento.

É espantosa, inacreditável a mediocridade, a mesmice, a retranca, a pasmaceira das direções do Banco Central nos últimos 20 anos. Gente sem sangue, sem alma, sem vibração, sem projeto de País, sem preocupação com o desemprego e a miséria da maioria da população, burocratazinhos de mercado, segurando centésimos de um por cento em seus índices de inflação. MAS É SÓ ISSO? BANCO CENTRAL NÃO É SÓ ISSO. Banco Central está ligado ao futuro do País, a prosperidade e bem estar do povo, não existe para só garantir os lucros do fundo especializado em montagens câmbio-índices-juros de Nova York.

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Hoje todos os bancos centrais, a começar do Europeu e do FED estão preocupadíssimos com o crescimento, NÃO É SÓ COM A ESTABILIDADE.

Como o Brasil cometeu em 1994 a loucura de entregar de porteira fechada o Banco Central ao “mercado”? Não teve, desde 1994, um ÚNICO dirigente, mesmo nos governos do PT, fora do mercado, os presidentes e diretores foram 100% do “mercado”. Por que? Há no Brasil excelentes economistas sem ligações e compromissos com o “mercado”. Um novo governo pode restabelecer o controle de câmbio e colocar gente fora do mercado no BC. O FMI aceita, nos estatutos, controle de câmbio, não é crime.

O Brasil foi membro pleno do FMI de 1945 a 2013 com controle de câmbio, quem revogou o controle foi o governo Dilma. Hoje os bancos se autorregulam, não precisam pedir autorização do BC para remeter. Uma aberração, hoje o BC existe voltado para fora, para dar segurança cambial aos horrendos gestores de fundos “hedge” nova-iorquinos.

A mídia baba-ovo fala em dar previsibilidade quando é o contrário, o Banco Central tem que ter a arma de poder “surpreender” o mercado, ele deve mandar no jogo guardando a carta maior, não deve jogar para o mercado. O Banco Central tem que ter um lado, o País, e não estar sempre lambendo o mercado, como faz com o inacreditável boletim FOCUS.

Quem estruturou esse BC “do mercado” foi Armínio Fraga, ligado aos fundos de New York (até hoje). Ele implantou o boletim FOCUS, que diz ao BC o que o BC deve fazer para agradar ao mercado, e os “Working Papers”, discussões de teses publicadas pelo BC do Brasil em inglês, escritas por brasileiros, um viralatismo asqueroso e subserviente. Desde Armínio, o Banco Central do Brasil vive para o “mercado” (de fora) e não para o Brasil.

BRASIL E ARGENTINA

Macri foi saudado como salvador da economia Argentina, implantou o choque neoliberal a frio, sem nenhuma inteligência ou sensibilidade política, sempre seguindo os mantras dessa escola de horrores que a Argentina já viveu nas trágicas gestões de Martinez de Hoz e Domingo Cavallo. Não deram certo e abriram caminho para a volta do peronismo com os Kircheners.

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A única gestão brilhante nesse período foi a de Roberto Lavagna, uma espécie de Delfim argentino, foi o primeiro Ministro da Fazenda de Nestor Kirchner (2002-2005) , conseguiu levantar a moratória e dar impulso à economia.

Kirchner inventou um enfrentamento com Lavagna porque sentiu nele um potencial candidato a sua sucessão e o fulminou. Foi um Ministro brilhante, eficiente, com projeto de Pais. Lavagna hoje com 77 anos é candidato potencial à sucessão de Macri. Seria uma ótima solução, mas argentinos não costumam correr o risco de acertar. A eleição de Cristina é uma possibilidade, se ela voltar, com os mesmos “golden boys”, o resultado será o desastre de sempre.

Além disso Cristina é uma liderança ruim, desagregadora, dela não resulta nada de bom, tem uma visão tosca da realidade.

A ECONOMIA DO BRASIL ATÉ 2022

Será um desastre absoluto com crescimento negativo mantida a mesma política monetária. A tal “reforma da Previdência”, se e como passar, não moverá um milímetro o crescimento do País, porque a reforma em si não tem nenhuma relação com crescimento e não será por causa dela que alguma coisa vai acontecer nesse quesito. “Ah, vai restabelecer a confiança”, dirão os inacreditáveis (pela ignorância) comentaristas econômicos da mídia brasileira.

Não é isso que move crescimento, é DEMANDA! Mesmo com bagunça, inflação, crise cambial. Investidor que gera empregos é da economia produtiva e este não está nem aí para previdência, está em busca de fregueses para seus produtos, convive perfeitamente com inflação e bagunça fiscal.

A crise de emprego está em um ponto limite, que é a falta de comida para o almoço, privatização, dívida pública. Previdência não resolve a curto prazo o problema da família sem comida, não venham com equações de Chicago explicar isso para o desempregado.

NEOLIBERALISMO BEM GERIDO É UM DESASTRE POLÍTICO PORQUE AUMENTA A RENDA DO RICO E DIMINUI A DO POBRE.

NEOLIBERALISMO MAL GERIDO É VENENO NA VEIA DE PAÍSES EMERGENTES, NÃO HÁ EXEMPLO HISTÓRICO DE ACERTO, É PORTA DE CRISE CERTA.

AMA

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13 comentários

  1. Prezado André
    No Governo Lula tivemos um ministro da economia que não era economista, mas foi adestrado pelo mercado para pensar para e por eles (com a batucada de nossa mídia porca)
    E começo a ter certeza que esse capitalismo financeiro não produz apenas miséria, está ameaçando a própria existência da espécie humana.
    De novo, é um grande prazer ler seus posts

  2. Sabe André o Brasil(oposição) está com uma oportunidade única neste momento,o de mostrar ao país o porquê desta desgraça provocada principalmente pelo setor financeiro,suas nuances,o que significa a capitalização e precisamos acordar para a necessidade de algum tipo de rompimento ou o não abaixar a cabeça pra estes rentistas cheios de MAMATAS eu fico quase louco quando vejo esta nação se preocupar em dar mais dinheiro aos bancos(cães gulosos)e não cortar recursos q vão para especuladores por meio da dívida pública(quase metade)olha André se os partidos da oposição se empenhassem em EXPLICAR ao povão td isso,nós entenderíamos sim aliás tá fácil convencer/esclarecer todos, os BANCOS NÃO AGUENTAM O CORRETO ENFRENTAMENTO,muito me admira o corpo mole dos políticos neste tema,por isso não tô confiando neles mais !!?

  3. Permito-me discordar de apenas um ponto, Cristina K é a antítese de Macri, ela irá revogar todo o neoliberalismo à la Chicago Boys e pode sim restaurar a economia argentina, ela fez um bom governo. No mais, mais um excelente artigo do André Araújo, grife do GGN.

  4. COmo sempre outro excelente artigo. QUando Arminio Fraga assumiu o ministério imaginei que fosse uma pessoa que estava voltando ao país para colaborar e ajudar seu desenvolvimento. AFinal morando nos Estados Unidos estaria trazendo experiências que seriam proveitosas. ENgano meu, era mais um indivíduo como muitos do plano real quem voltou somente para aproveitar e ficar milionário. GOstaria de ver o André Araújo em alguma banca na televisão para contrapor essa estupidez que tomou conta do BRasil. ESsa estupidez e’ difundida de cabo a rabo. NA minha cidade, interior de São Paulo, e’ absurdo como esse comportamento na economia e’ defendido nas emissoras de rádio.

  5. “Dois resultados catastróficos, pobreza crescente, desemprego, fechamento de fábricas, concentração de renda, um pequeno núcleo rentista bem de vida, uma massa sem esperança.”
    O que impede os segundos de devorarem os primeiros?
    As polícias armadas?
    No Brasil são 400 mil policiais. A massa de desesperançados passa das dezenas de milhões.
    Vamos ser espoliados e condenados à fome sem reagir?

  6. Meu caro, Macri é ruim mas Cristina não terá projeto de equilibrio para salvar a economia argentina.
    Seu combate sem treguas à agricultura e a pecuária resultou na queda do rebanho de gado de corte de 60 milhões de cabeças para 32 milhões, Uruguai e o Paraguai ultrapassaram a Argentina em exportação de carne. Ele foi a primeira e unica Presidente a deixar de abrir (e de ir) à Feira de Palaermo, simbolo da pujança mundial da pecuaria argentina, porque tinha raiva do campo.
    Chefe de Estado tem que UNIR o Pais e não dividi-lo. Não tem como fazer um bom governo.

  7. Prezado André,
    O Brasil é o único pais capaz de ser autossuficiente em tudo e ainda exportar, sobretudo, alimentos para o mundo.
    (Que coisa tão boba as comodities agrícolas..mas como viver sem comer?)
    Enfim, é necessário um mínimo de razão para este país ser uma potência.
    Mas, 57 milhões de votos (de burros) colocaram um fantoche no governo. Um fantoche bem burro.
    Este fantoche segue as ordens do chefe: o governo americano. Aliás, este burro tuita, ou o filho o faz. O governo americano só disse: deixa com o Guedes.
    E o Guedes esse LA, esse cara, um DRÃO do mal (lembrei-me do Gil, não sei porquê).
    Enfim o Guedes veio aqui pra rapelar o erário público. Aliás o país todo.
    O neoliberalismo é um conjunto de mentiras que se usa pra manter o estado colonial. Uma charlatanice digna de outro charlatão, o Olavo.
    E assim, de mentira em mentira nós vamos seguindo. Quando esse país se tornar uma terra completamente arrasada a elite colonial acorda, o povo acorda. Mas estamos longe disso. Ainda tem muita coisa pra destruir.

  8. Sidnei : seu comentário foi perfeito. É inacreditável que uma Nação que possui TUDO, e não precisa de nada de ninguém de fora do seu território, não consiga enxergar isto, o óbvio. Doutrinados por 88 anos à aceitação e aprovação de opiniões estrangeiras. Quanto ao André Araújo, como sempre beirando à perfeição, dá nomes aos bois. 1994. Armínio Fraga. FHC e uma sequência de medíocres. ‘Loucura é fazer sempre as mesmas coisas, da mesma forma e esperar por resultados diferentes’. 40 anos de Redemocracia. 40 anos entre Lunáticos. Queremos algo diferente daquilo que construímos nestas 4 décadas? Digno de observação é notar que a Imprensa Brasileira, em especial a RGT, não saia da porta de Cristina Kichner durante seu governo e tentativa de prendê-la. Começavam e terminavam os telejornais da RGT a partir de Buenos Aires. Todos sumiram no Governo Macri. Por que será? Lembraram novamente da Argentina, agora depois da tragédia, absurdo, aberração do Governo NeoLiberal do moço. (P.S. Se me permitirem, no país que é um livro em branco, de pouca memória, a nota sobre Bidu Sayão foi extraordinária!!! Reverenciamos Maria Callas (merecidamente), quando temos Bidu Sayão. Contemporânea de Machado, Santos Dumont, Osvaldo Cruz, Carlos Chagas, Mario de Andrade, Tarsila,…1.a República. República Paulista. Que valo nos precipitamos a partir de 30? Já Fomos cabeça. Em rabo, nos transformamos. Obrigado)

  9. Então não leu nem o título! E, cá entre nós, que coisa mais ridícula esse “parei de ler”! Dá a impressão de ser um robozinho programado pra quando aparecerem determinadas palavras disparar um comentário pronto.

  10. O Brasil possui e utiliza mais ou menos os mesmos instrumentos e termos de discussão sobre a política econômica desde 1999, aliás, data de nossa última grande crise no Balanço de Pagamentos, quando o governo brasileiro de então se viu obrigado a aceitar os termos dos acordos impostos pelo FMI.
    Este conjunto de política econômica passou a ser conhecida, reconhecida, reivindicada, criticada, defendida, endeusada, odiada com a expressão: “tripé macroeconômico”, termo que passou a estar associadas, basicamente, a certo compromisso com a ideia de uma política de câmbio flutuante, metas de inflação e de superávit primário, esta última pintada e fantasiada da ideia de “responsabilidade” fiscal.
    Apesar dessa aparente “uniformidade”, “longevidade” (de fato 20 anos no Brasil é longuíssimo prazo!) e aparente “neutralidade” político-ideológica (foi adotada por governos de centro-direita tucanos e centro-esquerda petistas) nada mais diferente encontramos do ponto de vista de sua “aplicação” e principalmente dos “resultados” obtidos a partir dela.
    Como sabemos a forma de aplicar o tal tripé e os resultados econômicos obtidos foram os mais variáveis possíveis entre o segundo Principado Tucano, quando de fato o tripé começa a ser posto de pé, o primeiro e segundo mandato de Lula, o primeiro e o segundo mandato bloqueado e impedido de Dilma, o primeiro mandato ilegítimo e golpista de Temer e o atual desgoverno golpista de Bolsonaro.
    Fomos testemunhas ao longo desses 20 anos das mais variadas combinações entre a forma de aplicação dos “preceitos” econômicos associados ao tripé e os resultados econômicos obtidos e registrados nas principais variáveis econômicas de crescimento, emprego, inflação, fiscais, cambiais, etc, etc, etc. Nenhum deles simples, diretos ou inequívocos como fazem crer os críticos e defensores das politicas econômicos nesse nosso período histórico.
    Se adicionarmos esses 20 anos com os outros 20 anos anteriores que corresponde ao longo e doloroso processo de hiperinflação chegamos ao fim do longo ciclo de crescimento e industrialização da economia brasileira que começa nos anos 30 do século passado e vai até os anos do fim do milagre econômico brasileiro onde de alguma forma completamos o processo de industrialização por substituição de importações que caracterizou a maior parte do nosso processo histórico republicano e nacional.
    Desde o fim desse processo de industrialização que nos encontramos nesse impasse histórico incapazes de seguir adiante, descrentes de nossas próprias possibilidades e contradições. Essa paralisia e titubeio de dar o próximo passo para frente foi pouco a pouco constituindo uma espécie de tentação de retroceder sobre os nossos próprios passos e assim fomos senão destruindo certamente dilapidando o próprio capital duramente acumulado com o esforço de TODOS os brasileiros de TODAS as classes sociais.
    A ”dominância das Finanças”, uma espécie de associação e relação complexa entre as empresas que atuam no setor e as autoridades econômicas e monetárias, foi se estabelecendo e se fortalecendo ao longo desse longo período de impasse que, na verdade, ainda não conseguimos superar. Essa dominância foi se dando e se fortalecendo com o papel das Finanças primeiro como provedores de moeda indexada durante o longo ciclo de hiperinflação e segundo através do papel de mediadores e negociadores da divida externa brasileira durante o longo período de crise da dívida (1979-1994). Esses vínculos foram se reforçando e finalmente se cristalizaram no Principado Tucano aonde a dominância das Finanças chegou ao estágio atual de controle total da agenda econômica e de formação de uma espécie de classe social que quer controlar e regular o país. A partir desse o papel das Finanças foi mudando para o de agente de intermediação na venda do patrimônio público e de articulação dos capitais internacionais e nacionais através dos processos de privatização que começa em Collor e se aprofunda de fato com FHC. Mas é no controle da divida pública que essa dominância se faz mas forte e ameaçadora.
    Durante esse período foi se formando um consenso econômico em torno de uma espécie de classe social que nasce dentro do Estado, e que vai ocupando as áreas econômicas dos governos (Bacen, Tesouro Nacional, Ministérios, Secretarias, Empresas e Bancos Públicos na esfera federal, estadual e municipal) e vai pouco a pouco se associando com o setor financeiro e bancário nacional e internacional que atuam dentro e fora do Brasil, em um ponto onde as fronteiras entre empresas, estado e indivíduos se borram e se confundem. É essa nova classe social desiludida das possibilidades do país que projeta uma espécie de marcha atrás onde a critica a intervenção do Estado na economia passa a ser o centro de um novo discurso econômico que diz querer criar um setor privado (não importa se nacional ou internacional) que seja o novo motor e indutor do desenvolvimento econômico.
    Os governos petistas representaram uma tentativa, tímida às vezes, ingênuas e sem apoios outras, de tentar romper esse domínio e estabelecer outros vínculos para poder retomar aquele processo de desenvolvimento interrompido e incompleto de criar uma nação desenvolvida, democrática e que o fruto do crescimento e do desenvolvimento possa ser dividido entre TODOS de uma forma melhor do que foi feito até aqui. A reação a essa tentativa tem sido brutal e tem aprofundado esse estranho processo de parecer querer dar volta atrás em nosso desenvolvimento como nação.

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