Brasil em perigo, por Paulo Nogueira Batista Jr.

Eis o que quero frisar: não podemos, de forma alguma, perder de vista a importância que se atribui no exterior à questão ambiental e, em especial, à Amazônia.

Foto Araquém Alcântara

Brasil em perigo

por Paulo Nogueira Batista Jr.

Em toda a minha vida, já relativamente longa, nunca, mas nunca mesmo, vi o Brasil correr tanto perigo, tantos riscos. Fica cada vez mais claro que a crise iniciada em 2015 não é uma crise qualquer, mas um processo de desintegração e dissolução que coloca em risco a Nação. Como seria de prever, esse processo está alcançando o seu paroxismo com o governo Bolsonaro.

Bem sei, leitor, que o nosso País, com todas as suas extraordinárias qualidades, sempre teve também muitas vulnerabilidades. Carregamos pesada herança colonial-escravista, nunca inteiramente superada. Calabar e Joaquim Silvério dos Reis fizeram escola e seus discípulos ou sucessores sempre estiveram representados nas mais altas esferas, em maior ou menor medida.

Mas há precedentes para o que estamos vivendo agora? Vou mais longe: um governo de ocupação, que estivesse encarregado de desmontar o Estado brasileiro, faria melhor serviço? O propósito destrutivo está sendo levado a cabo às claras, sem disfarces. O próprio presidente da República proclama que seu objetivo é exatamente este. E a destruição já vem atingindo muitas áreas da administração pública, das políticas governamentais e da sociedade brasileira.

Tome-se como exemplo a área ambiental. Nas últimas décadas, o Brasil desenvolveu doutrinas, políticas e instrumentos nesse campo estratégico. Um dos instrumentos mais recentes, ainda em fase de consolidação, é o Novo Banco de Desenvolvimento, criado em conjunto com Rússia, Índia, China e África do Sul, banco do qual fui vice-presidente até 2017 e que tem como um dos seus objetivos centrais apoiar o desenvolvimento com sustentabilidade ambiental.

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Não há dúvida de que a eficácia das instituições e políticas ambientais brasileiras variou ao longo do tempo. O que foi feito pode e deve ser objeto de críticas e revisão. Mas a destruição pura e simples, a mudança abrupta de rumo, pontuada por medidas e declarações estapafúrdias, provocativas e até infantis, vem transformando o Brasil em pária internacional. É um convite ao desastre em tema que diz respeito a interesses fundamentais do País e à própria soberania nacional. Como se sabe, a questão central aqui é a Amazônia.

Não se trata, leitor, de um simples problema de “imagem” no exterior – aspecto que invariavelmente desperta o vira-lata que habita no brasileiro. Sempre acompanhamos, aflitos, manifestações mais críticas de americanos e europeus a nosso respeito – e, realmente, estas vêm se multiplicando na mídia e mesmo no discurso de lideranças políticas desses países. Também não se trata principalmente de um problema de perda de acesso a financiamentos externos ou a fundos dedicados à questão ambiental, ainda que isso possa certamente ocorrer ou até tenha começado.

O grande risco é outro – o de abrir o flanco, no médio prazo, para uma intervenção estrangeira no Brasil. Isso pode soar alarmista. Estou escolhendo as palavras com o devido cuidado. Eis o que quero frisar: não podemos, de forma alguma, perder de vista a importância que se atribui no exterior à questão ambiental e, em especial, à Amazônia. E nessa atenção que a Amazônia recebe há uma mistura perigosa de preocupações legítimas, relativas a repercussões climáticas globais, com a tradicional cobiça das grandes potências pela vasta reserva de recursos naturais valiosos e crescentemente escassos que temos na região Norte do País.

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O caminho mais rápido para perder soberania na Amazônia e, no limite, colocar em risco até a integridade territorial do Brasil é confrontar de maneira tosca as preocupações internacionais, isto é, continuar com a combinação de medidas inconsequentes e destrutivas com pronunciamentos espalhafatosos. Evidentemente, não temos motivo para aceitar sem contestação os “consensos” internacionais em matéria de ecologia e Amazônia. Os governos estrangeiros e organizações não governamentais que se dedicam a essa temática não são, nunca foram, inatacáveis. Mas o Brasil precisa se dirigir a esses temas, vitais para nós e para o resto do mundo, com espírito crítico, seriedade e competência profissional.

Se o governo federal perdeu o rumo nessa questão, como em tantas outras, cabe aos governos subnacionais, ao Congresso, às organizações da sociedade civil e aos especialistas fazer o que estiver a seu alcance para interromper o desastre que está se configurando.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

E-mail: paulonbjr@hotmail.com

Twitter: @paulonbjr

 

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6 comentários

  1. O pior é que mesmo depois de passar (sabe-se lá quando) desse período de boçalidade e mentira ainda vai demorar pra recuperar alguma credibilidade. Será preciso passar por aquela fase de “dar provas” de responsabilidade e confiança, parecido com o que os mercadistas falam da moratória ou do “calote”.

  2. Na boa? Intervenção estrangeira não é “risco”, é propósito (e, por “estrangeira”, leia-se, tão somente, “norte-americana”). É jogo ensaiado.

    O jogo é justamente extrapolar, escancarar no desmatamento, para que os norte-americanos possam contar com um pretexto perfeito para virem ocupar, em nome dos interesses maiores “do planeta” e “das futuras gerações”.

    Jamais poderia imaginar que chegaria ao extremo de sentir nostalgia de um tempo em que os militares APENAS tiranizavam, censuravam, oprimiam e reprimiam, contudo NÃO se prestavam a cúmplices do entreguismo e do vilipêndio da soberania da nação.

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    • O Brasil deve resguardar em sobremaneira a Amazônia por ser quase 50% do Território Nacional e lar de 1/4 dos Cidadãos deste país. O Brasil é dos Brasileiros. A própria matéria nos leva à situação de ‘vira-latas’ que as Elites que comandam este país há 9 décadas nos submeteram e aceitam. O Economista só está endossando tais distorções deste período Esquerdo-Fascista dos pós golpe de 1930. A Europa digladiando por manter seu Mercado AgroPecuário da avalanche avassaladora da competência e gigantismo brasileiro. Os NorteAmericanos tentando preservar seus nichos e mercados contra seu maior competidor, muito mais capacitado e promissor, que é a AgroPecuária Brasileira e suas AgroIndústrias. Precisamos sim analisarmos o porque de tantas críticas e menosprezo, atacando situações e polítricas que Europeus e NorteAmericanos não praticam em seus territórios. A época de inocência e submissão já acabou, assim como 9 décadas da Indústria do Atraso e Viralatismo.

  3. Congresso? Um bando de vendidos…….milionários que só pensam com o prorpio umbigo e que se dane o povo……

    Não será através de voto que esse país irá mudar………….até por que não se respeita o escrutinio popular quando não lhe é favorável……

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  4. Pelo nível de polarização que vem de dentro do “Golpe Profundo” tem que considerar o seguinte:
    As reformas ainda não foram finalizadas vão precisar “cicatrizar” e isso vai levar tempo!
    Aqueles que idearam este golpe sabem que precisam de no minimo uma década para sedimentar as reformas – não somos do tamanho de uma argentina, o que para nós agora é desvantagem. Se eles mudarem vão trazer os investimentos chineses para contrabalançar o peso na região e vão nos deixar cada vez mais a mercê de ação estrangeira, com interesses da argentina sobre nosso território!
    O nível de polarização captado na internet ainda é de tal forma agressivo que indica que já estamos no processo de uma guerra híbrida!
    Por quê?
    Você vê generais que têm ascendência na hierarquia militar dizendo coisas que beira a loucura!
    Nosso judiciário é de endoidar qualquer um e são eles guardiões de nossa constituição – leia-se verdade jurídica e de nosso território!
    Isso para uma força estrangeira com mais neurônios, pés no chão e muita tecnologia é um diferencial positivo imenso – a nossa fraqueza é boa para qualquer inimigo!
    Somos incapazes de entender que a riqueza vindas da biodiversidade amazônica pode ser superior a qualquer nível de atividade de extração de madeira ou agricultura!
    Ou seja, vamos estar entre os desejos da elite financeira que precisa de uns 10 anos. Tempo demasiadamente grande para o povo e a defesa das riquezas do país!

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