Brasil Pindorama, as contradições quando se fala de militares e nacionalismo, por Álvaro Miranda

O Centro de Estudos do Nacionalismo Marechal Horta Barbosa. será inaugurado hoje às 19h com a mediação do professor Eurico de Lima Figueiredo e a presença de Bresser-Pereira, Ciro Gomes e Darc Costa.

Brasil Pindorama, as contradições quando se fala de militares e nacionalismo, por Álvaro Miranda

A mais de um amigo chamou a atenção e causou certa estranheza o Centro de Estudos do Nacionalismo do qual sou vice-coordenador levar o nome de um militar, o Marechal Horta Barbosa. O centro será inaugurado hoje às 19h com a mediação do professor Eurico de Lima Figueiredo e a presença de Bresser-Pereira, Ciro Gomes e Darc Costa. Será pelo canal do Youtube do Instituto de Estudos Estratégicos (INEST) da UFF.

Uma pessoa chegou a sugerir que, pelo tema, talvez mais simpático fosse um nome indígena. Poderia ser também – e seria tão honroso quando o nome de um militar ou um civil preocupado em contribuir para resolver os graves e diversos problemas do povo brasileiro.

A sugestão de um nome indígena é até compreensível na atual conjuntura em que, de um lado, temos um desgoverno queimando o filme dos militares pelo desapreço à democracia e o lodaçal do fundo do poço a que chegamos na economia. Por outro, o gancho do momento acerca da questão histórica e crônica da demarcação das terras indígenas e sua proteção contra a ganância de interesses capitalistas.

Entretanto, a pressa da sugestão que me chegou com críticas contra o nome de um militar esconde certo esquecimento da história. Algo compreensível também num mundo veloz de informações superficiais, revelando, porém, quão complexo é o conjunto de questões envolvendo o que se imagina como ‘nacionalismo’. Uma das quais, o que seria mais representativo do “nacional” ou de uma “brasilidade”, digamos assim, na atual fase de expansão ultraliberal do sistema capitalista com todas as suas crises manifestas e latentes.

Ora, se reduzíssemos a noção de “nacional” a um símbolo indígena, sem dúvida alguma, estaríamos incorrendo num equívoco de compreensão daquilo que Lukács chamou de contradições de complexos dentro de outros complexos maiores. A alusão do pensador marxista diz respeito ao fato de que, no metabolismo dos seres humanos com a natureza, as formações sociais (etnias, nações, países, regiões etc.) são processos contraditórios dentro processos mais amplos.

Grosso modo, em outras palavras, estaríamos ignorando que o Brasil é uma formação contraditória de múltiplas determinações endógenas e exógenas, desde quando portugueses, franceses e holandeses invadiram essas terras para opressão e espoliação dos povos que aqui viviam.

Ignoraríamos com tal equívoco que tais invasões (o panegírico chama de “descoberta”, no caso da titularidade de portugueses) fazem parte daquilo que se categoriza como a fase da acumulação primitiva do capitalismo europeu. E que, passados quatro séculos, o que se chama Brasil tornou-se uma nação reconhecida oficialmente no sistema-mundo formada pela interação conflituosa de diferentes forças, segmentos, origens etc.

Mas vejam, de saída: os invasores naquela época eram já ‘nacionalistas’, defensores de suas pátrias, ávidos por colônias, chegando aqui através de uma ação militar. O Brasil nem era ‘Brasil’, tornando-se, portanto, um processo de lá para cá de contradições e conflitos como outros territórios inseridos na expansão capitalista mundial.

Raimundo Faoro talvez tenha sido impreciso ao se referir à nossa “república” como “inacabada”. Não existe república alguma ‘acabada’ no mundo. Todos os países são trajetórias dinâmicas em constantes movimentos contraditórios, levem o nome que for, se república, democracia, monarquia, socialismo, principado etc., e o Brasil não foge a essa realidade dinâmica.

Daí porque seria impreciso, a meu ver, um nome indígena, com todo respeito, amor, admiração e fascinação que tenho pela história desses povos em qualquer lugar do mundo, mas, principalmente, no Brasil.

Uma amiga pelo whatsApp chegou a perguntar se não haveria um nome melhor, em vez do de um militar, diante de tanta gente boa que já fez “tanta coisa” pelo país. Além da estranheza e do preconceito, outra manifestação no Facebook colocou em dúvida se a questão do nacionalismo não seria uma preocupação de setores intelectualizados da classe média, e que os mais pobres não estariam nem aí com esse tema, uma vez tendo que lidar com seu dia a dia de sobrevivência.

Podem parecer desvinculados, mas a estranheza pelo nome do centro de estudos, sua sugestão por um nome indígena, além do preconceito e o questionamento da necessidade, para os pobres, em relação às atividades voltadas para o tema convergem e reafirmam que estamos no caminho certo ao incentivar o debate sobre o nacionalismo, leve ou não o nome de um militar.

Está na ordem do dia colocarmos a defesa nacional e o nacionalismo. Só com um projeto verdadeiramente nacional poderemos enfrentar os graves e diferentes problemas atuais. Assim como os ícones e símbolos nacionais (principalmente as cores da bandeira) foram sequestrados por essa gente de índole fascista que anda por aí, o nacionalismo foi sequestrado por forças neoliberais supostamente ‘modernizadoras’ que cooptaram muita gente bem intencionada com a ilusão de um ‘cosmopolitismo’ sem fronteiras que dispensaria a própria ideia de identidade e defesa nacional.

Pelo Facebook respondi que Estados Unidos, Alemanha, Japão, China, Irã, Índia, África do Sul e outros tantos são governados por forças ‘nacionalistas’. Governos desses países articulam-se com forças capitalistas internas e externas numa dinâmica contraditória, de conflitos próprios, mas sempre tendo em perspectiva o seu país e não o desmonte da nação. Sempre tendo em vista incentivar o seu nacionalismo e tripudiar o dos outros.

Defendemos a compreensão das diferentes teorias do nacionalismo. Mas não, óbvio, o nacionalismo de araque e entreguista desse desgoverno. Sim, portanto, daquele que tem como perspectiva o desenvolvimento articulado, como disse, a um projeto de sociedade – e que contemple a vida, os interesses, a felicidade e o futuro de indígenas em suas aldeias e da imensa população de pobres das periferias das regiões metropolitanas brasileiras.

Essas provocações tornam oportuno o fato de que precisamos dos militares, sim, mas dos militares honestos, democratas e preocupados com o Brasil, e não dos que só pensam nos seus salários e privilégios, nem daqueles que acham que pobres, negros e indígenas têm que ficar confinados a uma situação de opressão ou até serem objeto de experimentos ou genocídio.

Precisamos também dos indígenas e sua preservação. Precisamos de seus ensinamentos sobre o metabolismo com a natureza. O nome do Centro de Estudos do Nacionalismo Marechal Horta Barbosa poderia ser outro, assim como nossos nomes como pessoas poderiam ser outros. Assim como a bandeira nacional pudesse não ter as cores que têm, mas sim a cor vermelha, numa alusão ao pau-brasil, a árvore que batizou o nosso país e que muita gente nem sabe por que seu nome tem sua etimologia “avermelhada”, porém escondida na bandeira, aparecendo só as cores que conhecemos.

Um país com nome dado, porém, pelos invasores e dominadores do século XVI, e não por indígenas numa hipotética deliberação com os colonizadores exploradores e assassinos daquela época. A propósito, aproveitando um restinho de brasa, opa, falando de Brasil, ou melhor, da polêmica do incêndio na estátua de Borba Gato, deveríamos fazer o quê? Mudar o nome do Brasil para Pindorama?  

Daí que Lukács me vem à cabeça para auxiliar quanto à necessidade da dialética, no caso, do materialismo histórico (parece complicada a dialética, mas não é), qual seja, o método para compreender a realidade estabelecendo nexos entre os fenômenos como contradições de complexos dentro de complexos maiores.

O nome do novo centro de estudos nasceu da pesquisa que resultou na tese de doutorado do pesquisador Helid Raphael de Carvalho, no Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense. Ele procurou saber, dentre outras coisas, quem foi esse militar que liderou a campanha “O petróleo é nosso” e que resultou na criação da Petrobras, em 1953, por Getúlio Vargas. Poderíamos (e até devemos sempre) lembrar outros nomes de militares, famosos e anônimos, inclusive daqueles que foram cassados e perseguidos pela ditadura militar de 1964.

Não se trata, obviamente, do enaltecimento em abstrato de um ‘espírito’ militar, coisa bizarra e despropositada. Mas sim, no caso de Horta Barbosa e de outros (Rondon defendia os indígenas), de algo emblemático, muito maior e acima do que pode supor a mesquinharia e a miopia de interesses corporativistas.

Trata-se, enfim, de “gancho” referente a uma determinada fase histórica do Brasil (Era Vargas), quando o país estava se desvencilhando dos grilhões agrários para outro estágio da expansão capitalista mundial. E agora como necessidade da ‘reinvenção’ do país, não voltando para trás, com saudosismos bucólicos, mas sim com olhos para os problemas concretos presentes e futuros.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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2 comentários

  1. Mais quantos espaços de propaganda & propaganda (travestidos de artigo jornalístico) desse ridículo e anacrônico “centro de estudos do nacionalismo” o GGN ainda vai publicar???

  2. Muito ridícula, embora infelizmente atual, é a tendência de odiar tudo o que é brasileiro. O autor deve achar que é honroso bater continência à bandeira dos EUA. É o principal legado de FHC, que se empenhou em destruir a “herança de Vargas”, e, ao lado de destruir o sistema das estatais, implantou o ódio racial importado e a divisão entre os brasileiros. Não é só a herança de “Vargas” (nome de Getúlio para seus inimigos), mas de todos os brasileiros que, desde o tempo do Império, passando por Olavo Bilac, os tenentes, os intelectuais do PTB e do antigo PSB, e até dos sambistas, fazendo o ritmo-síntese. Agem muito bem, e oportunamente, os que reavivam o nacionalismo, atualmente tão necessário nessa guerra híbrida que sofremos.
    A propósito, um nome indígena é totalmente inadequado. De qual povo indígena? E dentro da campanha de destruição da unidade nacional, muitos indígenas se declaram não-brasileiros.

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