Capitalismo: violência contra a mulher, violência contra a terra, por Franklin Frederick 

Ao envenenamento do solo e da água pelos pesticidas defendidos pela Ministra Tereza Cristina, corresponde o envenenamento da sociedade pelo obscurantismo pregado pela Ministra Damares Alves e seus colegas do MEC.

Capitalismo: violência contra a mulher, violência contra a terra

por Franklin Frederick 

«A violência contra o ciclo da água é provavelmente a pior e também a mais invisível forma de violência porque ameaça a vida de todos.» – Vandana Shiva

O Observatório de Igualdade de Gênero da Comissâo Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) divulga anualmente o número de homicídios de mulheres a partir de 15 anos de idade ligados à razões de gênero na região. Em 2017, foram 2.795 mulheres assassinadas, sendo que o Brasil, com 1.133 vítimas confirmadas, foi o líder neste tipo de crime na América Latina, sendo registrado como o país com a quinta taxa mais alta do mundo em feminicídio.

Ao mesmo tempo, o Brasil também é o país de crimes ambientais como os de Mariana e Brumadinho e o campeão mundial no uso de pesticidas. Vandana Shiva, no livro «Staying Alive», chama a atenção para o fato de que «a violência fazia parte do próprio contexto em que os pesticidas foram descobertos durante a Primeira Guerra Mundial. A produção de explosivos teve um efeito direto no desenvolvimento de inseticidas sintéticos. Descobriu-se em 1916 que o gás lacrimogêneo poderia ser utilizado como inseticida, mudando-se assim o uso de um produto de tempos de guerra para tempos de paz. A descoberta do DDT foi o ápice de um esforço de pesquisa motivado apenas por interesses comerciais, mas a adoção deste componente estava intrinsicamente ligada à política da guerra.»

A lógica de um sistema econômico que leva aos crimes ambientais de Marina e Brumadino é a mesma que leva ao envenenamento dos solos, água, fauna, flora e seres humanos através do uso de pesticidas. E a mesma lógica também que conduz à violência crescente contra a mulher, chegando ao assassinato. A violência contra a Terra e a violência contra a mulher estão relacionadas e são consequências diretas da lógica do sistema patriarcal capitalista neoliberal que hoje tenta se impor em todo o mundo. A historiadora feminista Silvia Federici, em « Witches, Witch-hunting and Women» (Bruxas, caça às bruxas e mulheres), assim descreveu este fenômeno:

«(…) testemunhamos hoje uma escalada da violência contra a mulher, especialmente as afro-descendentes e as indígenas, porque a «globalização» é um processo de recolonização política que pretende dar ao capital o controle total  sobre as riquezas naturais e o trabalho humano. Isto não pode ser conseguido sem atacar as mulheres que são diretamente responsáveis pela reprodução em suas comunidades. Não é surpreendente que a violência contra as mulheres seja mais intensa nas partes do mundo (África Sub-saariana, América Latina, sudoeste da Ásia) que são as mais ricas em recursos naturais e que agora são objeto de exploração comercial e onde as lutas anticoloniais foram mais fortes. Brutalizar as mulheres (…) pavimenta o caminho para o acaparamento de terras, para as privatizações (…). Sobretudo, o ataque às mulheres tem sua origem na necessidade do capital de destruir aquilo que ele não pode controlar e degradar o que ele mais necessita para a sua reprodução, o corpo das mulheres, pois mesmo nesta época de super-automação, nenhum trabalho, nenhuma produção existiria sem o que é o resultado da nossa gestação.»

 Esta dupla violência – contra a mulher e contra a Terra – fazem parte da própria origem e desenvolvimento do sistema capitalista. Outra importante historiadora feminista, Carolyn Merchant, no livro fundamental «A Morte da Natureza», resumiu do seguinte modo esta história:   

«Entre 1500 e 1700 uma transformação incrível aconteceu (…) Uma economia de subsistência onde recursos naturais, dinheiro e trabalho eram trocados por bens e objetos manufaturados, foi substituída em muitas partes  pela acumulação incessante de lucros em um mercado internacional. A natureza viva e animada morreu, ao mesmo tempo em que o dinheiro inanimado foi dotado de vida. O capital e o mercado cada vez mais assumiriam os atributos orgânicos de crescimento, atividade, gestação, fraqueza e envelhecimento, obscurecendo e mistificando as novas relações sociais de produção e reprodução que tornavam possível o crescimento e o progresso econômico. A natureza, as mulheres, os negros, ganharam um novo «status» como recursos naturais e humanos para o novo sistema mundial.»

A violência do nascente sistema capitalista contra a Terra, sua necessidade de exploração desenfreada dos recursos naturais, conduz à «morte» da natureza na consciência coletiva: a natureza tem ser «morta» para que sua exploração como «recurso» não tenha limites, pois limites colocados à exploração da natureza seriam limites colocados também aos lucros obtidos por esta mesma exploração. No livro acima citado, Carolyn Merchant explica como a ciência ocidental se desenvolveu internalizando esta visão de uma natureza a ser dominada e submetida – como as mulheres – à ordem patriarcal. O homem, o sexo masculino, é colocado além e acima da «feminina» natureza, justamente para melhor dominar e explorar tanto as mulheres como a natureza. Corroborando o trabalho de Carolyn Merchant, Silvia Federici chamou a atenção para o fato de que a «caça às bruxas» na Europa, quando milhares de mulheres foram queimadas vivas em fogueiras, foi um fenõmeno exatamente contemporâneo da revolução científica. E foram as conquistas da revolução científica em vários domínios que permitiram a expansão colonial européia e o desenvolvimento do capitalismo.

À violência colonial, que une a exploração das riquezas naturais das colônias à exploração do trabalho escravo, corresponde uma outra colonização, a do espírito: uma repatriarcalização da sociedade que legitima o poder e a «superioridade» – racial, intelectual e moral – do homem branco, ao qual a mulher deve se submeter. Em parte, a caça às bruxas na Europa foi uma ampla campanha de terror para submeter as mulheres «rebeldes», que desafiavam o poder masculino, que resistiam a esta colonização espiritual e que, sobretudo, mantinham e defendiam uma outra relação com a natureza.

O capitalismo neoliberal atual é a retomada do projeto colonial europeu e de sua consequente repatriarcalização da sociedade. Não é por acaso que o processo iniciado com o golpe de estado que depôs a Presidente Dilma Rousseff tenha levado à implantação do Governo Bolsonaro. As forças econômicas e sociais por trás do golpe são as mesmas que estão por trás da manutenção do Governo Bolsonaro e de suas escolhas. O objetivo maior por trás do golpe e do atual governo sempre foi entregar as riquezas – naturais e públicas – do Brasil ao capital internacional; ou seja, transformar o Brasil numa neocolônia. Já a repatriarcalização da sociedade brasileira, fundamental para a manutenção no poder do neoliberalismo, tem sido desde muito tempo a tarefa de certas igrejas evangélicas, como a Igreja Universal do Reino de Deus. Esta repatriarcalização é a responsável direta pelo aumento da violência contra a mulher e por todo o obscurantismo que se alastra e que procura apagar todas as conquistas socias e culturais que vêm sobretudo das lutas da década de 60 do século passado. A indicação de Damares Alves para Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e a escolha, primeiro, de Ricardo Vélez e agora de Abraham Weintraub para comandar o Ministério da Educação e Cultura -MEC – bem como o interesse declarado da bancada evangélica no congresso nacional por este Ministério, são exemplos claros da tentativa de colocar a educação de todo o país a serviço do projeto de repatriarcalização da sociedade brasileira e revela também a centralidade desta proposta dentro do projeto neoliberal.

Já as escolhas de Ricardo Salles para comandar o Ministério do Meio Ambiente e de Tereza Cristina, justamente conhecida como a «Musa do Veneno», para o Ministério da Agricultura, indicam que o aumento da violência contra a Terra é parte integral da política do atual Governo.  Ao envenenamento do solo e da água pelos pesticidas defendidos pela Ministra Tereza Cristina, corresponde o envenenamento da sociedade pelo obscurantismo pregado pela Ministra Damares Alves e seus colegas do MEC. Como escreveu Silvia Federici em «Re-enchanting the World», para deixar bem claro a relação de classes que o projeto neoliberal procura ocultar, «a mesma classe política que torna praticamente impossível para as mulheres obter o seu próprio sustento e o de suas famílias, é a que as criminaliza quando elas tentam fazer um aborto».

A violência contra a mulher e contra Terra vai continuar enquanto o modelo neoliberal e a classe a que ele serve persistirem no poder. Precisamos construir uma alternativa que reconheça o papel central da mulher nas lutas econômicas, sociais e políticas de nosso tempo. E que recupere uma relação de reverência, gratidão e carinho com nossa mãe comum, a Terra.

Franklin Frederick

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1 comentário

  1. Excelente artigo, mas é importante acrescentar outros aspectos da questão, como a história dessa constatação no pensamento feminino/feminista, do incômodo que toda mulher (ou pessoa LGBTQ, se quisermos ampliar o escopo da opressão) sentiu/sente, ainda que o tenha recusado como desafio, ao trabalho intelectual feito a partir dele: do Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, a Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, toda menina que teve que aprender a jogar bola sozinha sob o desprezo e boicote masculino, para não ter sua feminilidade artificializada como “bonequinha sem vontade própria”, ou mulher-objetificada, se tornar “meio moleque”, ou por ser assim, ter sua sexualidade “sob suspeita” – e com isso entender como sexualidade, identidade, gênero e papéis sociais são sufocados em modelos restritos com finalidade de exclusão e de homogeneização (o que seria do capitalismo sem essas ferramentas de controle dos indivíduos, onde a simplificação serve à “otimização de processos para aumento da rentabilidade”, rs), que cultivou o espontâneo questionamento do que justifica os condicionamentos sociais – e com ele a subversão de a tudo questionar, rs, como se a vida não pudesse ser vivida sem “a mania de compreensão” (Gil), encontra nessas autoras aquela sensação de “ah, então era isso… não estou sozinha”.
    Mas com o gradativo trabalho do tempo sobre essas questões, vemos que corremos o risco de transformar certos discursos em apenas um espelho simétrico ao patriarcalismo, com a substituição dos elementos da equação sem desafiar sua lógica de dominação.
    O fator biológico na disputa de poder, que afinal, é do que se trata quando falamos do Homem que detém a força mas não pode Gerar – daí sua similar hostilidade a tudo que o possa e a ele se relacione, como o Cuidado: mulher, Natureza, Arte (ai, coisa de gente “efeminada”), pacificadores, qualquer um que renuncie ao estatuto da virilidade como brutalidade (a hostilidade contra homens gays, por exemplo) ou louvor a quem o assuma até como discurso de “igualdade” (no caso de mulheres ou LGBTQs que adotam o padrão de autoritarismo e de mentalidade predatória: “pense como homem e comporte-se como uma dama”; mulheres que assumem posições de poder e querem ter “o melhor dos dois mundos”, o mando autoritário na rua e ostentarem que também construíram “família”, em oposição às que não, e tudo como forma de cálculo de sucesso pessoal como se fossem empresas em concorrência…).
    Muitas mulheres confundem o direito de reivindicar os papeis de mãe, de dona de casa e de cônjuge – que foi recusado de maneira duvidosa por muitas como forma de rejeitar a opressão com eles identificada – com a utilização desses status de maneira competitiva com mulheres que não os têm – e que nem por isso os depreciam, apenas não os escolheram ou não aconteceram, sem qualquer juízo de mérito -; trata-se de fato, de algo que muitas mulheres que se dizem feministas falham em discutir, da reprodução do mecanismo de buscar uma justificativa socialmente aceitável para a prevalência de alguns grupos sobre outros. Existe, na vida real nada coerente que as teorias silenciam enquanto não se tornam digeridas suas contradições, também da parte das mulheres, a apropriação do fator biológico como critério de afirmação subjetiva e exercício de poder social excludente e opressivo contra o/a diferente, como por exemplo, mulheres feministas que negam o reconhecimento de mulheres trans (a atriz Rose McGowan, que denunciou o produtor de cinema Harvey Weinstein por assédio sexual, interrompeu a divulgação de livro recentemente, salvo engano, por controvérsia que envolveu declarações suas e discussões em livrarias sobre o tema – ela não reconhece (não sei se mudou de ideia) a feminilidade trans porque falta o aparato genital-reprodutivo…; como se, ao contrário do que dizia Beauvoir, ser mulher fosse uma definição biológica (mais ou menos o que faziam com mulheres estéreis no passado, socialmente rejeitadas por lhe faltar a potência biológica que justificaria sua existência e subjetividade; o que ao mesmo tempo nega aos homens trans sua reivindicação porque ainda “portam” genitália de mulher). E aqui não se discute as pessoas que de fato se sentem deslocadas em seus corpos nem o papel da biologia na constituição do sujeito, mas o reconhecimento social por terceiros daqueles que se apresentam como um determinado gênero sem apresentar certas “credenciais”.
    Mas há outros critérios para questionar e reconfigurar a relação entre os diferentes sexos e gêneros, que são menos suscetíveis a serem voltados contra si, por exemplo, a questão ética com a qual se decidem disputas de poder, quais critérios são mobilizados para resolver conflitos e como é exercida a força e a autoridade que todos têm, em algum grau. Trata-se dos valores éticos escolhidos e postos em prática e sua relação de coerência ou oportunismo com as premissas de sua justificação. O império patriarcal não seria tão forte se não fosse a contribuição decisiva de mulheres, talvez porque na luta contra a opressão brutal as disputas e diferenças entre as diferentes visões das mulheres sobre si mesmas tenham sido sufocadas ou subestimadas – como dizer que é sororidade não criticar outras mulheres apenas por sua filiação de gênero e assim criar uma falsa e alienante aliança contra o machismo!
    Sem articular no abstrato todas essas dimensões que na vida estão entrelaçadas, difícil que o feminismo deixe de ser um clube e passe a ser uma forma coletiva e disseminada de entender o papel da mulher, e dos LGBTQs, nas diferentes sociedades e contextos de disputa de poder.
    A mulher não pode aceitar ser valorada apenas por seus atributos biológicos (como a possibilidade de gerar descendentes) como forma de contrapor a Força masculina e não apenas por ser incoerente com sua defesa da igualdade de direitos mas porque justifica que entre mulheres a mesma lógica da dominação e da hierarquização conforme a posse de atributos “comercializáveis” socialmente prevaleça.

    A igualdade de direitos e a rejeição a todas as formas de opressão deve se basear exatamente no fato de que, não importa a sexualidade, o gênero ou a identidade, o que nos define como humanos é algo comum a todos, a forma como exercemos nosso poder enquanto indivíduos e os valores que mobilizamos para nos relacionar coletivamente.
    Se nos tornarmos Mulher é algo que resulta de um processo cultural, nos tornarmos Humanos é ainda mais complicado porque depende da jornada solitária que fazemos nos escombros de nossas almas. Das muitas lições de Clarice Lispector, uma que muito me marca é de sua biografia, que registra uma observação de seu pai quando alguém se comportava de maneira exemplar: é que se tratava realmente de uma pessoa, algo raro e difícil de alcançar. E isso transcende todas as caixinhas em que eventualmente somos identificada/os.
    Essas novas gerações têm o desafio e a oportunidade de erradicar o patriarcalismo sem que o acerto de contas com o passado seja feito contra os meninos de hoje e homens de amanhã, ou contra os homens de qualquer tempo que não tenham aderido ao estatuto do seu gênero “macho”, muitos dos quais se sentem oprimidos ou injustiçados por uma sociedade em que a cacofonia prevalece sobre a coragem de falar sobre o que incomoda, e sobre o que faz o olho brilhar.

    Sampa/SP, 20/04/2019 – 14:45

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