5 de junho de 2026

Independência de Gana e a reparação à diáspora, por Carolina Morais

Desde 2019, o Year of Return, o país vem dizendo que a diáspora africana não está sozinha. Há um lugar que também pode ser chamado de casa.
Reprodução

Gana celebrou 69 anos de independência em São Paulo, destacando seu papel pioneiro na emancipação africana em 1957.
A estrela negra da bandeira simboliza a liderança africana e a conexão com a diáspora, que Gana acolhe com cidadania.
Em março, Gana concedeu cidadania a 150 pessoas da diáspora, reforçando seu compromisso com reparação e inclusão transatlântica.

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Black star: independência de Gana e a reparação à diáspora

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por Carolina Morais

Na última sexta-feira, dia 6, Gana soprou 69 velinhas de independência. A comemoração aconteceu em São Paulo, num encontro organizado pela embaixada ganesa com a empresa Quibuntu. Foi uma celebração elegante, daquelas que parecem simples, mas carregam um peso histórico considerável. Porque a independência de Gana, lá em 1957, não mudou apenas o destino de um país — ela abriu a porta para mais de quarenta outras independências africanas que viriam depois. Gana foi a primeira a dizer, com todas as letras: “agora chega”.

Quando pensamos em Gana, muita gente logo imagina um cenário colonial: navios, ouro, escravidão, fortalezas na costa e aquela parte pesada da história atlântica. Tudo isso existiu, claro. Mas parar aí seria como assistir apenas ao um único ato de uma peça longa e complexa.

Antes da chegada dos europeus, havia ali uma história poderosa em andamento. O Império Ashanti, por exemplo, tinha sua capital em Kumasi e funcionava como um Estado organizado: exército estruturado, sistema jurídico próprio, comércio ativo — sobretudo de ouro. Não era um canto esquecido do mundo. Pelo contrário, Gana não era periferia da história mundial, era centro de gravidade.

No século XV, quando os europeus apareceram na costa, o jogo mudou bastante. Fortalezas como Elmina Castle e Cape Coast Castle surgiram como pontos comerciai e, infelizmente, como engrenagens do tráfico atlântico de pessoas escravizadas. O Atlântico reorganizou rotas, economias e poderes. Ainda assim, há um detalhe importante que a história às vezes esquece de contar: as estruturas políticas africanas não desapareceram. Elas resistiram, adaptaram-se e seguiram existindo.

Séculos depois, em 1957, Gana fez história outra vez ao tornar-se o primeiro país da África Subsaariana a conquistar sua independência. Não foi apenas um evento nacional. Foi um gesto continental — e, de certo modo, também transatlântico. Na bandeira ganesa brilha uma estrela negra. Não é um detalhe decorativo. Inspirada no pensamento de Marcus Garvey, ela simboliza liderança africana, liberdade política e a reconexão entre o continente e sua diáspora. Desde então, Gana passou a ser vista como um farol de emancipação. E talvez possamos ir um pouco além: um farol não apenas para a África, mas também para a diáspora africana espalhada pelo mundo.

Na esteia de um discurso que se transforma em prática, no último dia 9 de março, por exemplo, Gana concedeu a cidadania ganesa a 150 pessoas nascidas na diáspora. Não foi um gesto isolado. Desde 2019, declarado como o Year of Return, o país vem dizendo com certa insistência que a diáspora africana não está sozinha no mundo. Há um lugar que também pode ser chamado de casa.

Gana foi pioneira em conceder passaportes e cidadania a pessoas da diáspora. E, ao fazer isso, envia uma mensagem simples — e profundamente política: casa é o lugar onde você não precisa pedir visto para entrar.  Mais do que isso: é o lugar onde você é recebido não como visitante, mas como alguém que chegou para contribuir, trabalhar, investir, criar filhos e participar da vida econômica e cultural.

Essa estratégia — uma mistura elegante de política externa e soft power — ajuda a construir uma imagem de Gana no mundo. Uma imagem que ecoa os discursos de Kwame Nkrumah, primeiro presidente do país, quando ele dizia algo que continua soando atual: “Não somos africanos porque nascemos na África.
Somos africanos porque a África nasceu em nós.”

Ao abrir as portas para a diáspora, Gana também se posiciona no centro dos interesses de milhões de pessoas que, muitas vezes, sentem que pertencem a mais de um lugar ao mesmo tempo. Pessoas que carregam conhecimento, capital, experiências — e que começam a olhar novamente para o continente africano como possibilidade de futuro.

Essa história de reencontro e retorno, vem de longe. Passa, por exemplo, pela decisão do grande intelectual afro-americano W. E. B. Du Bois, que se mudou para Accra, onde viveu seus últimos anos e foi enterrado. E continua hoje, com o atual presidente John Dramani Mahama assumindo um papel importante nas discussões sobre reparação histórica para a África e sua diáspora — um tema que promete ecoar novamente na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas no próximo 25 de março, data dedicada à memória das vítimas do tráfico transatlântico. A proposta que circula nos bastidores é forte: reconhecer a escravidão como o maior crime contra a humanidade. Se isso acontecer, será mais um capítulo dessa longa conversa entre passado e futuro.

            No fundo, a história de Gana parece sempre voltar ao mesmo ponto:
lembrar ao mundo — e especialmente à diáspora — que sua história importa. E que, em algum lugar do Atlântico, há um país dizendo com certa tranquilidade: “Quando você quiser voltar, a porta está aberta.”

Carolina Morais – Historiadora e co-fundadora da The African Pride

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