21 de maio de 2026

Brasil virar Estados Unidos? Pode tirar o cavalinho da chuva, por Luiz Alberto Melchert

Muito além da conversa fiada cultural: o que impede a anexação do Brasil aos EUA é o risco de desmontar o pacto federativo norte-americano.
Reprodução

▸Brasil como estados dos EUA é devaneio cultural e político. Argumento cultural esconde o verdadeiro receio: poder e equilíbrio institucional.

▸EUA recusam anexações de territórios grandes por impacto político. Não é questão cultural, mas matemática do poder e equilíbrio entre estados.

▸Absorver Brasil nos EUA causaria desequilíbrio político e institucional. Poder demais para um recém-chegado e mudança drástica no cenário eleitoral.

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Brasil virar Estados Unidos? Pode tirar o cavalinho da chuva

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Se existe um bordão em conversas de botequim sobre política no Brasil, é o devaneio de que “se fôssemos um conjunto de estados americanos, tudo funcionaria”. A frase costuma vir acompanhada de um suspiro, um brinde imaginário à dolarização e, claro, a crença de que bastaria hastear a bandeira estrelada sobre o Palácio do Planalto para que a corrupção evaporasse, a violência desaparecesse e escolas e hospitais passassem a exibir padrões escandinavos de eficiência. A culpa de todos os nossos defeitos, nessa fantasia, estaria na nossa cultura; a salvação, na anexação. A coisa passou do devaneio ao desvario com estultice representada pelo dito narcoterrorismo, que não passa de uma tentativa de legitimar a intervenção estrangeira. O que não se conseguiu estendendo uma bandeira estadunidense em pleno 7 de setembro na Av. Paulista, volta agora com a chacina no rio de Janeiro.

A ironia começa justamente aí: o argumento cultural é sempre brandido com a convicção de uma verdade científica. “O problema do Brasil é cultural”, diz-se, com a solenidade de quem explica as leis da termodinâmica. Curiosamente, o mesmo discurso aparece — com espantosa simetria — nos Estados Unidos, quando o assunto é incorporar novos territórios como estados da União. A explicação oficial é um déjà vu: “não compartilham a nossa cultura”. É um mantra repetido desde o século XIX para justificar sucessivas recusas, ora ao Havaí (até 1959), ora a Porto Rico (até hoje), ora a qualquer outra vizinhança que cogite entrar “pela porta da frente” como exposto  na “Carta Aberta aos entreguistas”.

Conveniente, não? A cultura funciona como um biombo elegante para esconder o verdadeiro receio. Porque, sejamos francos, se “diferença cultural” fosse critério para anexação, a Louisiana comprada da França em 1803 estaria fora da União até hoje, o Texas jamais teria entrado em 1845 vindo do México, e o Havaí, com seu evidente hino polinésio, seria no máximo um protetorado exótico para ensaios de surf e lua de mel. Nada disso impediu Washington de estender sua fronteira quando havia interesse estratégico, econômico ou militar.

Se a cultura não explica, o que explica? A resposta é menos romântica e mais aritmética. A arquitetura política dos EUA é sustentada por um arranjo institucional meticulosamente equilibrado desde 1787. É um castelo de cartas sofisticado, mas sensível: qualquer mudança brusca de peso populacional — leia-se: entrada de milhões de novos cidadãos com direito político pleno — pode provocar um terremoto institucional. Não é o samba, a feijoada, o jeitinho ou a língua portuguesa que ameaçam o “american way of life”. É a matemática do poder.

Esse ponto fica cristalino quando se observa o caso de Porto Rico. A ilha tornou-se território americano em 1898, depois da Guerra Hispano-Americana, e em 1952 ganhou o status de “Estado Livre Associado”, um eufemismo elegante para “faz parte, mas não senta na mesa do poder”. Desde então, o debate sobre sua transformação em estado da União é uma novela com capítulos repetidos. E o argumento oficial, claro, insiste em temas culturais: diferenças linguísticas, tradições próprias, suposta dificuldade de integração. Quase poesia.

Mas, basta olhar os números para que a poesia vire prosa crua. Porto Rico tem cerca de 3,2 milhões de habitantes. Se entrasse como estado, teria direito a dois senadores e, provavelmente, quatro a seis deputados. Isso significa, em termos práticos, de seis a oito votos no Colégio Eleitoral. Parece pouco? Pois até esse “pouco” é suficiente para estados pequenos — como Wyoming, Vermont ou Dakota do Norte — perderem relevância relativa. E perder relevância é algo que nenhum político americano considera trivial. Não à toa, a transformação de Porto Rico em estado é tratada com a desconfiança de quem examina um contrato com letra miúda: não é cultura, é poder.

A ilha fala espanhol há cinco séculos, mas isso nunca incomodou verdadeiramente Washington. Prova disso é que, em New York, a área compreendida entre as ruas 96 e 112, já considerada off campus da Universidade de Columbia, é conhecida por “El Barrio”. O que incomoda é a aritmética. Com sua entrada, o equilíbrio do Senado — que dá dois assentos a cada estado, independentemente da população — mudaria. E se dois senadores porto-riquenhos pertencessem ao “partido errado” do ponto de vista de quem controla o Congresso? É aí que o discurso cultural revela sua verdadeira função: distração.

Se Porto Rico já é tratado como um risco institucional, imagine então o México. Não por acaso, a anexação mexicana é um fantasma que assombra — silenciosamente — qualquer devaneio imperial mais afoito. Vale lembrar que os Estados Unidos já tentaram, sim, incorporar um pedaço generoso do vizinho do sul. A Guerra contra o México, travada de 1846 a 1848, resultou na apropriação de mais da metade do território mexicano da época. Saíram de bandeja Califórnia, Novo México, Nevada, Utah, Arizona e parte do Colorado. Foi um dos maiores atos de expansão dos EUA — e, ao mesmo tempo, a última grande anexação de um território densamente povoado.

E por que não foram adiante? Por que não “terminaram o serviço” e fizeram do México um novo Texas — como o fizeram em 1845, quando a antiga república texana foi absorvida pela União? A explicação oficial, como sempre, recorreu a diferenças culturais, religiosas e linguísticas. Argumentou-se que seria difícil integrar um país católico, hispanófono e com tradições sociais diversas. Parece convincente até que se observem os fatos: se cultura fosse impedimento sério, o Texas — que falava espanhol e praticava o catolicismo — jamais teria sido aceito. A compra da Louisiana em 1803 incluiu populações francófonas e católicas. E, quando o Havaí se tornou estado em 1959, ninguém precisou aprender hula para votar no Senado.

A verdade é que a retenção do México como país soberano sempre foi menos questão cultural e mais cálculo institucional. Incorporar o México inteiro significaria, ainda no século XIX, admitir milhões de novos cidadãos, redistribuir cadeiras na Câmara e, principalmente, alterar o peso relativo dos estados do norte e do sul. O equilíbrio político que separava escravistas e abolicionistas — já em combustão — teria explodido duas décadas antes da Guerra Civil. Em suma: anexar o México teria antecipado o colapso federativo. Washington recuou não por choque cultural, mas por autopreservação política.

E aqui chegamos ao ponto central: os Estados Unidos não podem — institucionalmente — absorver países grandes. Não importa se falam espanhol, francês, português ou tibetano. Não é questão de idioma, culinária ou carnaval. É matemática. A estrutura do poder americano foi desenhada para funcionar com um certo equilíbrio entre estados grandes e pequenos. O Senado garante a igualdade entre eles, com dois representantes por estado; a Câmara distribui poder de acordo com a população; e o Colégio Eleitoral combina os dois critérios para escolher o presidente. É um tripé. Mexa no peso de um dos lados e o edifício inteiro balança.

Para entender o tamanho do problema, basta um exercício mental simples: imagine o Brasil anexado como 26 estados americanos, com o Distrito Federal incorporado a Goiás. De uma tacada, o Senado saltaria de 100 para cerca de 152 cadeiras. Isso significaria que o Brasil, sozinho, enviaria 52 senadores a Washington. Com esse número, não precisaria convencer muitos aliados para bloquear nomeações à Suprema Corte, travar tratados internacionais ou sabotar projetos de lei. Seria poder demais para um recém-chegado — e, para os Estados Unidos, politicamente inaceitável.

Na Câmara dos Representantes, a aritmética seria ainda mais perturbadora. Hoje, o Congresso conta com 435 deputados. Caso se mantivesse esse número, a entrada do Brasil redistribuiria a pizza: os estados americanos veriam sua fatia encolher drasticamente. Pelas proporções populacionais, o Brasil ficaria com algo em torno de 160 a 170 cadeiras, retiradas dos Estados Unidos. Isso reduziria o peso político histórico de estados como Califórnia, Texas e Nova York, que perderiam assentos e influência. Estados pequenos, como Wyoming e Vermont, sobreviveriam apenas graças ao piso mínimo de uma cadeira — mas com peso relativo menor ainda do que já têm. Uma verdadeira hecatombe para o equilíbrio doméstico de poder.

E no Colégio Eleitoral, onde o presidente é decidido, o estrago seria imediato. Hoje, são necessários 270 votos para vencer. Com o Brasil anexado, o total subiria, e o país adicionaria facilmente mais de 200 votos ao colégio. Resultado? Eleição para presidente dos Estados Unidos passaria a depender do eleitorado brasileiro. Não do “americano médio”, mas do cidadão de São Paulo, Minas ou Bahia. Seria o fim da narrativa de que o presidente dos EUA representa, primordialmente, os interesses políticos internos do país. Seria, para usar uma expressão leve, um golpe no orgulho nacional. Para usar uma expressão mais sincera, seria um pesadelo institucional.

E aqui reside o coração da tese: não existe cenário no qual os Estados Unidos aceitem dividir o poder político fundador da nação — a hegemonia do voto e do Congresso — com um país que traz centenas de milhões de novos cidadãos. Não se trata de preconceito cultural; trata-se de evitar o suicídio institucional. A recusa de anexar Porto Rico, a cautela diante do México e a impossibilidade absoluta de absorver o Brasil confirmam essa lógica. Washington até admite base militar, influência diplomática e controle econômico. Agora, entregar cadeiras no Senado e votos no Colégio Eleitoral? Só em delírio de ficção.

No fundo, a ideia de anexar o Brasil aos EUA se sustenta no mesmo escapismo do brasileiro que acredita que basta atravessar a fronteira para cair de cabeça n o paraíso. É a mesma ingenuidade travestida de esperteza — e alimentada pela crença de que o problema do Brasil está no samba, na praia, na língua ou na jabuticaba. Os Estados Unidos conhecem bem a armadilha da expansão: cada novo estado muda o jogo. Por isso, só anexam territórios pequenos, com pouca população e baixo impacto institucional. É assim desde o século XIX. Não é a cultura que apavora; é a urna. Para que se tenha uma ideia, São Paulo tem 46 milhões de habitantes, mais que o Texas com seus 39 milhões e a Califórnia com seus 32 milhões. Já imaginaram para quanto iria a campanha presidencial se o candidato tivesse de percorrer também o Brasil? Assim, se a intenção é entregar o país aos estadunidenses, podem tirar o cavalinho da chuva.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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